13.9.05

Nada a acrescentar

Ode à Alegria
(João Silvério Trevisan)

Mesmo que eu não tenha motivo aparente para me alegrar.
Mesmo rastejando neste chão de equívocos
que é a noite escura da existência,
ah, eu me deixo tomar por uma Alegria
que brota do mais alto e do mais baixo e de todos os lados
porque o centro do mundo e o próprio eixo do universo
batem aqui, exatamente onde estou
onde SOU
Dizem que o mundo mudou muito!...
Hoje já tem divórcio...
Dizem que o lundu virou maxixe
Que virou samba que virou... sei lá
Dizem que o homem já foi à lua
mas o negro brasileiro até hoje não se libertou
Dizem que a vocação do Brasil é à deriva... Será?!
Dizem que logo-logo vão descobrir
A cura completa da AIDS mas
o ser humano continuará incurável!
E dizem que eu vou morrer do coração. Quem sabe?!
O que eu sei é que ainda que eu tenha compreendido todos os
mistérios, se não tiver Amor,
eu não terei compreendido nada
O que eu sei - é que ainda - que eu tenha -
Compreendido - todos os mistérios...
Se não tiver Amor - eu não terei compreendido nada
O que eu sei,
é que TODOS precisamos beber da ALEGRIA
da Alegria - que é a face visível do Amor.
Eu sei que o tempo todo a grande Morte nos espreita,
Sei o quanto é cruel
estarmos assim diante das trevas
E possuído de todas as dúvidas
Mas sei também que existe um SIM!
E repito que este SIM foi, é e será, sim, a Alegria!
a Alegria-Pássaro que estende suas asas sobre nós
e nós sorrimos, apesar de tudo e de tudo
E eu respondo a todos os insultos
Com uma alegria...íssima
E digo ao mundo que se um vier, eu a defenderei
E se três ou quinhentos vierem, eu a defenderei
Eu a defenderei contra todos os horrores,
Defenderei, defenderei
e responderei a todas as infâmias com Alegria
e ainda que eu morra (ouviu, Deus?)
Ainda que eu morra, como um cão bravio
defenderei minha capacidade (mortal!)
de viver em alegria!

8.9.05

Caranguejos

Risoflora

Chico Science e Naçâo Zumbi


Eu sou um caranguejo e estou de andada
só por sua causa, só por você, só por você
e quando estou contigo eu quero gostar
e quando estou um pouco mais junto eu quero te amar
e aí te deixar de lado como a flor que eu tinha na mão
e a esqueci na calçada só por esquecer
apenas porque você não sabe voltar pra mim
Oh Risoflora! vou ficar de andada até te achar
prometo meu amor vou me regenerar
Oh Risoflora! não vou dar mais bobeira dentro de um caritó
Oh Risoflora, não me deixe só
Eu sou um caranguejo e quero gostar
Enquanto estou um pouco mais junto eu quero te amar
E acho que você não sabe o que é isso não
E se sabe pelo menos você pode fingir
E em vez de cair em tuas mão preferia os teus braços
E em meus braços te levarei como uma flor
Pra minha maloca na beira do rio, meu amor!
Oh Risoflora!
Vou ficar de andada até te achar
Prometo meu amor vou me regenerar
Oh Risoflora! Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó
Oh Risoflora, não me deixe só

29.8.05

Parir-se

Ecdise

Emaranham-se hifas
Sobre medos persistentes,
Enroscam-se pífias
Sobre menos importantes

Com formas sutis e variadas,
Explosões de alegria, num micélio,
Desmontam o resto de mistério,
Desfolham as metmorfoseadas.

Desgarram-se lascas
Rasgadas da carne costurada
Sobre realidades opacas.
E a ecdise faz-se sa(n)grada.

Era soterro de estigmas
Encrustrados
Na serendipidade
Dos detalhes de mim
Em auto-comiseração.

A ponta da espada do incomodo
Espeta a matriz de esporos
E arrasta a vontade do novo,
De tear tecidos não escuros...

E nasce um corpo
Sob o sol da bondade
Incipiente corpo de verdade
Nutrido do esterco do porco

Nasce frágil
Mostra fácil a pele pálida
Numa brandura ávida
Por ignorar o passado,
Corar-se no seio da amizade,
Ver-se livre do sonho projetado,
E ser, após a ecdise da realidade,
Vivo na soberba humildade.


BIU
29/08/2005

Serendipidade: arte de transformar detalhes, aparentemente insignificantes, em indícios que permitam reconstruir toda uma história

26.8.05

"...Alta noite já se ia..."

