NELSON ASCHER
O Fim da Poesia?
É possível reverter essa queda e tornar a poesia novamente importante e popular?
A PARTIR de 1922, oficialmente, os poetas brasileiros deixaram de lado tanto os augustos mármores com ecos argênteos ou brônzeos do parnasianismo como os turíbulos, missais e castos aromas de incenso do simbolismo, e passaram a compor, pelo telefone, poemas sobre o trânsito, o semáforo e a eletricidade. Claro que nem tudo se reduzia a esse esquema simples.
Augusto dos Anjos já recorrera a um léxico de estudante de medicina ou de biólogo amador, à cultura de um leitor provinciano de almanaques que, vindos da capital federal, anunciavam novas descobertas e invenções, para orquestrar em seus sonetos uma sonoridade grotesca cujo fascínio hipnótico poucos negariam.
Enquanto isso, Manuel Bandeira, familiarizado com Heinrich Heine, criava suas canções pseudo-ingênuas ou, inspirado por Verlaine, transformava nosso carnaval tropical num espetáculo a um tempo melancolicamente decadente e elegante o bastante para evocar a corte dos Bourbons.
Independentemente, porém, de contra o quê se revoltava, a poesia moderna como ela começou a ser praticada aqui nos anos 20 caracterizou-se pelo abandono das formas fixas e pela adoção da linguagem coloquial. O que, pelo menos de início, ocorreu com as formas não foi diferente no seu caso do que sucedera com a pintura quando saiu dos limites do figurativismo e com a música atonal.
O curioso é que sua contrapartida, a incorporação de temas não "poéticos" e de uma fala oriunda do cotidiano, apontava numa direção oposta. Pois as formas fixas fornecem ao leitor um padrão consagrado, um ambiente seguro dentro do qual este se sente em contato com a poesia. Graças, em geral, a esse acordo de base, o poeta pode negociar com ele a alteração de outros elementos. Sem a certeza prévia que essas formas lhe dão, cabe a cada leitor se tornar um especialista que tenta desvendar se aquilo que lhe foi apresentado é de fato um poema ou não. Uma tarefa exigente e, enfim, para poucos.
Qual, no entanto, o vínculo de necessidade entre essa redução do círculo de leitores e a propensão a falar quase sempre nas cadências de uma pretensa "vox populi"?
Menos de complementaridade que de compensação: talvez os poetas de então pensassem que, buscando competir com o noticiário e as manchetes jornalísticas, recuperariam os leitores que perdiam com o que, embora o chamado de experimentalismo, era antes a quebra de um contrato secular. O coloquialismo em si já era, não uma conquista, mas uma concessão e, depois desta, outras viriam, todas insuficientes.
O fato é que os poetas da geração seguinte, os que estrearam nos anos 30/40, recuaram diante da possibilidade de alienar de vez o público restrito que a poesia ainda possuía e se lançaram na criação de obras complexas que não desistiam de antemão de nenhum instrumento potencialmente útil.
Não é à toa que Drummond escreveu sonetos, Vinicius compôs baladas e João Cabral raramente se afastou da quadra. Seja como for, nenhuma medida, nenhum recuo tático bastou para recolocar a poesia na posição de arte central à qual ela naturalmente aspira.
E, para provar involuntariamente essa constatação, os poetas dos anos 70 se autodenominavam "marginais" como se ainda houvesse algum que não o fosse. De quantas artes já tiveram um estatuto melhor e um público maior, nenhuma parece ter caído tanto quanto a poesia e isso, paradoxalmente, durante o século 20, quando surgiram não somente algumas das vozes mais memoráveis que o Ocidente produziu, mas também tradições anteriormente ignoradas se apresentaram, através da tradução, a um público que, pela primeira vez na história, prometia se tornar universal.
É possível reverter essa queda e tornar a poesia novamente importante e popular?
Por sorte, o futuro a deus pertence e as tendências que abriga não são facilmente desvendáveis. Muito depende do empenho dos próprios poetas, naturalmente, de sua capacidade de reconhecer que sua arte, se bem que nutra inúmeras outras, talvez esteja beirando a extinção. O papel do público, porém, não pode ser ignorado e tudo, no último século, aponta para consumidores cada vez mais preguiçosos, cada vez mais sequiosos de um prazer fácil, repetitivo e que não envolva maiores esforços. Como convencer um público sedado por uma satisfação pré-digerida de que há, sim, prazeres maiores, mas que desfrutá-los requer trabalho, empenho e suor?
