8.4.05

Fenda na poesia

Abdução Anfíbia

Um rasgo no prosaico
Suspende o coaxar
Entre um e outro inseto
E engole um pulo másculo
Rumo ao incerto porém irresistível

O trato repentino da arte desconfortável
Transforma o corpo lânguido
Em sustentáculo do desejo
Vetor da física à doença do sentimento
Prostra-se o sapo
Refém da memória do belo
“Numa transversal do tempo”

O temido desconhecido
Por hora abafa o entusiasmo,
Amortece os estímulos
Até que o pensar novo
Revela-se benéfico
Num revelar-se construído sobre ruínas,
Coletado do sumo que escorre
Da condensação escultora do vapor do momento
Sobre a superfície gélida das trilhas do eu


Aperfeiçoadas esculturas
Afeiçoam o anfíbio
Saliente no sutil torcer de cabeça
Frente o infinito belo
Debaixo do rasgo transversal do tempo

Cuooooxe.............Cuuuoooooooooooooxxxxeee


BIU
07/04/2005

6.4.05

Shakespeare e Rilke

CXLI.
William Shakespeare

In faith, I do not love thee with mine eyes,
For they in thee a thousand errors note;
But 'tis my heart that loves what they despise,
Who in despite of view is pleased to dote;
Nor are mine ears with thy tongue's tune delighted,
Nor tender feeling, to base touches prone,
Nor taste, nor smell, desire to be invited
To any sensual feast with thee alone:
But my five wits nor my five senses can
Dissuade one foolish heart from serving thee,
Who leaves unsway'd the likeness of a man,
Thy proud hearts slave and vassal wretch to be:
Only my plague thus far I count my gain,
That she that makes me sin awards me pain.


Ich fürchte mich so vor der Menschen Wort
Rainer Maria Rilke

Ich fürchte mich so vor der Menschen Wort.
Sie sprechen alles so deutlich aus:
Und dieses heißt Hund und jenes heißt Haus,
und hier ist Beginn und das Ende ist dort.

Mich bangt auch ihr Sinn, ihr Spiel mit dem Spott,
sie wissen alles, was wird und war;
kein Berg ist ihnen mehr wunderbar;
ihr Garten und Gut grenzt grade an Gott.
Ich will immer warnen und wehren: Bleibt fern.
Die Dinge singen hör ich so gern.
Ihr rührt sie an: sie sind starr und stumm.
Ihr bringt mir alle die Dinge um


Tradução de Carlos Bechtinger
Eu me assusto tanto diante da palavra dos homens

Eu temo tanto a palavra dos homens
Eles explicam tudo tão claramente
E isso se chama cachorro e aquilo se chama casa,
E aqui é o começo e o fim é lá.

Me assusta também a reflexão de vocês,
o jogo de vocês com escárnio
Vocês sabem de tudo, o que foi e o que virá.
Nenhuma montanha é mais maravilhosa para vocês
Os seus jardins e o bem de vocês se limitam em Deus
Eu quero sempre avisar e combater: Fique longe disso!
Eu escuto com tanto prazer as coisas cantadas
Vocês não a tocam. Elas são mudas e teimosas.
Vocês todos para mim matam as coisas.

5.4.05

Poetizas em amostra

Meu Deus, me dê a coragem
Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braçoso meu pecado de pensar.


Todas as vidas
Cora Coralina

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, Global Editora, 1983 - S.Paulo, Brasil


O amor no éter
Adélia Prado

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados
na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Poesia reunida, Editora Siciliano, 1991 - S.Paulo, Brasil

PS: um site que reune uma boa amostra de poetizas brasileiras e traduzidas é "Mulheres que amo" :http://utopia.com.br/poesia/

31.3.05

Palavras Amigas

“Mensagem aos Viajantes”

De tudo que me foi dito
Uma mulher, acredito
Preencheria o vazio
De toda alma em estio

Sigo trilhas; conquisto montanhas
Cume, falésias, dunas, cavernas
Acidentes do terreno e da alma
Busca insólita pela taverna

Sobre o mundo repousa o espírito
Este ente, caráter holístico
Ante tudo, sobre nada habita
Desorientando aquele que fica

E assim, a entreter o ciclo
Vislumbra o viajante a mãe Terra
Segue o rumo, indefinido
Perante a qual tudo se encerra
José Roberto Mialichi
31/03/2005

30.3.05

Poeta Alemão

DICHTER

Ter-te
O Teu
Ser Teu
Absorto em Ti
O poeta é Teu
Enquanto o Teu é do poeta
E segue tua trilha rumo ao eu
Tanto o Teu quanto o Meu

A poesia é Tua
Coleta os favos de Mel
Inclina-os
E deixa escorrer o Teu Eu
Lambuza-se de Ti
Infiltra-se do Ti
Seja o Te
Um sentimento
Um momento
Objeto
Esquecimento
Um pensamento
Seu ou Teu

Ser o Teu
Quando as curvas elásticas do S
Acomodam os ângulos do T
Fazendo do Teu Seu
Numa simbiose almofágica
Num voyerismo dissimulado
Pois arde a presença do Dich no poeta
Que aglutina Teu sER em TER
Transfigura Mich em DICH
Nascendo como DICHTER,
Um poeta em ser!