Trilha

Encapuzado.
Num punho, o fogo lamparina
No outro, o cajado tremelica.
Pé e cabeça calejados
Pelo caminho caminhado.

O homem peregrina na terra hostil
Em busca daquilo que ofusca
E afasta a esquina da vida sutil,
De ser tua a sua vida que enrosca.

Neste tecido ilusório de contrários,
Tece soluções a males primários;
Por operações inusitadas
Inocula belezas bordadas.

Dotado do dom de doar
Pesquisas em palavras,
Escrutina as dores do ar,
Donde ardem tesouros, das lavras.

A dor extirpada
Pelo caminho caminhado
Liberta o homem mistificado
E rasga na face fechada
Uma trilha ao sorriso
De ver teu o seu caminho
Que só assim é caminhado.

BIU
22/08/2005

1.8.05

Vínculos.



há uma lágrima que não escorre

está pedrificada dentro de minha identidade

da qual não sei, onde é,

qual sei onde seria?

não escorre por que não há dor, nem

há forma de limpá-la a não ser evitá-la

devo ficar calado nas próximas horas

ficar calado é ficar de bem com o ódio

a plenitude do silêncio é a ferramenta que sustenta

o ócio dos dias e o boçal das famílias

da sujeira impregnada por de baixo das pálpebras

Sei que nada é divino

nada é mistério

porque o mistério é a dor da consternação

há uma lágrima de concreto feito viga

sobrepõe a minhas mãos cansadas, as veias rotas,

caminhos inerentes, escolhas punjentes.

José E. de Castro Ortega


A implosão da mentira (Por Afonso Romano de Sant'Anna)

"Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.


Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.


Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.


Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.


Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o
rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.


Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constróem um país de mentiras diariamente."


19.7.05

Nada a declarar...

A Máquina do Mundo
Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se a majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter suado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuras em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo".

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animaise
chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relancee
me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas

presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Plágio internauta

A Terra parou!?
Ou a web caiu...

15.7.05

Porque o jogo começa 0x0 e não pode terminar negativo...

Te Amo

Te amo
Te amo de uma maneira inexplicável.
De uma forma inconfessável.
De um modo contraditório.
Te amo
com meus estados de ânimo
que são muitos, e mudam de humor continuamente.
Pelo que já sabe,
O Tempo.
A Vida.
A Morte.
Te amo
Com o mundo que não entendo.
Com as pessoas que não compreendo.
Com a ambivalência de minha alma.
Com a incoerência de meus atos,
Com a fatalidade do destino.
Com a conspiração do desejo.
Com a ambiguidade dos fatos.
Ainda quando te digo que não te amo, te amo.
Até quando te engano, não te engano.
No fundo, levo a cabo um plano,
para amar-te... melhor.
Pois, ainda que não creias,
minha pele sente falta enormemente da ausência de tua pele.
Te amo.
Sem refletir,
inconscientemente,
irresponsavelmente,
espontaneamente,
involuntariamente,
por instinto,
por impulso,
irracionalmente.
Com efeito nao tenho, argumentos lógicos,
nem sequer improvisados
para fundamentar este amor
que sinto por ti,
que surgiu misteriosamente do nada,
que não tem resolvido magicamente nada,
e que milagrosamente, de pouco, com pouco ou nada tem melhorado o pior de mim.
Te amo.
Te amo com um corpo que não pensa,
com um coração que não raciocina,
com uma cabeça que não coordena.
Te amo
incompreensivelmente.
Sem perguntar-me, porque te amo.
Sem importar-me porque te amo.
Sem questionar-me porque te amo.
Te amo
simplesmente porque te amo.
Eu mesmo não sei porque te amo

PABLO NERUDA

Um dia disseram...

Vc dialoga com o olhar.
E de repente, intercalando silêncio com sorriso, muito é dito.
E num outro instante, está imerso
E se entregar à vida, fechar os olhos
No momento certo buscar o mínimo significado da existência
Dentro do que pode ser denso o suficiente para consumir
Para embriagar de si mesmo.
E que feche os olhos pra tirar de cada instante
o que pode se tornar sublime ao coração.

8.7.05

Dias de hoje


Weary with toil, I haste me to my bed,
The dear repose for limbs with travel tired;
But then begins a journey in my head,
To work my mind, when body's work's expired:
For then my thoughts, from far where I abide,
Intend a zealous pilgrimage to thee,
And keep my drooping eyelids open wide,
Looking on darkness which the blind do see
Save that my soul's imaginary sight
Presents thy shadow to my sightless view,
Which, like a jewel hung in ghastly night,
Makes black night beauteous and her old face new.
Lo! thus, by day my limbs, by night my mind,
For thee and for myself no quiet find.

