17.4.07

With only 2 fish e 3 Corpos ainda quentes

18th Annual Photo Contest Winners
2006 World In Focus Contest
Merit Prize: Kenny Chu, Los Angeles, California

Kenny Chu, a real estate broker, describes himself as "a very crazy amateur photographer."
Chu has traveled to China on several occasions, where he took this photograph of "pull net" fishing in the village of Da Cheng. To get this image, he woke up at 3 a.m. to travel to the beach.
"There were about 20 fishermen and women pulling the net from the ocean," he says. Chu adds that it took the fishermen more than an hour to pull the net back, but they ended up with only two fish.
(http://www.nationalgeographic.com/traveler/photos/photocontest0701/photocontest_gallery10.html)


Arrastão

De malhas finas, frágeis, magras
Os nós do ódio e da revolta se apresentam.
De tanta fome, injustiça, mentira
Tua alma de paixão se queixa, inflama.

O amor se esvai, a ternura deixa
Abandonado teu corpo à vaga humana.
Nada ouves, nada vês, violência salta,
Nada mais podes fazer, retornar não podes.

Demorô! Demoro!
Vamo branco! Cadê a grana?!
Quem for da polícia morre!
Brincos, relógios, canetas; tudo que por comida possa
Em cambio enviesado.

Tudo que por amor possa ser olhado,
Em teu corpo tosco, esguio e belo
Não mais-valia aos teus olhos
arrancada
Se ao trabalho já não tens direito
Se a dignidade dos teus expropriada.

Três corpos ainda quentes morrem
Do medo da morte que de dentro canta
A melodia que proíbe a vida
Nesta marola heróica e muda.

PPM/Banábuyé

16.4.07

Retomada




NoNada

Divino recanto singular
Pasma o olhar urbano

Em momentos de suspensão
Etérea, inacessível ao tempo.

Os peixes virginais dançam
O remanso de dinâmica inimitável.

Tudo tão próximo do imaculado,
Do sentir embasbacado.

Ressurgem sentimentos e emoções
A pulsar a alma
Em seu ritmo natural
Em seu reconhecimento
Do que é intrínseco e inalienável.

A ressonância alma-lugar é perigosa
Ao viciar o ser em sua essência,
No mero reconhecer-se belo.

Mas é tudo para quem a conhece...
O resto é fugaz a menos
Que permita o vislumbre interativo.

O problema é que tudo o dispõe:
Basta um livre ser,
Sem repartir pensar e sentir,
Brotando do tudo nonada em ser.

Parque Estadual Lagoa Azul/ Nobres – MT
Biu
04-02-2007


30.3.07

Sábias palavras

O benefício da dúvida
Ferreira Gullar - Ilustrada/Folha de SP - 19-02-2006

Difícil é lidar com donos da verdade. Não há dúvida de que todos nós nos apoiamos em algumas certezas e temos opinião formada sobre determinados assuntos; é inevitável e necessário. Se somos, como creio que somos, seres culturais, vivemos num mundo que construímos a partir de nossas experiências e conhecimentos. Há aqueles que não chegam a formular claramente para si o que conhecem e sabem, mas há outros que, pelo contrário, têm opiniões formadas sobre tudo ou quase tudo. Até aí nada de mais; o problema é quando o cara se convence de que suas opiniões são as únicas verdadeiras e, portanto, incontestáveis. Se ele se defronta com outro imbuído da mesma certeza, arma-se um barraco.

De qualquer maneira, se se trata de um indivíduo qualquer que se julga dono da verdade, a coisa não vai além de algumas discussões acaloradas, que podem até chegar a ofensas pessoais. O problema se agrava quando o dono da verdade tem lábia, carisma e se considera salvador da pátria. Dependendo das circunstâncias, ele pode empolgar milhões de pessoas e se tornar, vamos dizer, um "führer".

As pessoas necessitam de verdades e, se surge alguém dizendo as verdades que elas querem ouvir, adotam-no como líder ou profeta e passam a pensar e agir conforme o que ele diga. Hitler foi um exemplo quase inacreditável de um líder carismático que levou uma nação inteira ao estado de hipnose e seus asseclas à prática de crimes estarrecedores.