Poema em linha reta
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
28.2.07
14.2.07
16.1.07
2007?!.... Que venha...

Já pra sempre!
Right now for ever!
Tal chuva estática Such static rain
Acomoda a passagem de ano Acommodates the passage of the year
Em goteiras e respingos In leaks and sparkling
A borrar o sangue coagulado no chão, Smearing clotted blood on the ground,
Os restos de facadas Remainings of knife wounds
E de trisques da travessia And trisques during the crossing
Irrecuperados Unrecovered
Em suas cicatrizes. In scars.
O alarme terrestre soa The terrestrial alarm strikes
Certo temor estagnado Certain stagnant fear
No ventre do consumo irrefreável In the womb of uncontrolled consumption
Sem rupturas de paradigmas, Without ruptures of paradigms,
Sem um ataque frontal do medo Without a front attack of fear
Agora. Now
Sim, assim e agora. Yes, like this and now.
Os filhos hão de conhecer Children will have to meet
A mãe usurpada The usurped mother,
Estuprada na inconseqüência Raped in the inconsequence
De pequenas ações volumadas Of small bulky actions
Em catástrofe In natural-social
Naturo-social. Catastrophe.
Estas catástrofes entram no campo de visão These catastrophes enter the vision field
Do espelho a refletir apenas umbigo – Of the mirror reflecting only the navel -
Adentra voraz, com estardalhaço They enter fiercely,clattering
De uma conspiração desfavorável. From an unfavourable conspiracy
Que venha 2007 Come 2007
Com o bojo túrgido The womb swollen with
De incoerências, violações Incoherences, assaults
Traições impunes, Unpunished treasons,
Truculentas trilhas ao intimo, Harsh in trails
Aprendizados dolorosos e fugazes, Painful and transitory learnings
Virulências, Virulences
Explosões de egos descabidos, Explosions of showy egos,
De tempos fugidios (mais um entre tantos pleonasmos). Of fugitive times (one more among so many pleonasms).
Com um pouco menos With a little less
De descompasso entre ser e entender, Of unbalance between to be and to understand,
Entre o corpo e a alma; Between body and soul;
Um tanto menos de misérias, A little fewer miseries,
Inclusive as de caráter; Including the ones of character
Com um tanto bom With such an amount
Do espírito calejado dos oprimidos Of calluous spirit of the opressed
Dos que fazem da vida Of those who do of life
A arte de espremer o inviável The art of squeezing the unviable
Com o bucho cheio With the belly full
De atos nus de pretensão Of nude acts of intention
De sabores reconquistados Of reacquired flavors
De militância aos detalhes, Of militancy to details
Da amizade incondicionável. Of unconditionable friendship
Que venha com o bucho cheio Come with the belly full
Do já pra sempre. Right now forever
Que venha! Just come
Felipe Modenese
01-01-2007
Tal chuva estática Such static rain
Acomoda a passagem de ano Acommodates the passage of the year
Em goteiras e respingos In leaks and sparkling
A borrar o sangue coagulado no chão, Smearing clotted blood on the ground,
Os restos de facadas Remainings of knife wounds
E de trisques da travessia And trisques during the crossing
Irrecuperados Unrecovered
Em suas cicatrizes. In scars.
O alarme terrestre soa The terrestrial alarm strikes
Certo temor estagnado Certain stagnant fear
No ventre do consumo irrefreável In the womb of uncontrolled consumption
Sem rupturas de paradigmas, Without ruptures of paradigms,
Sem um ataque frontal do medo Without a front attack of fear
Agora. Now
Sim, assim e agora. Yes, like this and now.
Os filhos hão de conhecer Children will have to meet
A mãe usurpada The usurped mother,
Estuprada na inconseqüência Raped in the inconsequence
De pequenas ações volumadas Of small bulky actions
Em catástrofe In natural-social
Naturo-social. Catastrophe.