Lucrécio Rodrigues Torres
30/03/2005

18.3.05

Un pò di religione

Culto à palavra

Vossa Excelência, licença para colocá-la nessa brancura,
Parte do seu infindável reino.
Solte-se por essa madeira,
E, de alguma maneira, mostre sua força.
Um piparote já é moldura,
Loucura.
Seu palco é o mundo, é o fundo.
É a clareira sem beira.

Quando colocaram Vossa Santidade na Rocha,
Saímos da Pré
E viramos História.
Nasceu a memória.
Ouvir é glória!
Chega pelo ar nessa parabólica,
Colabora ou apavora: a História.

Vossa Eminência conduz essa peça chamada vida.
É o pé.
A Senhora atravessa os mares, invade os lares,
Afasta as feras, acende trevas.
Permite o culto aos deuses, a fé das montanhas.
É a escada do porão

Sobre a Senhora não há domínio;
Mais forte que Sol,
Define a imensidão;
Mais profunda que o mar,
Mais romântica que o luar.

É-nos cevas.

Sua pá lavra, eleva, cala, safa, mata.
Você, Palavra, semeia
O Amor,
A dor,
Cultiva o sabor,
Planta o saber,
O viver: amplitude celeste.
Sem você, tudo some: a ciência, a religião...
Chegaria, Mestre, a peste.

Na medida em que ficamos íntimos,
E os pronomes tornam-se amigáveis,
Aproxima-se da natureza destinada, a de ser Humano
Graças ao seu infinito, existe ser humano.
Sem seu infinito,já éramos-
Clamor

BIU
14/10/1999

14.3.05

Gratidão

Na sombra

Muitas palavras já foram ditas,
Dentre as quais, há aquelas às arvores.
Eis mais algumas:
Sois a fonte de minha nutrição.
Suprais-me.
Algo de vós me deixa em suspensão.
Talvez a seiva.
Inundais-me de tal modo que às vezes explode uma explosão.
Afagais-me.
Viciais-me.
Acalmais-me.
Aquietais-me.
Chego até a me expor aos maltratos do vento, do frio,
Pois sei que a seiva é infinda.
Chego até a dispensar o Sol, a Primavera.
Pois sei que o calor é imediato.
Largo-me ao sabor dos ventos uivantes.
Chicoteio,
Vibro,
Oscilo, bestamente,
Pois sei que o pedúnculo é o mais intenso.
Abro o braço a tempestades.
Tomo cada pancada, mas me safais de cada.
Venceis a gravidade.
Sois imbatíveis.
Às vezes me enrolo e num espinho me transformo.
Às vezes me alargo e a vitória-régia do riacho está a cargo.
Permitis a metamorfose.
A redemoinhos faço pose.
Sonho na mais bela flor desabrochar,
Um inseto de pólen lambuzado hipnotizar.
Para num fruto evoluir.
Para ao chão direto ir.
Uma semente, esse glomérulo do amor, liberar,
No solo me infiltrar, brotar, crescer, crescer, crescer, viçosamente.
A ponto de uma certa altura ultrapassar.
E sob minha sombra para sempre vos resguardar,
Infinitamente, grato pela seiva que me faz viver,
Pelo Amor que de tão intenso,
Não conseguis conter.
Lucrécio Rodrigues Torres
13/02/2002

13.3.05

Anita

Odes Materna

Mãe, no seu ventre vivo o tempo!
Daí nasci e daí saí!
Retirei minhas primeiras energias. De você me nutri!
E, desde que saí, do seu peito vem meu sustento!
De onde eu tirava o leite puro,
Chega, a todo pulo, o amor seguro,
Onde me agarro enquanto a Terra gira!

Mãe, sou um fruto de você!!
Me orgulho de brotar de tal árvore!
Sou uma borboleta viciada em sua sombra!
Sou um pássaro, que, no seu ombro, fez o ninho!

Mãe, um Deus na Terra!
Aquela que do Olimpo fugira
Para sentir tamanha alegria:
A de povoar o mundo de vida!

Só mesmo um coração tão grande como o seu
Pode conter tanta felicidade!
Lembre-se: De você vem nossa vida;
Sem você não temos saída!

BIU


Como és bela, minha Mãe!!
Os movimentos, dotados de sem igual suavidade,
Fazem-te única, ao exalar o mais tenro amor.
A pureza desprende-se de tua maternidade
Como leite, a navegar todo sinal de dor.

Flutuas numa atmosfera de felicidade,
Processas tua contínua dor em feixes de sorrisos.
De certa moça e casal perdidos,
Emites selos que extirpam a opacidade.

Tua beleza é eterna, indivisível, imutável.
Pois é uma idéia. A idéia.
Acessível a todos, mas real só pra mim.

Não temas, minha mãe!!
E temas, minha mãe,
Pois teu temer faz de ti minha mãe!