A loucura torna-se lógica quando a verdade torna-se indiscutível. Foi o que ocorreu também durante a Inquisição: para salvar a alma do desgraçado, os sacerdotes exigiam que ele admitisse estar possuído pelo diabo; se não admitia, era torturado para confessar e, se confessava, era queimado na fogueira, pois só assim sua alma seria salva. Tudo muito lógico. E os inquisidores, donos da verdade, não duvidavam um só momento de que agiam conforme a vontade de Deus e faziam o bem ao torturar e matar.

Foi também em nome do bem -desta vez não do bem espiritual, mas do bem social- que os fanáticos seguidores de Pol Pot levaram à morte milhões de seus irmãos. Os comunistas do Khmer Vermelho haviam aprendido marxismo em Paris não sei com que professor que lhes ensinara o caminho para salvar o país: transferir a maior parte da população urbana para o campo. Detentores de tal verdade, ocuparam militarmente as cidades e obrigaram os moradores de determinados bairros a deixarem imediatamente suas casas e rumarem para o interior do país. Quem não obedeceu foi executado e os que obedeceram, ao chegarem ao campo, não tinham casa onde morar nem o que comer e, assim, morreram de inanição. Enquanto isso, Pol Pot e seus seguidores vibravam cheios de certeza revolucionária.

É inconcebível o que os homens podem fazer levados por uma convicção e, das convicções humanas, como se sabe, a mais poderosa é a fé em Deus, fale ele pela boca de Cristo, de Buda ou de Muhammad. Porque vivemos num mundo inventado por nós, vejo Deus como a mais extraordinária de nossas invenções. Sei, porém, que, para os que crêem na sua existência, ele foi quem criou a tudo e a todos, estando fora de discussão tanto a sua existência quanto a sua infinita bondade e sapiência.

A convicção na existência de Deus foi a base sobre a qual se construiu a comunidade humana desde seus primórdios, a inspiração dos sentimentos e valores sem os quais a civilização teria sido inviável. Em todas as religiões, Deus significa amor, justiça, fraternidade, igualdade e salvação. Não obstante, pode o amor a Deus, a fé na sua palavra, como já se viu, nos empurrar para a intolerância e para o ódio.

(...)

Mas não cansamos de nos espantar com a reação, às vezes sem limites, a que as pessoas são levadas por suas convicções. E isso me faz achar que um pouco de dúvida não faz mal a ninguém. Aos messias e seus seguidores, prefiro os homens tolerantes, para quem as verdades são provisórias, fruto mais do consenso que de certezas inquestionáveis.

26.3.07

Cari caturas


criação


No princípio foi a paz, tranqüilidade insana

que trazia os cântaros repletos

de orvalho. O primeiro dia

ofereceu os ventos, maresia

e outros derivados da distância.

Depois o estranho pássaro da fome

pode voar entre as cabeças esvaziadas

e no seu grito renasceu a esperança,

fazendo enlouquecer todo desejo.

Agora estamos sós em nosso corpos

separados por lâminas de espanto

e desejamos ter a dor

de encontros novos

para estabelecer nosso remoto sono.




canções no intervalo


1.

Na hora seguinte, o silêncio correu como um fluxo

entre teus braços e meus braços, e a carícia

partiu-se como um cristal.


Na hora seguinte, amor foi chuva na boca,

lenços aproximados para a tosse,

movimentos excessivamente curtos para atingir o mar.


Na hora seguinte, o ar foi morte e abandono

e a febre batia asas nos pulsos das crianças.


2.

E veio um navio de cânticos

e de mãos desguarnecidas

pedindo mel e perdão.


E veio um choro violento

assaltar nossos sentidos

voltados para o vazio.


E a noite foi negra e branca

inventando para nós

as flores da compreensão.



poemas de Rubens Rodrigues Torres Filho

contidos em Investigação do Olhar (1963)

(e na obra reunida Novolume, 1997)




12.3.07

Sofas

http://www.rosesargent.com/images/furniture/redcouchstudy003.jpg

Viver marcado


“Basta ser sincero
E desejar profundo...
Você será capaz de sacudir o mundo
Tente outra vez...”
Raul Seixas


A escultura desequilibra
E encena a torção do agora
Em rápidos lances de outrora

O gatilho mastiga a bala
E o que era alien
Respira um bafo familiar
Sem traços de pretensão

Tudo tão arisco ao sorriso
Sincero, tão ríspido e
Fugaz rumo ao bem-estar...