Estas catástrofes entram no campo de visão These catastrophes enter the vision field
Do espelho a refletir apenas umbigo – Of the mirror reflecting only the navel -
Adentra voraz, com estardalhaço They enter fiercely,clattering
De uma conspiração desfavorável. From an unfavourable conspiracy
Que venha 2007 Come 2007
Com o bojo túrgido The womb swollen with
De incoerências, violações Incoherences, assaults
Traições impunes, Unpunished treasons,
Truculentas trilhas ao intimo, Harsh in trails
Aprendizados dolorosos e fugazes, Painful and transitory learnings
Virulências, Virulences
Explosões de egos descabidos, Explosions of showy egos,
De tempos fugidios (mais um entre tantos pleonasmos). Of fugitive times (one more among so many pleonasms).
Com um pouco menos With a little less
De descompasso entre ser e entender, Of unbalance between to be and to understand,
Entre o corpo e a alma; Between body and soul;
Um tanto menos de misérias, A little fewer miseries,
Inclusive as de caráter; Including the ones of character
Com um tanto bom With such an amount
Do espírito calejado dos oprimidos Of calluous spirit of the opressed
Dos que fazem da vida Of those who do of life
A arte de espremer o inviável The art of squeezing the unviable
Com o bucho cheio With the belly full
De atos nus de pretensão Of nude acts of intention
De sabores reconquistados Of reacquired flavors
De militância aos detalhes, Of militancy to details
Da amizade incondicionável. Of unconditionable friendship
Que venha com o bucho cheio Come with the belly full
Do já pra sempre. Right now forever
Que venha! Just come
Felipe Modenese
01-01-2007
4.1.07
Verdade em si para 2007
"Ser feliz é desejar o que temos, ou o que é. Esperar é ter medo. Ser feliz é ser sereno."
"A sabedoria está mais do lado da vontade que da esperança, mais proximo da ação que da fé. O sábio é um homem de ação."
"Toda verdade é eterna. Mas não é uma eternidade após a morte. É a eternidade presente ou o presente eterno."
"O conteúdo da felicidade é alegria. Não há alegria maior que o amar. Amar é contentar-se com o que existe. A única felicidade está dentro da verdade."
trechos da entrevista de André Comte-Spunville à revista Época (1-01-2007 pág.30)
"A sabedoria está mais do lado da vontade que da esperança, mais proximo da ação que da fé. O sábio é um homem de ação."
"Toda verdade é eterna. Mas não é uma eternidade após a morte. É a eternidade presente ou o presente eterno."
"O conteúdo da felicidade é alegria. Não há alegria maior que o amar. Amar é contentar-se com o que existe. A única felicidade está dentro da verdade."
trechos da entrevista de André Comte-Spunville à revista Época (1-01-2007 pág.30)
18.12.06
Solo Fértil
Série “O minhocário”
I - Fezes, Urina e Sangue. Bastante deste último
Uma leve palpitação, suores e um sopro frio na boca do estomago apareceram centésimos de milésimos antes de Carmen receber a consciência a lembrança de que tinha de buscar os resultados dos exames laboratoriais.
Os medos e neuroses kaypislonizam a atenção de Carmen. Várias vezes a tira de papel dobrada no console do Fusca sinalizou fantasmas bafejando sua mente, mas escorregavam pela aflição aos possíveis desdobramentos de uma doença fatal, à ramificações onipresentes da morte.
Entretanto, naquele momento, naquela situação céstica da tarde, um impulso de enfrentar a vida e seus dissabores sofregamente emergiu. Tinha de encarar sua doença, mesmo sendo uma doença de doenças.
Só de pensar os analistas do laboratório poderiam ter feito um teste de AIDS, Carmen reconheceu um calor na face. Encarou a morte eminente e irremediável.
Aceitou o desafio.
Hoje ou nunca mais poderá fazer as pazes com seu corpo, sua intimidade. Que a detecção precoce de sua enfermidade ideal possa aumentar as chances de sua sobrevida. No caminho do guichê do galpão de arquivos, imagina quem será o primeiro a receber a noticia, quem poderá oferecer o melhor acolhimento, sem pena – Carmen nunca gostou de ser a coitadinha. Sabe com quem poderá fazer os primeiros pedidos dos coquetéis. Lembra de um ator na TV que disse ser aidético há 17 anos. Soma o número a sua idade atual e chega a um bom numero para sua morte, seu enterro, ainda mais se comparado com os tuberculosos de antigamente, os suicidas românticos ou os desnutridos recém-nascidos africanos. Aceitou a morte.