BIU
7/10/2002

Modigliani

Una Modita sur l'Amour

Contrair o dorso
E recolher,
Erguer as espáduas
E absorver
O medo de fazer sofrer
Que acomete o real amador
Ao beijar torto o ente.

Dói-lhe demais qualquer injúria
E os dedos pintam, reféns da dor,
Harmonizam as fagulhas.

Recolher num reflexo
Que pode ferir
Por demais exaltado
E cerneoso
Receoso
Cerceoso
Ser-se os Ou
Na ânsia de ser e viver.

Viver como espelho do amor
Sem impressões
Nem as digitais
Intocavelmente viver
E fiar-se na fé
De ter o ser
Independente de ter
Para fazer do mi alegria
Do ti euforia
E do si o se da anarquia
Em busca da música da paz
Que não existe na alma que ama.
Culpa do jorro da dor
Que trata de esculpir as suavidades dessa alma
Como o tempo faz os riscos da palma

BIU
12/03/2005

10.3.05

Morte, Ciência Brasileira e Samba

Ciência e Arte
(Cartola e Carlos Cachaça)

Tu és meu Brasil em toda parte
Quer na ciência ou na arte
Portentoso e altaneiro
Os homens que escreveram tua história
Conquistaram tuas glórias
Epopéias triunfais
Quero neste pobre enredo
Reviver glorificando os homens teus
Levá-los ao panteon dos grandes imortais
Pois merecem muito mais
Não querendo levá-los ao cume da altura
Cientistas tu tens e tens cultura
E neste rude poema destes pobres vates
Há sábios como Pedro Américo e César Lattes

PS: Ontem, 09/03/2005, morreu em Campinas, Cesare M. G. Lattes, um dos icones da ciência nacional, figura entre figuras que procuram promover a tão sonhada hegemonia nacional, acreditam que através da educação pode-se alavancar uma nação, escavam pelo buraco do subdesenvolvimento em busca de alternativas sólidas, orgulham-se de seu país e sonham ver espontâneo um sorriso na face de todo brasileiro. Nesse sentido achei oportuno esse samba, sinônimo de alegria ainda que imerso em tristeza...

3.3.05

Pessoas no tempo

Uns Versos Quaisquer
Fernado Pessoa

Vive um momento com saudade dele
Já ao vivê-lo . . .
Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e não sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos . . .

Demo-nos pois a consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
E que nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja . . .

Assim idênticos à hora toda
Em seu pleno sabor,
Nossa vida será nossa anteboda:
Não nós, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,
E a morte não virá nem tarde ou cedo . . .

Porque o que importa é que já nada importe . . .
Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,
Ou, tênue e longe, cale
Seus gestos . . . Tudo é o mesmo . . . Eis o momento . . .
Sejamo-lo . . . Pra quê o pensamento? . . .
11.10.1914
Realidade
Álvaro de Campos

Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...
Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isto —
Nesta localidade da cidade ...

Há vinte anos!...
O que eu era então! Ora, era outro...
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...

Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
Sei eu o que é útil ou inútil?)...
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)
Tento reconstruir na minha imaginação
Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos...
Não me lembro, não me posso lembrar.

O outro que aqui passava, então,
Se existisse hoje, talvez se lembrasse...
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

Sim, o mistério do tempo.
Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...

Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,
Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais
lembradamente de azul.
Hoje, se calhar, está o quê?
Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado físisca e moralmente: não quero imaginar nada...

Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,
Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso...
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.

Olhamos indiferentemente um para o outro.
E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

Talvez isso realmente se desse...
Verdadeiramente se desse...
Sim, carnalmente se desse...

Sim, talvez...

1.3.05

Rito à Linguagem

Código Virtuoso

Levanta dos percalços do sono
Um reexame dos ditames do acaso
E o rico perdurar dos zigues-zagues
Recobram afago (im)pedindo que os largue

A transfiguração da idéia fosca
Em sentido lingüístico
Gera construção da branca mosca
Sobre o papel meta e artístico.

O corte seco do charuto
É preciso, direto e enxuto,
Contra o discurso da fumaça cubana,
Rebuscado, fractal em sua gana,
Repleto de balbucios e balbúrdias,
Enfeitado de aparentes nonsenses e rédias.

A análise da virtude da virtuose
Expõe um narcisismo fétido,
Um palanque imóvel pela trombose
Das veias de arte do moleque ávido.

Sombras dos signos iluminados pela história,
Os significados não ficam,
Ultrapassam o tempo e não se findam
Nem em si, nem na civilizatória memória

Vivemos sob o código das idéias
Maestro de minúsculos filetes de protoplasma no cérebro
Rumo à música do paraíso da compreensão,
À sinfonia da harmonia e do mundo em vão


Lucrécio Rodrigues Torres
01/03/2005

28.2.05

Sharks and Men

Se os tubarões fossem homens

Bertold Brecht

'Se os tubarões fossem homens', perguntou ao senhor K. a filha de sua senhoria, 'eles seriam mais amáveis com os peixinhos?'
"Certamente, disse ele. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e tomariam toda espécie de medidas sanitárias. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, lhe fariam imediatamente um curativo, para que não morresse antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres tem melhor sabor do que os tristes.
Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.
Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.
O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente.
Acima de tudo, os peixinhos deveriam voltar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um deles mostrasse tais tendências.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de argaço e receberia um título de herói.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardim que se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que seus acordes todos os peixinhos, como orquestra na frente, sonhando, embalados, nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões.
Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões.
Além disso se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles teriam com maior freqüência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas, etc.
Em suma, se os tubarões fossem homens, haveria uma civilização no mar."