Bater e rolar
Na espuma do real,
Do viver como continuidade
Marcada no estofado vermelho,
Do viver marcado...

Felipe Modenese
20-02-2007

28.2.07

Onde é que há gente no mundo?

NELSON ASCHER

O Fim da Poesia?

É possível reverter essa queda e tornar a poesia novamente importante e popular?

A PARTIR de 1922, oficialmente, os poetas brasileiros deixaram de lado tanto os augustos mármores com ecos argênteos ou brônzeos do parnasianismo como os turíbulos, missais e castos aromas de incenso do simbolismo, e passaram a compor, pelo telefone, poemas sobre o trânsito, o semáforo e a eletricidade. Claro que nem tudo se reduzia a esse esquema simples.
Augusto dos Anjos já recorrera a um léxico de estudante de medicina ou de biólogo amador, à cultura de um leitor provinciano de almanaques que, vindos da capital federal, anunciavam novas descobertas e invenções, para orquestrar em seus sonetos uma sonoridade grotesca cujo fascínio hipnótico poucos negariam.
Enquanto isso, Manuel Bandeira, familiarizado com Heinrich Heine, criava suas canções pseudo-ingênuas ou, inspirado por Verlaine, transformava nosso carnaval tropical num espetáculo a um tempo melancolicamente decadente e elegante o bastante para evocar a corte dos Bourbons.
Independentemente, porém, de contra o quê se revoltava, a poesia moderna como ela começou a ser praticada aqui nos anos 20 caracterizou-se pelo abandono das formas fixas e pela adoção da linguagem coloquial. O que, pelo menos de início, ocorreu com as formas não foi diferente no seu caso do que sucedera com a pintura quando saiu dos limites do figurativismo e com a música atonal.
O curioso é que sua contrapartida, a incorporação de temas não "poéticos" e de uma fala oriunda do cotidiano, apontava numa direção oposta. Pois as formas fixas fornecem ao leitor um padrão consagrado, um ambiente seguro dentro do qual este se sente em contato com a poesia. Graças, em geral, a esse acordo de base, o poeta pode negociar com ele a alteração de outros elementos. Sem a certeza prévia que essas formas lhe dão, cabe a cada leitor se tornar um especialista que tenta desvendar se aquilo que lhe foi apresentado é de fato um poema ou não. Uma tarefa exigente e, enfim, para poucos.
Qual, no entanto, o vínculo de necessidade entre essa redução do círculo de leitores e a propensão a falar quase sempre nas cadências de uma pretensa "vox populi"?
Menos de complementaridade que de compensação: talvez os poetas de então pensassem que, buscando competir com o noticiário e as manchetes jornalísticas, recuperariam os leitores que perdiam com o que, embora o chamado de experimentalismo, era antes a quebra de um contrato secular. O coloquialismo em si já era, não uma conquista, mas uma concessão e, depois desta, outras viriam, todas insuficientes.
O fato é que os poetas da geração seguinte, os que estrearam nos anos 30/40, recuaram diante da possibilidade de alienar de vez o público restrito que a poesia ainda possuía e se lançaram na criação de obras complexas que não desistiam de antemão de nenhum instrumento potencialmente útil.
Não é à toa que Drummond escreveu sonetos, Vinicius compôs baladas e João Cabral raramente se afastou da quadra. Seja como for, nenhuma medida, nenhum recuo tático bastou para recolocar a poesia na posição de arte central à qual ela naturalmente aspira.
E, para provar involuntariamente essa constatação, os poetas dos anos 70 se autodenominavam "marginais" como se ainda houvesse algum que não o fosse. De quantas artes já tiveram um estatuto melhor e um público maior, nenhuma parece ter caído tanto quanto a poesia e isso, paradoxalmente, durante o século 20, quando surgiram não somente algumas das vozes mais memoráveis que o Ocidente produziu, mas também tradições anteriormente ignoradas se apresentaram, através da tradução, a um público que, pela primeira vez na história, prometia se tornar universal.
É possível reverter essa queda e tornar a poesia novamente importante e popular?
Por sorte, o futuro a deus pertence e as tendências que abriga não são facilmente desvendáveis. Muito depende do empenho dos próprios poetas, naturalmente, de sua capacidade de reconhecer que sua arte, se bem que nutra inúmeras outras, talvez esteja beirando a extinção. O papel do público, porém, não pode ser ignorado e tudo, no último século, aponta para consumidores cada vez mais preguiçosos, cada vez mais sequiosos de um prazer fácil, repetitivo e que não envolva maiores esforços. Como convencer um público sedado por uma satisfação pré-digerida de que há, sim, prazeres maiores, mas que desfrutá-los requer trabalho, empenho e suor?



Poema em linha reta
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

16.1.07

2007?!.... Que venha...


Já pra sempre!
Right now for ever!


Tal chuva estática Such static rain
Acomoda a passagem de ano Acommodates the passage of the year
Em goteiras e respingos In leaks and sparkling
A borrar o sangue coagulado no chão, Smearing clotted blood on the ground,
Os restos de facadas Remainings of knife wounds
E de trisques da travessia And trisques during the crossing
Irrecuperados
Unrecovered
Em suas cicatrizes. In scars.

O alarme terrestre soa The terrestrial alarm strikes
Certo temor estagnado Certain stagnant fear
No ventre do consumo irrefreável In the womb of uncontrolled consumption
Sem rupturas de paradigmas, Without ruptures of paradigms,
Sem um ataque frontal do medo Without a front attack of fear
Agora.
Now

Sim, assim e agora. Yes, like this and now.

Os filhos hão de conhecer Children will have to meet
A mãe usurpada
The usurped mother,
Estuprada na inconseqüência
Raped in the inconsequence
De pequenas ações volumadas
Of small bulky actions
Em catástrofe
In natural-social
Naturo-social.
Catastrophe.

Estas catástrofes entram no campo de visão
These catastrophes enter the vision field
Do espelho a refletir apenas umbigo –
Of the mirror reflecting only the navel -
Adentra voraz, com estardalhaço
They enter fiercely,clattering
De uma conspiração desfavorável. From an unfavourable conspiracy

Que venha 2007
Come 2007

Com o bojo túrgido
The womb swollen with
De incoerências, violações Incoherences, assaults
Traições impunes, Unpunished treasons,
Truculentas trilhas ao intimo, Harsh in trails
Aprendizados dolorosos e fugazes,
Painful and transitory learnings
Virulências, Virulences
Explosões de egos descabidos,
Explosions of showy egos,
De tempos fugidios (mais um entre tantos pleonasmos).
Of fugitive times (one more among so many pleonasms).


Com um pouco menos
With a little less
De descompasso entre ser e entender,
Of unbalance between to be and to understand,
Entre o corpo e a alma;
Between body and soul;
Um tanto menos de misérias, A little fewer miseries,
Inclusive as de caráter; Including the ones of character


Com um tanto bom With such an amount
Do espírito calejado dos oprimidos
Of calluous spirit of the opressed
Dos que fazem da vida
Of those who do of life
A arte de espremer o inviável
The art of squeezing the unviable

Com o bucho cheio
With the belly full
De atos nus de pretensão
Of nude acts of intention
De sabores reconquistados
Of reacquired flavors
De militância aos detalhes,
Of militancy to details
Da amizade incondicionável.
Of unconditionable friendship

Que venha com o bucho cheio
Come with the belly full
Do já pra sempre. Right now forever
Que venha! Just come




Felipe Modenese
01-01-2007

4.1.07

Verdade em si para 2007

"Ser feliz é desejar o que temos, ou o que é. Esperar é ter medo. Ser feliz é ser sereno."

"A sabedoria está mais do lado da vontade que da esperança, mais proximo da ação que da fé. O sábio é um homem de ação."

"Toda verdade é eterna. Mas não é uma eternidade após a morte. É a eternidade presente ou o presente eterno."

"O conteúdo da felicidade é alegria. Não há alegria maior que o amar. Amar é contentar-se com o que existe. A única felicidade está dentro da verdade."

trechos da entrevista de André Comte-Spunville à revista Época (1-01-2007 pág.30)

18.12.06

Solo Fértil



Série “O minhocário”
I - Fezes, Urina e Sangue. Bastante deste último


Uma leve palpitação, suores e um sopro frio na boca do estomago apareceram centésimos de milésimos antes de Carmen receber a consciência a lembrança de que tinha de buscar os resultados dos exames laboratoriais.
Os medos e neuroses kaypislonizam a atenção de Carmen. Várias vezes a tira de papel dobrada no console do Fusca sinalizou fantasmas bafejando sua mente, mas escorregavam pela aflição aos possíveis desdobramentos de uma doença fatal, à ramificações onipresentes da morte.
Entretanto, naquele momento, naquela situação céstica da tarde, um impulso de enfrentar a vida e seus dissabores sofregamente emergiu. Tinha de encarar sua doença, mesmo sendo uma doença de doenças.
Só de pensar os analistas do laboratório poderiam ter feito um teste de AIDS, Carmen reconheceu um calor na face. Encarou a morte eminente e irremediável.
Aceitou o desafio.
Hoje ou nunca mais poderá fazer as pazes com seu corpo, sua intimidade. Que a detecção precoce de sua enfermidade ideal possa aumentar as chances de sua sobrevida. No caminho do guichê do galpão de arquivos, imagina quem será o primeiro a receber a noticia, quem poderá oferecer o melhor acolhimento, sem pena – Carmen nunca gostou de ser a coitadinha. Sabe com quem poderá fazer os primeiros pedidos dos coquetéis. Lembra de um ator na TV que disse ser aidético há 17 anos. Soma o número a sua idade atual e chega a um bom numero para sua morte, seu enterro, ainda mais se comparado com os tuberculosos de antigamente, os suicidas românticos ou os desnutridos recém-nascidos africanos. Aceitou a morte.
Enquanto Alzira busca a pasta com os resultados dos exames, Carmen olha a figura obesa e crente da secretária: a blusa clara florzinhas, a saia azul, a sandália preta, o cabelo crespo preso com uma piranha vermelha, o brotamento dos pêlos raspados na face formando uma barba macia, seu jeito amoroso e solicito.
Alzira traz as folhas com letras impressas – de certo é de uma das primeiras impressoras Epson lançadas e descartada por outros departamentos do hospital. A palpitação amortecida por uma coragem que dá as caras pela primeira vez.
Teve raiva da médica que pediu os exames. Quando foi ao clinico geral, queria apenas uma opinião sobre pêlos que encravavam na virilha. “Pra não perder a viagem”, a médica sugeriu fazer analises dos fluidos corporais e das fezes.
Aos poucos, a visão embaralhada define os caracteres nos papel. Não localiza nenhuma sentença ou veredicto, apenas números, porcentagens seguidos de unidades sem significado algum. Não há nenhum URGENTE em vermelho, mas também não há nenhuma absolvição, uma chave para suas correntes.
Os “negativos” não informam, não dissolvem a nuvem de desespero que irrompem pelas trincas de seu rosto em sorrisos de despedida da atendente. Aos poucos, Carmen percebe que, na frente de cada variável analisada, há um intervalo de normalidade para as medidas. Confere todos os parâmetros do sangue e urina... Mas e os das fezes?
Voltou ao guichê. O exame das fezes não está pronto. Uma iluminação chega a carmen. Uma confirmação de que algo está errado. Eles, provavelmente, devem tomar providencias mais drásticas dada a violência que a descoberta da doença intestinal pode provocar no hospedeiro, ao menos conclui isso o bolo de minhocas da cabeça de Carmen.
Parasitas, doença de Chagas, vermes, esquistossomose, larvas, mosquitos, ovos na corrente sanguínea, lombrigas, ventosas, tênia, carne de porco mal-passada, hospedeira, poças, descalça, frieiras, verduras mal-lavadas, os passeios, as comidas caseiras, de sitio de fim de semana...
Tudo é uma turbulência na cabeça de Carmen. Trancou o cú e ganhou mais uma minhoca subiu para sua coleção.

Biu
30-11-2006

15.12.06

A Sivuca e sua sanfona


Rumo ao Sumo

Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

Outros olham pra baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham pra dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso, a alma, esse conto de fada.

Paulo Leminski - La vie en close




Aquele que conhece sua masculinidade,
e mesmo assim mantém sua feminilidade,
torna-se a ravina do mundo.
Por isso, a vida eterna não o abandona,
ele torna-se criança outra vez.

Aquele que conhece o branco
e ainda assim conserva o negro,
torna-se exemplo para o mundo.
Sua eterna virtude se torna infalível,
e ele retorna ao infinito.
Aquele que, ao conhecer a glória,
está consciente do ocaso,
torna-se o vale do mundo.
Sendo o vale do mundo,
sua eterna virtude é o bastante,
e ele volta ao estado de madeira virgem
que será cortada e usada em instrumentos.

Sábios que utilizam essas ferramentas
tornam-se senhores dos servos.
O Senhor supremo usa a madeira sem cortá-la.

Lao Tsé - Tao Te King

31.10.06

Perguntas?

Linha Reta

(pausa)

Suspiro.

E eu, que era rodeado de amigos,
Pensava: tinha o controle da situação.
Olho e vejo-me, indivíduo desesperado,
O chão sobre o qual pisava
Agora se move; tornou-se movediço,
armadilha de meus próprios passos.
A ausência do amor partido
Suscita o temor da espera...
É preciso continuar a caminhada.

Por que digo isto?
Suspiros de um angustiado,
Nada tenho a esconder.
Aquilo que errei?!
Se ao menos existisse...

Os caminhos sobre os quais trilhei
Tornaram-se desconexos...
Onde hei de chegar com esta prosa?

“O círculo possui a singular propriedade
De ser uma linha reta sem começo ou fim,
Tal qual o suplício da ansiedade
Com que hei de encerrar este desabafo!”

(pausa)

Mais um suspiro.

JR Mialichi

Respostas



Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas?
Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Alberto Caeiro ("O Guardador de Rebanhos")

18.10.06

Tempo hipopotametal

Um esforço moroso e abafado pela limitada capacidade de efetiva ação tira o corpo obeso do poço esverdeado de merda mole.
Sobe os degraus de concreto submersos.
Os passos vagarosos conduzem a cabeça baixa do animal pela terra batida até a poça do canto. Fareja a água empoçada enquanto a barriga acortinada por camada lateral de gordura fica submersa. Larga-se e as narinas rosas continuam a respiração...

...mergulhada num tempo próprio, desnaturada pelo inchaço das horas, desprovido de sua inerência biológica , de sua capacidade propulsora de uma sexualidade.
As paredes e grades retém o tempo hipopotametal desatado do universo civilizado, inerte aos ruídos visitantes, aos dias e noites.
Sensível apenas às baias plenas de frutas e verduras e às cagadas verdes e bem definidas ao longo do embosteado fluxo do dia.

4.10.06


Ainda Assim...


Still I Rise

You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I'll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
'Cause I walk like I've got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops.
Weakened by my soulful cries.

Does my haughtiness offend you?
Don't you take it awful hard'
Cause I laugh like I've got gold mines
Diggin' in my own back yard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I'll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I've got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history's shame
I rise
Up from a past that's rooted in pain
I rise
I'm a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.
Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that's wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.

Maya Angelou


(Tradução: Mauro Catapodis

AINDA ASSIM, EU ME LEVANTO

Você pode me riscar da História
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.

Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui
Riquezas dignas do grego Midas.

Como a lua e como o sol no céu,
Com a certeza da onda no mar,
Como a esperança emergindo na desgraça,
Assim eu vou me levantar.

Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
Minh'alma enfraquecida pela solidão?

Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
Porque eu rio como quem possui
Ouros escondidos em mim.

Pode me atirar palavras afiadas,
Dilacerar-me com seu olhar,
Você pode me matar em nome do ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.

Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
Porquê eu danço como se tivesse
Um diamante onde as coxas se juntam?

Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo-se como a maré.
Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade
Eu me levanto
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto. )