Enquanto Alzira busca a pasta com os resultados dos exames, Carmen olha a figura obesa e crente da secretária: a blusa clara florzinhas, a saia azul, a sandália preta, o cabelo crespo preso com uma piranha vermelha, o brotamento dos pêlos raspados na face formando uma barba macia, seu jeito amoroso e solicito.
Alzira traz as folhas com letras impressas – de certo é de uma das primeiras impressoras Epson lançadas e descartada por outros departamentos do hospital. A palpitação amortecida por uma coragem que dá as caras pela primeira vez.
Teve raiva da médica que pediu os exames. Quando foi ao clinico geral, queria apenas uma opinião sobre pêlos que encravavam na virilha. “Pra não perder a viagem”, a médica sugeriu fazer analises dos fluidos corporais e das fezes.
Aos poucos, a visão embaralhada define os caracteres nos papel. Não localiza nenhuma sentença ou veredicto, apenas números, porcentagens seguidos de unidades sem significado algum. Não há nenhum URGENTE em vermelho, mas também não há nenhuma absolvição, uma chave para suas correntes.
Os “negativos” não informam, não dissolvem a nuvem de desespero que irrompem pelas trincas de seu rosto em sorrisos de despedida da atendente. Aos poucos, Carmen percebe que, na frente de cada variável analisada, há um intervalo de normalidade para as medidas. Confere todos os parâmetros do sangue e urina... Mas e os das fezes?
Voltou ao guichê. O exame das fezes não está pronto. Uma iluminação chega a carmen. Uma confirmação de que algo está errado. Eles, provavelmente, devem tomar providencias mais drásticas dada a violência que a descoberta da doença intestinal pode provocar no hospedeiro, ao menos conclui isso o bolo de minhocas da cabeça de Carmen.
Parasitas, doença de Chagas, vermes, esquistossomose, larvas, mosquitos, ovos na corrente sanguínea, lombrigas, ventosas, tênia, carne de porco mal-passada, hospedeira, poças, descalça, frieiras, verduras mal-lavadas, os passeios, as comidas caseiras, de sitio de fim de semana...
Tudo é uma turbulência na cabeça de Carmen. Trancou o cú e ganhou mais uma minhoca subiu para sua coleção.
Biu
30-11-2006
I - Fezes, Urina e Sangue. Bastante deste último
Uma leve palpitação, suores e um sopro frio na boca do estomago apareceram centésimos de milésimos antes de Carmen receber a consciência a lembrança de que tinha de buscar os resultados dos exames laboratoriais.
Os medos e neuroses kaypislonizam a atenção de Carmen. Várias vezes a tira de papel dobrada no console do Fusca sinalizou fantasmas bafejando sua mente, mas escorregavam pela aflição aos possíveis desdobramentos de uma doença fatal, à ramificações onipresentes da morte.
Entretanto, naquele momento, naquela situação céstica da tarde, um impulso de enfrentar a vida e seus dissabores sofregamente emergiu. Tinha de encarar sua doença, mesmo sendo uma doença de doenças.
Só de pensar os analistas do laboratório poderiam ter feito um teste de AIDS, Carmen reconheceu um calor na face. Encarou a morte eminente e irremediável.
Aceitou o desafio.
Hoje ou nunca mais poderá fazer as pazes com seu corpo, sua intimidade. Que a detecção precoce de sua enfermidade ideal possa aumentar as chances de sua sobrevida. No caminho do guichê do galpão de arquivos, imagina quem será o primeiro a receber a noticia, quem poderá oferecer o melhor acolhimento, sem pena – Carmen nunca gostou de ser a coitadinha. Sabe com quem poderá fazer os primeiros pedidos dos coquetéis. Lembra de um ator na TV que disse ser aidético há 17 anos. Soma o número a sua idade atual e chega a um bom numero para sua morte, seu enterro, ainda mais se comparado com os tuberculosos de antigamente, os suicidas românticos ou os desnutridos recém-nascidos africanos. Aceitou a morte.
Enquanto Alzira busca a pasta com os resultados dos exames, Carmen olha a figura obesa e crente da secretária: a blusa clara florzinhas, a saia azul, a sandália preta, o cabelo crespo preso com uma piranha vermelha, o brotamento dos pêlos raspados na face formando uma barba macia, seu jeito amoroso e solicito.
Alzira traz as folhas com letras impressas – de certo é de uma das primeiras impressoras Epson lançadas e descartada por outros departamentos do hospital. A palpitação amortecida por uma coragem que dá as caras pela primeira vez.
Teve raiva da médica que pediu os exames. Quando foi ao clinico geral, queria apenas uma opinião sobre pêlos que encravavam na virilha. “Pra não perder a viagem”, a médica sugeriu fazer analises dos fluidos corporais e das fezes.
Aos poucos, a visão embaralhada define os caracteres nos papel. Não localiza nenhuma sentença ou veredicto, apenas números, porcentagens seguidos de unidades sem significado algum. Não há nenhum URGENTE em vermelho, mas também não há nenhuma absolvição, uma chave para suas correntes.
Os “negativos” não informam, não dissolvem a nuvem de desespero que irrompem pelas trincas de seu rosto em sorrisos de despedida da atendente. Aos poucos, Carmen percebe que, na frente de cada variável analisada, há um intervalo de normalidade para as medidas. Confere todos os parâmetros do sangue e urina... Mas e os das fezes?
Voltou ao guichê. O exame das fezes não está pronto. Uma iluminação chega a carmen. Uma confirmação de que algo está errado. Eles, provavelmente, devem tomar providencias mais drásticas dada a violência que a descoberta da doença intestinal pode provocar no hospedeiro, ao menos conclui isso o bolo de minhocas da cabeça de Carmen.
Parasitas, doença de Chagas, vermes, esquistossomose, larvas, mosquitos, ovos na corrente sanguínea, lombrigas, ventosas, tênia, carne de porco mal-passada, hospedeira, poças, descalça, frieiras, verduras mal-lavadas, os passeios, as comidas caseiras, de sitio de fim de semana...
Tudo é uma turbulência na cabeça de Carmen. Trancou o cú e ganhou mais uma minhoca subiu para sua coleção.
Biu
30-11-2006
15.12.06
A Sivuca e sua sanfona
Rumo ao Sumo
Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.
Outros olham pra baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham pra dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso, a alma, esse conto de fada.
Paulo Leminski - La vie en close
Aquele que conhece sua masculinidade,
e mesmo assim mantém sua feminilidade,
torna-se a ravina do mundo.
Por isso, a vida eterna não o abandona,
ele torna-se criança outra vez.
Aquele que conhece o branco
e ainda assim conserva o negro,
torna-se exemplo para o mundo.
Sua eterna virtude se torna infalível,
e ele retorna ao infinito.
Aquele que, ao conhecer a glória,
está consciente do ocaso,
torna-se o vale do mundo.
Sendo o vale do mundo,
sua eterna virtude é o bastante,
e ele volta ao estado de madeira virgem
que será cortada e usada em instrumentos.
Sábios que utilizam essas ferramentas
tornam-se senhores dos servos.
O Senhor supremo usa a madeira sem cortá-la.
Lao Tsé - Tao Te King
17.11.06
31.10.06
Perguntas?
Linha Reta
(pausa)
Suspiro.
E eu, que era rodeado de amigos,
Pensava: tinha o controle da situação.
Olho e vejo-me, indivíduo desesperado,
O chão sobre o qual pisava
Agora se move; tornou-se movediço,
armadilha de meus próprios passos.
A ausência do amor partido
Suscita o temor da espera...
É preciso continuar a caminhada.
Por que digo isto?
Suspiros de um angustiado,
Nada tenho a esconder.
Aquilo que errei?!
Se ao menos existisse...
Os caminhos sobre os quais trilhei
Tornaram-se desconexos...
Onde hei de chegar com esta prosa?
“O círculo possui a singular propriedade
De ser uma linha reta sem começo ou fim,
Tal qual o suplício da ansiedade
Com que hei de encerrar este desabafo!”
(pausa)
Mais um suspiro.
JR Mialichi
(pausa)
Suspiro.
E eu, que era rodeado de amigos,
Pensava: tinha o controle da situação.
Olho e vejo-me, indivíduo desesperado,
O chão sobre o qual pisava
Agora se move; tornou-se movediço,
armadilha de meus próprios passos.
A ausência do amor partido
Suscita o temor da espera...
É preciso continuar a caminhada.
Por que digo isto?
Suspiros de um angustiado,
Nada tenho a esconder.
Aquilo que errei?!
Se ao menos existisse...
Os caminhos sobre os quais trilhei
Tornaram-se desconexos...
Onde hei de chegar com esta prosa?
“O círculo possui a singular propriedade
De ser uma linha reta sem começo ou fim,
Tal qual o suplício da ansiedade
Com que hei de encerrar este desabafo!”
(pausa)
Mais um suspiro.
JR Mialichi
Respostas

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas?
Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Alberto Caeiro ("O Guardador de Rebanhos")
18.10.06
Tempo hipopotametal
Um esforço moroso e abafado pela limitada capacidade de efetiva ação tira o corpo obeso do poço esverdeado de merda mole.
Sobe os degraus de concreto submersos.
Os passos vagarosos conduzem a cabeça baixa do animal pela terra batida até a poça do canto. Fareja a água empoçada enquanto a barriga acortinada por camada lateral de gordura fica submersa. Larga-se e as narinas rosas continuam a respiração...
...mergulhada num tempo próprio, desnaturada pelo inchaço das horas, desprovido de sua inerência biológica , de sua capacidade propulsora de uma sexualidade.
As paredes e grades retém o tempo hipopotametal desatado do universo civilizado, inerte aos ruídos visitantes, aos dias e noites.
Sensível apenas às baias plenas de frutas e verduras e às cagadas verdes e bem definidas ao longo do embosteado fluxo do dia.
Sobe os degraus de concreto submersos.
Os passos vagarosos conduzem a cabeça baixa do animal pela terra batida até a poça do canto. Fareja a água empoçada enquanto a barriga acortinada por camada lateral de gordura fica submersa. Larga-se e as narinas rosas continuam a respiração...
...mergulhada num tempo próprio, desnaturada pelo inchaço das horas, desprovido de sua inerência biológica , de sua capacidade propulsora de uma sexualidade.
As paredes e grades retém o tempo hipopotametal desatado do universo civilizado, inerte aos ruídos visitantes, aos dias e noites.
Sensível apenas às baias plenas de frutas e verduras e às cagadas verdes e bem definidas ao longo do embosteado fluxo do dia.
4.10.06
Ainda Assim...

Still I Rise
You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I'll rise.
Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
'Cause I walk like I've got oil wells
Pumping in my living room.
Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise.
Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops.
Weakened by my soulful cries.
Does my haughtiness offend you?
Don't you take it awful hard'
Cause I laugh like I've got gold mines
Diggin' in my own back yard.
You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I'll rise.
Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I've got diamonds
At the meeting of my thighs?
Out of the huts of history's shame
I rise
Up from a past that's rooted in pain
I rise
I'm a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.
Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that's wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.
Maya Angelou
(Tradução: Mauro Catapodis
AINDA ASSIM, EU ME LEVANTO
Você pode me riscar da História
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.
Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui
Riquezas dignas do grego Midas.
Como a lua e como o sol no céu,
Com a certeza da onda no mar,
Como a esperança emergindo na desgraça,
Assim eu vou me levantar.
Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
Minh'alma enfraquecida pela solidão?
Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
Porque eu rio como quem possui
Ouros escondidos em mim.
Pode me atirar palavras afiadas,
Dilacerar-me com seu olhar,
Você pode me matar em nome do ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.
Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
Porquê eu danço como se tivesse
Um diamante onde as coxas se juntam?
Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo-se como a maré.
Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade
Eu me levanto
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto. )
3.10.06
27.9.06
Em relação à etimologia da palavra aniversário, ela vem do latim anniversarius, que significa o que volta todos os anos ou o que acontece todos os anos.
Quanto ao costume de comemorar o dia do nascimento de alguém, segundo estudiosos, tal prática teve início em Roma: “Esta solenidade, que se renovava todos os anos, era festejada sob os auspícios do Gênio que se invocava como a divindade que presidia ao nascimento das pessoas. Costumavam erguer um altar sobre a relva e o cercavam com ervas e plantas sagradas. Junto desses altares as famílias ricas imolavam um cordeiro”*
O nosso conhecido bolo de aniversário, por sua, originou-se na antiga Grécia, quando se homenageavam, no sexto dia de cada mês, à deusa Ártemis. Tal festa era realizada com um bolo cheio de velas que simbolizavam a claridade da Lua que se espalhava à noite sobre a Terra.
*Dicionário da Mitologia Latina. Spalding, Tassilo Orpheu. Editora Culturix. São Paulo, 1972 – p. 159).
Jaime Nunes Mendes
Quanto ao costume de comemorar o dia do nascimento de alguém, segundo estudiosos, tal prática teve início em Roma: “Esta solenidade, que se renovava todos os anos, era festejada sob os auspícios do Gênio que se invocava como a divindade que presidia ao nascimento das pessoas. Costumavam erguer um altar sobre a relva e o cercavam com ervas e plantas sagradas. Junto desses altares as famílias ricas imolavam um cordeiro”*
O nosso conhecido bolo de aniversário, por sua, originou-se na antiga Grécia, quando se homenageavam, no sexto dia de cada mês, à deusa Ártemis. Tal festa era realizada com um bolo cheio de velas que simbolizavam a claridade da Lua que se espalhava à noite sobre a Terra.
*Dicionário da Mitologia Latina. Spalding, Tassilo Orpheu. Editora Culturix. São Paulo, 1972 – p. 159).
Jaime Nunes Mendes
21.9.06
Sua anatomia põe suas palavras em ação

"The breasts go out; the derriere juts back; the leg elongates," she says, as her anatomy puts her words into action. "Men find that very attractive."
(Gillion Carrara, a professor in the fashion department of the School of the Art Institute of Chicago)
June Swann, the shoe historian, says, "It's like the circus. You can learn to walk on anything if you put your mind to it."
(June Swann, the shoe historian)
15.9.06
Alargamento

"A arte é uma contribuição para o alargamento da consciência do novo ou do desconhecido e para a modificação do homem e da sociedade. É necessário que a arte se converta em fator funcional de estética e humanização do processo civilizador em todos os seus aspectos. A função do artista deve ser a de contribuir para a conscientização das grandes idéias que formam a nossa realidade atual.”
Koellreutter
Koellreutter
1.9.06
Carga

“Sob(re) o Tempo”
Antes de tudo, ou seja, nada
É preciso, o tempo, defini-lo
Se reflito, como hei de explicá-lo?
Se o faço, tomo sua medida
Um dia...
...É o intervalo que separa
Dois sonhos, duas fronteiras
A realidade desmascara
A fantasia que se queira
Um ano...
...É a distância que divide
Dois corpos, duas jornadas
A convergência é o limite
Que define esta empreitada
Muitos sonhos se sucedem
Nestas jornadas distintas
Todos eles me acometem,
Reencontrá-la, amor, ainda...
J.R. Mialichi
31.8.06
Infatilidade?

Cartum da Criação
Ele come ele que come ele que come ele que come isto que come aquilo que come poeira. A poeira leve do chão.
A cadeia alimentar viciada pelo instinto comilão.
Predador e presa confundidos no ciclo do vôo ao chão.
A não ser que seja um gato acrobata do circo de Vostok, sua ansiedade é o seu caixão.
Vê-se tudo aqui: do alpiste inofensivo e digerido ao cachorro bocarrão.
O pássaro protege-se na prisão, com olhar de garanhão.
O gato inquieta-se por um pássaro fujão.
O cachorro bojudo espera o salto refeição, bobo de satisfação e com a sensação de pança cheia. O rabo abana o seu dono.
Provocação
Uma nota cantada de insinuação.
Um pulo certeiro: fuça na grade guardião.
Está aberta a saída, o portão da imensidão.
O gato esperneia, despenca e faz um arco apoiado nos dentes do comilão.
Eis que nosso pássaro espertalhão alça vôo e libera a rajada de restos de alpiste.
Lambuza gato e cachorro e voa um canário bem safado, com olhar maroto e um traseiro artilharia pesada.
OS: até parece uma metáfora boba, mas sei lá: instinto criador enjaulado, esperado pelo ego, esperado pelo bocarrão do superego. O que se busca então é a rajada na arrogância, um vôo livre e leve depois do cagão.
25-03-2006
Felipe Modenese
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