Shakespeare


Luto do Luto

Lutar o luto.
O nascimento do luto do luto
Luta contra o embrulhado em preto
Vindo do fraldário,
Insígnia do eterno luto.

Impedido de ser feliz por estar sempre
A encobertar o luto,
Designado a absorver e ser solidário ao luto
Encobri-lo

Ser luto e repará-lo sendo o morto que vive

O luto da honestidade,
Da sinceridade,
Da decência,
Da fraternidade,
Do companheirismo...

Assopra o luto

Supera a espera de ver o vento soprar
A nevoa do horizonte longínquo.
Espera e supera a esfera do chorar
Vociferado em vento inócuo.

O sopro rebenta o peito
E rasga a tristeza do momento
Em cacos para um vitral
Mais um frente as sutilezas do real.

Destino crucificado
Desde a raiz
Cruza a matiz
Lambuzada de inconformismo.

Fa(r)dados a lamentar
O infortúnio que enforca
A vida curiosa e palpitante
Imersa em significados.

É a vez do luto do luto.

Novos paradigmas e signos,
Pois ainda somos homens exímios
E na busca do significado absoluto
Fitemos e sejamos

O desejo do Puro Tocar no Tempo

BIU
06/07/2005



Cânticos

...
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


Cecilia Meireles


Eu

Foi eu , na primeira vista causa e espanto,
Juro, não ter culpa, na segunda, o susto se apazigua e vem,
as pessoas a cuspir porque assim é mais fácil,
conforme a cartilha específica das coisas...

Recuar e regredir em mãos dadas é o exímio amor
que sem o efetivo catarro do fato se torna vazio...
Evacuar a área como resíduos
deixar para trás história e vida
e o cometa infalível a se chocar com outros muros, outros horizontes.


Zé Ortega
07/07/2005

2.7.05

Saboreando o Momento

"O TEMPERO DA VIDA"

À BIBA

RESSUSCITAR
RE-SUSCITAR
PITADAS SUSCITAM A VIDA DAS CINZAS
DE CINZAS DA VIDA À VIDA DAS CINZAS...

O QUE HÁ DE VIDA NAS CINZAS
VEM DOS DEDOS FRICCIONADOS
E DO FAMILIAR CALOR QUE DAÍ PINGA
COMO O DO FOGO DIVINIZADO
POR LEVAR DA MORTE AO TEMPERO DA VIDA.

PITADAS DE VENTOS SOLARES DESPEJAM
A POEIRA CÔSMICA, CINZAS DE ESTRELA
FECUNDANDO A FÉRTIL TERRA,
ENQUANTO FÓTONS DO REI SOL BRADAM
À CULINÁRIA LOCAL
"DAS CINZAS À VIDA".

E NAQUELA LINGUADA INFANTIL,
OS SABORES DA VIDA VINCAM AS BOCHECHA
SEM CURVATURAS POR QUE ESCORREM
OS SEGREDOS DA VIDA REPLETA, SEM BRECHAS.

RISO E LÁGRIMAS SE CRUZAM E SEGUEM
TROCADOS NA INFLEXÃO FACIAL...

TEMPEROS

VIVER EM BEM-QUERER,
EM TEMPERAMENTO TEMPERADO
PELAS TROCAS SALPICADAS DE TOQUES
INVISÍVEIS COMO O SAL DOS QUITUTES,
O SONHO NO REAL MERGULHADO
E A POEIRA QUE JAZ NO VIVER.

CULINÁRIA É DE PÓ E MORTE.
EM MEDIDAS SUTIS É
DA VIDA A ARTE,
UM BEIJO NO OLHO:
NÃO MOSTRA MAS AQUECE O CORPO,
SUSCITA O PURO AMAR,
UM CAMINHO QUE ESCOLHO...

BIU
25/06/2005

Dica de Ana

Este livro...

Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo...e compreendê-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
Bíblia de tristes...Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de Mágoas...Dores...Ansiedades!
Livro de Sombras...Névoas e Saudades!
Vai pelo mundo...(trouxe-o no meu seio...)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de Mágoas cheio!...

Florbela Espanca

6.6.05

Inspetora Lispector

Eu sei mas não Devia

Clarice Lispector

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma
a acender cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã
sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduiche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e
ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso
de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
Agente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,
para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.

Quase um mês depois...

Jardim de mim

Como a docilidade escorrida do momento,
A presença arrasta o viscoso sentimento
De enternecimento,
De bem-estar perante o rebentar
Do viver em harmonia com o luar.
Sem querer pra onde, basta andar...