25.2.05

Revoadas

T

O tato tatiado de T
Tateia as viculosidades de minha alma
Escorrega por meus vícios com calma
E acolchoa dores cristalizadas na carne.

São toques serenos e cheios de emoção
Embevecido em admiração, adimiro tal beleza,
Estarreço-me diante da beleza de tua pureza
Agarro-me a seus lábios e percorro o coração.

Quando um certo ar lhe invde,
Suas pálpebras caem repetidas vezes
E suas narinas abrem-se numa dinâmica virginal
Tornando musa de pensamentos.

Lustros do paraíso cegam o futuro
E resplandecem o momento vivente,
Todas (mesmo poucas) as vezes em que, videntes,
Os brilhos de seu corpo e alma tocam meu escuro.

Uma esperança feliz recobre os contornos
E faz da terra céu ao tansmitir
Eternidade a este ente do amor,
A esta mulher que um bom homem nunca esqueçe.

T, tateie os frisos do monumento;
O monumento chamado momento,
Apenas por nós reconhecido.
Somos nada sem este
Como o sou na ausência de pensamento,
Fraco na ausência do visco de seus olhos,
O riso aberto em sua face,
O toque angelical da sua pele,
E o beijo epifânico da linha de sua boca.

BIU
07/01/2005

24.2.05

Sobre goiabas e tartarugas

Música: O Rancho da Goiabada
Autores: João Bosco & Aldir Blanc

Os bóias-frias
quando tomam umas birita
espantando a tristeza,
sonham com bife-a-cavalo,
batata-frita e a sobremesa
é goiabada-cascão com muito queijo,
depois café, cigarro e um beijo
de uma mulata chamada Leonor
ou Dagmar.
Amar
o rádio-de-pilha,
o fogão-jacaré, a marmita,
o domingo, o bar,
onde tantos iguais se reúnem
contando mentiras
pra poder suportar...
ai, são pais-de-santo,
paus-de-arara, são passistas,
são flagelados,
são pingentes, balconistas,
palhaços, marcianos,
canibais, lírios, pirados,
dançando-dormindo
de olhos-abertos à sombra
da alegoria
dos faraós embalsamados.



Baby Tortoise
D. H. Lawrence


You know what it is to be born alone,
Baby tortoise!

The first day to heave your feet little by little from the shell,
Not yet awake,
And remain lapsed on earth,
Not quite alive.

A tiny, fragile, half-animate bean.

To open your tiny beak-mouth, that looks as if it would never open,
Like some iron door;
To lift the upper hawk-beak from the lower base
And reach your skinny little neck
And take your first bite at some dim bit of herbage,
Alone, small insect,
Tiny bright-eye,
Slow one.

To take your first solitary bite
And move on your slow, solitary hunt.
Your bright, dark little eye,
Your eye of a dark disturbed night,
Under its slow lid, tiny baby tortoise,
So indomitable.

No one ever heard you complain.

You draw your head forward, slowly, from your little wimple
And set forward, slow-dragging, on your four-pinned toes,
Rowing slowly forward.
Whither away, small bird?
Rather like a baby working its limbs,
Except that you make slow, ageless progress
And a baby makes none.

The touch of sun excites you,
And the long ages, and the lingering chill
Make you pause to yawn,
Opening your impervious mouth,
Suddenly beak-shaped, and very wide, like some suddenly gaping pincers;
Soft red tongue, and hard thin gums,
Then close the wedge of your little mountain front,
Your face, baby tortoise.

Do you wonder at the world, as slowly you turn your head in its wimple
And look with laconic, black eyes?
Or is sleep coming over you again,
The non-life?

You are so hard to wake.

Are you able to wonder?
Or is it just your indomitable will and pride of the first life
Looking round
And slowly pitching itself against the inertia
Which had seemed invincible?
The vast inanimate,
And the fine brilliance of your so tiny eye,
Challenger.

Nay, tiny shell-bird,
What a huge vast inanimate it is, that you must row against,
What an incalculable inertia.

Challenger,
Little Ulysses, fore-runner,
No bigger than my thumb-nail,
Buon viaggio.

All animate creation on your shoulder,
Set forth, little Titan, under your battle-shield.

The ponderous, preponderate,
Inanimate universe;
And you are slowly moving, pioneer, you alone.

How vivid your travelling seems now, in the troubled sunshine,
Stoic, Ulyssean atom;
Suddenly hasty, reckless, on high toes.

Voiceless little bird,
Resting your head half out of your wimple
In the slow dignity of your eternal pause.
Alone, with no sense of being alone,
And hence six times more solitary;
Fulfilled of the slow passion of pitching through immemorial ages
Your little round house in the midst of chaos.

Over the garden earth,
Small bird,
Over the edge of all things.

Traveller,
With your tail tucked a little on one side
Like a gentleman in a long-skirted coat.

All life carried on your shoulder,
Invincible fore-runner.

From Tortoises 1921

21.2.05

O peso da verdade

"O conhecimento mata o agir; o agir requer que se esteja envolto no véu da ilusão - (...) -
não é a reflexão, não! - é o verdadeiro conhecimento, a ilusão da horrível verdade, que sobrepuja todo motivo que impeliria a agir, tanto em Hamlet quanto no homem dionísico."

F. Nietzsche em "O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música"


"A única coisa certa era o peso na boca do estômago, a suspeita de que algo não ia bem. Não se tratava sequer de um problema, mas sim de ter-se negado sempre, desde cedo, às mentiras coletivas ou á solidão rancorosa daqueles que começam a estudar os isótopos radioativos ou a presidência de Bartolomeu Mitre."

Julio Cortázar em "O Jogo da Amarelinha"

18.2.05

São Luís do Paraitinga

Carnaval 4 a 9 /fev/2005

com Um fim na alça
e oUtro atado à cintUra
mergUlhamos nUm caldeirão de cUltUra
e nadamos onde sombra não passa

pelo Viés das cortinas das dependUradas “Janelas da História”
VislUmbramos Um torpor
emergente da conViVência com esferas
extasiantes, alegres na dor.

as epiglotes titUbeiam e admitem!
respiramos Um caldo Viscoso,
cozido das lascas do dia-a-dia do povo,
processadas pelo gosto dos que temem o além.

ingredientes especiais (especiarias da terra) brincam
e brindam o pecUliar tempero
qUe encanta os tons do esmero
pelo sabor Brasil com que ressoam.

JUca Teles dá (-nos) ignição ao Lençol
qUe enoVela a Maricota e deVolVe-a
ao Pai do Troço qUe, em Vertigem, não se enVolVe
pois Vai no Bico do CorVo rUmo ao Sol.

e no Vórtice da colher de paU,
damos braçadas rUmo á Identidade Nacional
até qUe a Realidade recolhe-nos em sopa,
já temperados da Alegria Local,
embriagados de Amor e Poesia tUdo menos oca.

BIU
13/02/2005

Receita da Dona Cacilda

PS: Dona Cacilda é uma senhorita de 92 anos, miúda, e tão elegante,
que todo o dia às 8 da manhã ela já está toda vestida,
bem penteada e perfeitamente maquiada apesar de sua pouca visão
.

Receita da Dona Cacilda para se manter jovem:

Jogue fora todos os números não essenciais para sua sobrevivência.Isso inclui idade, peso e altura. Deixe o médico se preocupar com eles. Para isso ele é pago.

Freqüente de preferência seus amigos alegres. Os "baixo astrais" puxam você para baixo.

Continue aprendendo.Aprenda mais sobre computador, artesanato, jardinagem, qualquer coisa.
Não deixe seu cérebro desocupado. Uma mente sem uso é a oficina do diabo.
E o nome do diabo é Alzheimer.

Curta coisas simples.

Ria sempre, muito e alto. Ria até perder o fôlego.

Lágrimas acontecem. Agüente, sofra e siga em frente.

A única pessoa que acompanha você a vida toda é VOCÊ mesmo.

Esteja VIVO, enquanto você viver.

Esteja sempre rodeado daquilo que você gosta: pode ser família, animais, lembranças, música,
plantas, um hobby, o que for.

Seu lar é o seu refúgio.

Aproveite sua saúde. Se for boa, preserve-a. Se está instável, melhore-a. Se está abaixo desse nível, peça ajuda.

Não faça viagens de remorsos. Viaje para o shopping, para cidade vizinha, para um país estrangeiro, mas não faça viagens ao passado.

Diga a quem você ama, que você realmente os ama, em todas as oportunidades.

E LEMBRE-SE SEMPRE QUE:“A vida não é medida pelo número de vezes que você respirou,
mas pelos momentos em que você perdeu o fôlego...
de tanto rir...
de surpresa...
de êxtase...
de felicidade...”

17.2.05

Um pouco de nós

A Mente Humana
Iván Izquierdo
Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUC-RS, Porto Alegre (RS), Brasil
Para a revista Muticiência


Tenho mais de quarenta anos dedicados ao estudo da mente humana em seus diversos aspectos. A maior parte do tempo dediquei à memória em suas várias formas e fases. Mas, para isso, tive que me aprofundar também em outras questões, como os sentimentos, os estados de ânimo e as emoções, seus efeitos no sistema nervoso central, as respostas deste, e os mecanismos que regulam a sua percepção. Como sabemos desde há muitos anos, os sentimentos, as emoções e os estados de ânimo têm uma imensa influência sobre a memória, em muitos casos já bem delimitada e biologicamente previsível. As vias nervosas que registram e regulam os sentimentos, as emoções e os estados de ânimo atuam modulando, através de receptores, cadeias de enzimas específicas em várias regiões corticais, entre elas o hipocampo e demais áreas vinculadas à memória, bem como outras áreas relacionadas à percepção e controle das variáveis psicológicas mencionadas, como o grau de alerta, a ansiedade e o estresse. Tratam-se das vias dopaminérgicas, noradrenérgicas e serotoninérgicas que regulam a percepção de, e as respostas à, a atenção, a ansiedade, o estresse, a excitação e a depressão. A regulação da atividade dessas vias através de remédios usados no tratamento da depressão ou da ansiedade se associa às mudanças cognitivas na percepção, formação e evocação das memórias mais variadas.
Também tive que me debruçar sobre formas da Psicologia que limitam a Filosofia, como a Psicanálise nas suas diferentes expressões; a que achei mais próxima aos conhecimentos biológicos atuais é a Freudiana, a primigênia. Não é a toa que Freud previu, inúmeras vezes, que algum dia seus conceitos e entelequias seriam explicados pela biologia e substituídos por idéias claras de funções nervosas, em alguns casos até com localização anatômica bem determinada. Freud tinha uma sólida formação neurobiológica e publicou vários trabalhos nessa área, inclusive um estudo pioneiro para a sua época sobre os efeitos da cocaína. Em épocas mais recentes, a denominada psicologia cognitiva se desenvolveu imensamente, passou a ser muito usada na terapia contra a depressão, com sucesso, e tem correlatos biológicos muito claros.
Li do que foi escrito sobre a consciência, a natureza dos sonhos, as coisas que foram famosas e já não existem mais. Entre elas o fenômeno do “déjà vu”, visto como uma das formas de epilepsia há até uns 30 anos. Ou as disputas sobre a “localização” do inconsciente, tido como um objeto anatômico, um substantivo, e não como um adjetivo; importante, mas adjetivo enfim. Os sonhos consistem em memórias evocadas internamente, misturadas de uma forma diferente da utilizada na vigília, e não expressadas para o exterior através de comportamentos. A consciência é ainda indefinível em termos rigorosos, e muitos acreditam que sob esse nome escondem-se muitas coisas, entre elas as memórias, níveis de atenção e outras atividades, propriedades e características do tecido nervoso. Hoje, nós que estudamos as Neurociências e vemos através desse estudo o quanto avançamos e o quanto ainda ignoramos sobre a mente humana, nos surpreendemos que poucos anos atrás pudessem ter existido idéias tão fantasmagóricas sobre ela.
Por exemplo, até pouco tempo atrás, confundia-se a mente com a alma. A alma é uma entidade abstrata que o corpo e a mente usam para comunicar-se com Deus; a palavra carece de significado entre os ateus. Acreditem ou não em Deus, os humanos podem ter mentes alertas ou opacas, e até brilhantes, como a de John Nash. Ou mentes doentes, como a do próprio John Nash. Um esquizofrênico, uma vítima de estresse pós-traumático ou um indivíduo deprimido têm a mente doente; mas a sua alma permanece intacta, já que é necessária a postulação de um Deus para se entender a palavra alma, mas não para reconhecer uma doença mental. Cristãos, judeus e muçulmanos acreditam que um doente mental possa ir ao Céu. Os que acreditam na transmigração das almas, como os budistas, os hinduístas e os espíritas, nem sequer cogitam a transmigração das mentes; um recém-nascido (ou um animal) não tem literalmente onde albergar a mente de um adulto.
Não se trata a alma com meios terapêuticos, mas sim a mente, através de remédios antidepressivos, antipsicóticos ou ansiolíticos, e de diferentes tipos de psicoterapia. As funções mentais podem referir-se a localizações anatômicas mais ou menos específicas: fazer, lembrar e extinguir memórias é função importante do hipocampo. A mente é função do corpo e dele depende para existir, sofrer e se manifestar. A alma certamente não tem localização corporal. Os que nela acreditam pensam que aparece e desaparece com o corpo; ou seja, surge com a concepção e evapora-se deste mundo com a morte. A mente não existe após a concepção e muitas vezes desaparece muito antes da morte (aqueles infelizes mantidos vivos como vegetais através de aparelhos, por exemplo).
O conceito de espírito superpõe-se bastante ao da alma; porém, também é muitas vezes aplicado a algo abstrato (vida espiritual, espírito empreendedor, espírito de luta) que difere tanto da alma como da mente. Também não há uma localização cerebral ou corpórea do espírito.
Personalidade, temperamento e inteligência são outras entidades abstratas cujas definições variam de acordo com o autor que as usa. Para alguns psiquiatras, são atributos ou conseqüências da mente; para muitos psicólogos ou pedagogos são características do indivíduo. As duas definições são usadas muitas vezes em conjunto, superpostas. Há quem ache que é difícil ou impossível definir o que é a inteligência, por exemplo.

A memória e a mente.

Certamente a mente humana ou animal depende em grande parte da memória. O pensador italiano Norberto Bobbio, falecido neste ano, dizia que “somos aquilo que lembramos”. Eu costumo acrescentar “e também somos o que decidimos esquecer”. De acordo com nossos hábitos e personalidade, podemos escolher não esquecer as ofensas e as agressões jamais, e nesse caso estaremos propensos à amargura, à paranóia ou ao ressentimento. Podemos escolher esquecê-las por completo, ou reprimi-las até que desapareçam do nosso acervo de memórias importantes, e nesse caso ficaremos muitas vezes indefesos perante a sua reiteração. Podemos também, entretanto, escolher reprimi-las ou extingui-las até que passem a ficar fora do acervo das memórias de uso diário e facilmente acessíveis, mas à nossa disposição caso se tornem necessárias; por exemplo, quando for oportuno esquivar-nos ou defender-nos de novas ofensas ou agressões.
Nossa mente possui os mecanismos para escolher entre essas possíveis soluções. O uso repetido de uma ou outra delas nos leva por rumos diferentes em relação à nossa personalidade; e a personalidade não é algo que se obtém como um diploma em uma certa idade: podemos mudá-la ao longo da vida, como produto das memórias deixadas pelas experiências. O mundo está cheio de pessoas que já foram “boazinhas” e, como conseqüência de uma guerra, uma humilhação ou um infortúnio, se tornaram ressentidas e perigosas. E também de outras que já foram ressentidas e amarguradas e depois de um sucesso, um golpe de sorte, o amor de alguém, o amor de muitos, a realização pessoal, ou qualquer outro motivo (a velhice, por exemplo, se for benigna) tornam-se tolerantes, benevolentes e de trato agradável e frutífero. As mudanças de personalidade pelo conjunto de experiências que temos são muitas vezes inconscientes e até involuntárias; outras vezes são conscientes e produto de nosso julgamento sobre o que é que mais nos convém na sociedade em que vivemos, e de nossa análise cuidadosa das características dessa sociedade. Falei linhas acima da “mente humana ou animal”. É fácil verificar mudanças de temperamento em cachorros ou outros animais de estimação ou de laboratório submetidos a experiências da índole assinalada no parágrafo anterior. Não é por casualidade nem por erros inatos da carga genética que há cachorros que jamais mordem a mão de quem lhes dá comida, e outros que sempre o fazem. Os animais também são aquilo que lembram e aquilo que escolhem esquecer.

As emoções, a mente humana e a memória

É bem presente que, a todo momento de nossa vida, a cada minuto, estamos com algum estado de ânimo ou emocional determinado, e em determinado estado sentimental; e que ambos são facilmente mutáveis. Os estados de ânimo, as mudanças de humor e os estados sentimentais causam e são regulados por vias cerebrais muito bem definidas, que usam como neurotransmissores a noradrenalina, a dopamina, a serotonina e a acetilcolina, cada uma delas atuando sobre receptores bem diferentes espalhados por todo o cérebro. Alguns desses estados favorecem a aquisição, consolidação ou evocação dos mais diversos tipos de memória, por ação das substâncias mencionadas sobre um ou outro receptor nas regiões cerebrais que fazem ou evocam memórias. Às vezes, podem afetar de forma oposta a formação das memórias de curta e longa durações; às vezes, pelo contrário, afetam esses dois tipos de memória no mesmo sentido; às vezes, o efeito de alguma dessas vias predomina sobre o das outras; às vezes, essas vias agem simultaneamente com intensidade semelhante.As memórias muito aversivas ou emocionantes têm sua aquisição, e sua subseqüente consolidação, regulada preferencialmente pelas vias noradrenérgicas centrais, que fomentam sua gravação e portanto, indiretamente, sua permanência. Todos lembramos onde estávamos e o que estávamos fazendo quando vimos na televisão a morte de Ayrton Senna. Muitos recordaremos vivamente, anos depois, algum acontecimento feliz de nossa vida, por exemplo um determinado aniversário, ou o casamento, ou o nascimento dos filhos ou netos. A fidelidade da gravação e sua persistência são notoriamente menores quando se tratam de memórias menos importantes ou chamativas. Na hora da evocação, se produzirá um nível emocional maior (com maior descarga central de noradrenalina) ao evocar aquelas memórias mais “emocionantes” do que outras. De fato, as vias noradrenérgicas, dopaminérgicas e serotoninérgicas são também cruciais e participam como protagonistas importantes na evocação da memória, também nas várias regiões corticais vinculadas à memória.
Além dessas vias, há hormônios liberados no sangue pela hipófise, supra-renal e outras glândulas que afetam profundamente a formação e a evocação de memórias, e muitas vezes acrescentam seu efeito aos aspectos cognitivos de cada memória, tornando-as dependentes deles. A memória passa, assim, a ser “a informação aprendida” mais “o efeito do hormônio que for liberado durante a experiência correspondente”. A liberação do hormônio passa a funcionar como mais um componente da memória, como mais um estímulo condicionado para colocá-lo em termos pavlovianos. É mais fácil evocar essa memória quando estivermos novamente sob o efeito desse hormônio (por exemplo, para experiências muito novidosas a b -endorfina; para experiências muito estressantes, a adrenalina e a adrenocorticotrofina ou ACTH). Denomina-se isto como “dependência de estado”, e é comum justamente em experiências estressantes. O estado é aquele em que nos coloca a substância endógena liberada. Recordaremos mais das memórias de medo quando formos submetidos a novas situações de medo; recordaremos mais das memórias de conteúdo sexual quando estivermos em situações em que a nossa sexualidade for estimulada. Isso se deve ao fator de que em cada caso secretamos diferentes e específicos tipos de hormônio.

A mente humana.

A mente humana abrange, porém, muito mais do que a memória. Nas funções mentais participam a percepção, o nível de alerta, a seleção do que queremos perceber, recordar ou aprender, a decisão sobre o que queremos fazer ou deixar de fazer, a vontade, a compreensão, os sentimentos, as emoções, os estados de ânimo e tudo aquilo que é englobado sob os conceitos de inteligência e consciência.
Todas estas variáveis são fortemente influenciadas pelas memórias e vice-versa; mas são entidades separadas da mesma e com mecanismos próprios. Em termos de áreas cerebrais há alguma especialização, mas também muitas superposições. O hipocampo, estrutura do lobo temporal, e o córtex subjacente (entorrinal) estão fortemente vinculados com a formação e a evocação de memórias. Mas também registram os níveis de alerta e as emoções, que regulam sua função mnemônica. A amígdala modula e regula o desempenho hipocampal nas memórias aversivas ou muito alertantes; mas, além disso, ambas estruturas, amígdala e hipocampo, regulam a secreção de hormônios hipofisários, que por sua vez também regulam a secreção hormonal das glândulas supra-renais, tireóide, e sexuais.Como resultado do registro de variáveis internas ou externas que aumentam ou diminuem os níveis de alerta e atenção e causam ou não ansiedade ou estresse, ocorrem mudanças somáticas (no corpo) que nem sempre se relacionam com a memória: hiperventilação, taquicardia, aumento da pressão arterial, dos movimentos e secreções do tubo gastro-intestinal, secreção de bílis, etc. É claro que todos estes fenômenos por sua vez afetam a curto e a longo prazo a atividade nervosa e, dentro dela, as funções mentais, inclusive as referentes à memória. Há uma relação mente/corpo que é a base da atividade cotidiana de ambos, e também da patologia chamada psicossomática; que não só existe, como é uma das bases da Psiquiatria e da Medicina modernas. O estresse repetido pode alterar alguns dos parâmetros fisiológicos mencionados (pressão arterial, freqüência cardíaca, secreção gástrica) de forma permanente.
Assim, a mente humana abrange muitos aspectos e não é possível estudá-la nem entendê-la, ainda que num nível elementar, sem levar em consideração todos esses aspectos. A mente influi sobre o corpo, o corpo influi sobre a mente, e nem um nem outro tem a ver com a alma ou o espírito.
Sabemos muitas coisas novas e importantes sobre alguns aspectos da mente humana e sua patologia, principalmente sobre a percepção e a memória. Também sabemos como tratar essa patologia muito melhor do que dez ou cinqüenta anos atrás. Mas ainda há muito mais por aprender.
A mente é, hoje, até fácil de descrever em seus aspectos mais gerais, mas a função mental em cada circunstância específica de nossas vidas continua sendo um mistério . Como prever, frente a uma determinada circunstância, se haverá algum cruzamento remoto de informações que nos fará reagir de alguma maneira? Somos surpreendentes, e nisso radica nossa variedade como indivíduos, e também algumas das nossas semelhanças.

16.2.05

A alguém especial

Viver do amor
Chico Buarque1977-1978
Pra se viver do amor
Há que esquecer o amor
Há que se amar
Sem amar
Sem prazer
E com despertador
- como um funcionário
Há que penar no amor
Pra se ganhar no amor
Há que apanhar
E sangrar
E suar
Como um trabalhador
Ai, o amor
Jamais foi um sonho
O amor, eu bem sei
Já provei
E é um veneno medonho
É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
E compreender
Que o amor não é um vício
O amor é sacrifício
O amor é sacerdócio
Amar
É iluminar a dor
- como um missionário


Linhas Características

Duas por instante
São as vezes que me invades
Sem pedir licença nem perdão
Tomas conta do meu ser

Numa delas a agonia prepondera
Pois enfincas sua bandeira e
Caminhas para longe
“Simplesmente” meu cerne tanges
Deixas uma borrifada de paraíso
À distância pões tão pequeno narciso
O resvalar de tuas suaves plumas impõe vazio
Explicita minha carência sensitiva de ti

Isso desde que te conheci
Seja nos sonhos ou ao vivo
(Se é que os posso distinguir)
Há tempos!

Na outra sinto êxtase por estar contigo
Seja próximo
Seja escondido em meu abrigo
Contigo
Comigo
Com trigo
Cochilo
À pino
O crocodilo das horas não surte efeito
Pois as devora
Mas o tempo recusa-se
A atarantar da vida o momento predileto.
Quando sua existência não basta.

Aproxima-se

Tudo isto sobre a linha continua do pensamento devoto.

BIU