Andar, remar...
Notando o turbilhão de sensações
Que povoam o mais tenro tocar,
Sutilmente tocar a transparência
Do ar,
Da água
E do irretocável ser,
Apto a estourar as amargas amarras
Que enovelam o simples amar.

Viver e ver-se livre do ter de viver
Apenas.
Colhendo almofadados tufos de bem-querer,
Preocupado em acalentá-los,
Sutilmente exibi-los ao vento
E deixá-los
Acomodar em ramos de louro,
Acariciar o espírito do loureiro,
Como o mar faz ao vento,
Repleto daquelas dobraduras magistrais
Cuja concavidade, moldura do convexo,
Remete ao atemporal,
Esculpi o momento livrando-o de todo seixo.

E o bem-querer escorre o ramo,
Refresca-se no frescor de sua seiva
Percorrendo de delicadas folhas a beira,
Adocicando-se do que há de belo no humano.

Desprende um silêncio
Ávido
Impávido
Alça do ímpeto do desejo
De ser motivo de sorriso,
Sorrir pelo sorriso...

E no sôfrego titubear das gotas
Diante de um dentre muitos pedúnculos,
Da escolha do caminho seguro,
Soltar-se e pingar no solo das horas.
...

Eis que dali brota
Uma flor, toda.
Destinada a admirar o loureiro,
Embalá-lo em perfumes
E assim com muitas gotas...
Até que o inédito jardim
Seja o mais belo de mim,
Pleno de sentimentos, cores nunca vistas.

Calmo jardim!
Mesmo com possíveis vendavais
Pois sob o feitiço da sombra,
Irradiado por sua perene primavera,
Faz de momentos eternidades,
Vê a beleza apolínea no tudo e no nada, a paz.

BIU
27/05/2005

12.5.05

Ter a pia I

Estilingue

Cavidade ressonante de versos
Exibe uma trinca
E os dedos do que brinca,
Sôfregos, empurram em dor imersos

O esconder como ser
Repele a plenitude do momento
E a porosidade do inabalável escondido
Revela um bebê impedido de viver

Viciado em ser-lhes especial,
Centro da atenção impressionada,
Chega a desprezar os demais do palanque umbigal
E não reter o mundo pois até a sua em si está por demais centrada

Acuados em ser(,) seres acuados
Pela cobrança que encobre o viver,
Buscamos algo sempre a correr
Como uma fuga do mi ao si dos refugiados

Urge esmigalhar a casca
E aguçar tantos quanto sejam os sentidos
Livres do sangue viscoso dos momentos não-vividos
E dar-se ao singelo sorriso
De ver os estilhaços da máscara

BIU
10/05/2005

10.5.05

As arestas da Terra cheia

composicação
Enceguicido por esse teu corpo,
paisagem lunar em noite de Terra cheia,
vejo que o Mar da Tranquilidade me hipnotiza
com sua ausência de algas e sereias.
Mas quem quer atmosfera? Basta
a vertigem veloz soprando nos cabelos
que ornam as regiões mais aprazíveis
da imensidão resplandecente e sem arestas.

Rubens Rodrigues Torres Filho em "Poemas Novos (1994-1997)"

3.5.05

Vinicius "Amador" de Moraes, longe de amador...

A brusca poesia da mulher amada

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Rio de Janeiro, 1938


A brusca poesia da mulher amada (II)

A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens.Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada.
A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada
É a mulher amada.
Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!

Rio de Janeiro, 1950


A brusca poesia da mulher amada (III)

A Nelita

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!

Rio de Janeiro, 1963

26.4.05

Pela estreita fresta da poesia

Fresta
Fernando Pessoa

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,

E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

25.4.05

Uma longa canção

Life Is A Long Song
(Jethro Tull)

When you're falling awake
and you take stock of the new day,
And you hear your voice croak
as you choke on what you need to say,
Well, don't you fret, don't you fear,
I will give you good cheer.

Life's a long song.
Life's a long song.
Life's a long song.

If you wait then your plate I will fill.
As the verses unfold and your soul suffers the long day,
And the twelve o'clock gloom spins the room,
You struggle on your way.
Well, don't you sigh, don't you cry,
Lick the dust from your eye.

Life's a long song.
Life's a long song.
Life's a long song.

We will meet in the sweet light of dawn.

As the Baker Street train spills your pain all over your new dress,
And the symphony sounds underground put you under duress,
Well don't you squeal as the heel grinds you under the wheel.

Life's a long song.
Life's a long song.
Life's a long song.

But the tune ends too soon for us all.

20.4.05

Dica de Beto

SE

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.
Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,de sonhar -
sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.
Se és capaz de arriscar numa única partida,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.
Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida