10.5.05

As arestas da Terra cheia

composicação
Enceguicido por esse teu corpo,
paisagem lunar em noite de Terra cheia,
vejo que o Mar da Tranquilidade me hipnotiza
com sua ausência de algas e sereias.
Mas quem quer atmosfera? Basta
a vertigem veloz soprando nos cabelos
que ornam as regiões mais aprazíveis
da imensidão resplandecente e sem arestas.

Rubens Rodrigues Torres Filho em "Poemas Novos (1994-1997)"

3.5.05

Vinicius "Amador" de Moraes, longe de amador...

A brusca poesia da mulher amada

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Rio de Janeiro, 1938


A brusca poesia da mulher amada (II)

A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens.Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada.
A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada
É a mulher amada.
Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!

Rio de Janeiro, 1950


A brusca poesia da mulher amada (III)

A Nelita

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!

Rio de Janeiro, 1963

26.4.05

Pela estreita fresta da poesia

Fresta
Fernando Pessoa

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,

E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

25.4.05

Uma longa canção

Life Is A Long Song
(Jethro Tull)

When you're falling awake
and you take stock of the new day,
And you hear your voice croak
as you choke on what you need to say,
Well, don't you fret, don't you fear,
I will give you good cheer.

Life's a long song.
Life's a long song.
Life's a long song.

If you wait then your plate I will fill.
As the verses unfold and your soul suffers the long day,
And the twelve o'clock gloom spins the room,
You struggle on your way.
Well, don't you sigh, don't you cry,
Lick the dust from your eye.

Life's a long song.
Life's a long song.
Life's a long song.

We will meet in the sweet light of dawn.

As the Baker Street train spills your pain all over your new dress,
And the symphony sounds underground put you under duress,
Well don't you squeal as the heel grinds you under the wheel.

Life's a long song.
Life's a long song.
Life's a long song.

But the tune ends too soon for us all.

20.4.05

Dica de Beto

SE

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.
Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,de sonhar -
sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.
Se és capaz de arriscar numa única partida,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.
Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida

19.4.05

Paraíso em foco

Domenico di Masi em “Criatividade” diz:

“A arte e a religião foram, portanto, as duas grandes criações consoladoras esboçadas durante milênios da Pré-história e aprimorada durante séculos da História. Mas, se a arte pode oferecer somente algumas alegrias compensadoras para as dores existenciais, a fé num mundo depois da morte, além de exorcizar a duração demasiadamente breve da vida terrena, pode até descortinar a esperança de uma felicidade eterna, simétrica às atribulações padecidas na vida e perfeitamente de acordo com as aspirações humanas”

“Não há sorte incerta, rara, fugaz sobre esta terra que não se torne segura, plena e perene nas descrições paradisíacas”

“As figurações do paraíso, portanto, e a inexaurível criatividade que as colocariam constituem outras fontes copiosas de informação sobre como o homem teria desejado viver sobre a terra e sobre o que ele entendia por felicidade. Naquilo que nos diz respeito de forma específica, elas nos oferecem testemunhos indiretos originais para reconstruir não só as formas de criatividade que o homem produziu, mas também a relação ambígua de ódio e amor que ele manteve seja com o trabalho, seja como o ócio”

8.4.05

Fenda na poesia

Abdução Anfíbia

Um rasgo no prosaico
Suspende o coaxar
Entre um e outro inseto
E engole um pulo másculo
Rumo ao incerto porém irresistível

O trato repentino da arte desconfortável
Transforma o corpo lânguido
Em sustentáculo do desejo
Vetor da física à doença do sentimento
Prostra-se o sapo
Refém da memória do belo
“Numa transversal do tempo”

O temido desconhecido
Por hora abafa o entusiasmo,
Amortece os estímulos
Até que o pensar novo
Revela-se benéfico
Num revelar-se construído sobre ruínas,
Coletado do sumo que escorre
Da condensação escultora do vapor do momento
Sobre a superfície gélida das trilhas do eu


Aperfeiçoadas esculturas
Afeiçoam o anfíbio
Saliente no sutil torcer de cabeça
Frente o infinito belo
Debaixo do rasgo transversal do tempo

Cuooooxe.............Cuuuoooooooooooooxxxxeee


BIU
07/04/2005

6.4.05

Shakespeare e Rilke

CXLI.
William Shakespeare

In faith, I do not love thee with mine eyes,
For they in thee a thousand errors note;
But 'tis my heart that loves what they despise,
Who in despite of view is pleased to dote;
Nor are mine ears with thy tongue's tune delighted,
Nor tender feeling, to base touches prone,
Nor taste, nor smell, desire to be invited
To any sensual feast with thee alone:
But my five wits nor my five senses can
Dissuade one foolish heart from serving thee,
Who leaves unsway'd the likeness of a man,
Thy proud hearts slave and vassal wretch to be:
Only my plague thus far I count my gain,
That she that makes me sin awards me pain.


Ich fürchte mich so vor der Menschen Wort
Rainer Maria Rilke

Ich fürchte mich so vor der Menschen Wort.
Sie sprechen alles so deutlich aus:
Und dieses heißt Hund und jenes heißt Haus,
und hier ist Beginn und das Ende ist dort.

Mich bangt auch ihr Sinn, ihr Spiel mit dem Spott,
sie wissen alles, was wird und war;
kein Berg ist ihnen mehr wunderbar;
ihr Garten und Gut grenzt grade an Gott.
Ich will immer warnen und wehren: Bleibt fern.
Die Dinge singen hör ich so gern.
Ihr rührt sie an: sie sind starr und stumm.
Ihr bringt mir alle die Dinge um


Tradução de Carlos Bechtinger
Eu me assusto tanto diante da palavra dos homens

Eu temo tanto a palavra dos homens
Eles explicam tudo tão claramente
E isso se chama cachorro e aquilo se chama casa,
E aqui é o começo e o fim é lá.

Me assusta também a reflexão de vocês,
o jogo de vocês com escárnio
Vocês sabem de tudo, o que foi e o que virá.
Nenhuma montanha é mais maravilhosa para vocês
Os seus jardins e o bem de vocês se limitam em Deus
Eu quero sempre avisar e combater: Fique longe disso!
Eu escuto com tanto prazer as coisas cantadas
Vocês não a tocam. Elas são mudas e teimosas.
Vocês todos para mim matam as coisas.

5.4.05

Poetizas em amostra

Meu Deus, me dê a coragem
Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braçoso meu pecado de pensar.


Todas as vidas
Cora Coralina

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, Global Editora, 1983 - S.Paulo, Brasil


O amor no éter
Adélia Prado

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados
na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Poesia reunida, Editora Siciliano, 1991 - S.Paulo, Brasil

PS: um site que reune uma boa amostra de poetizas brasileiras e traduzidas é "Mulheres que amo" :http://utopia.com.br/poesia/

31.3.05

Palavras Amigas

“Mensagem aos Viajantes”

De tudo que me foi dito
Uma mulher, acredito
Preencheria o vazio
De toda alma em estio

Sigo trilhas; conquisto montanhas
Cume, falésias, dunas, cavernas
Acidentes do terreno e da alma
Busca insólita pela taverna

Sobre o mundo repousa o espírito
Este ente, caráter holístico
Ante tudo, sobre nada habita
Desorientando aquele que fica

E assim, a entreter o ciclo
Vislumbra o viajante a mãe Terra
Segue o rumo, indefinido
Perante a qual tudo se encerra
José Roberto Mialichi
31/03/2005

30.3.05

Poeta Alemão

DICHTER

Ter-te
O Teu
Ser Teu
Absorto em Ti
O poeta é Teu
Enquanto o Teu é do poeta
E segue tua trilha rumo ao eu
Tanto o Teu quanto o Meu

A poesia é Tua
Coleta os favos de Mel
Inclina-os
E deixa escorrer o Teu Eu
Lambuza-se de Ti
Infiltra-se do Ti
Seja o Te
Um sentimento
Um momento
Objeto
Esquecimento
Um pensamento
Seu ou Teu

Ser o Teu
Quando as curvas elásticas do S
Acomodam os ângulos do T
Fazendo do Teu Seu
Numa simbiose almofágica
Num voyerismo dissimulado
Pois arde a presença do Dich no poeta
Que aglutina Teu sER em TER
Transfigura Mich em DICH
Nascendo como DICHTER,
Um poeta em ser!


Lucrécio Rodrigues Torres
30/03/2005

18.3.05

Un pò di religione

Culto à palavra

Vossa Excelência, licença para colocá-la nessa brancura,
Parte do seu infindável reino.
Solte-se por essa madeira,
E, de alguma maneira, mostre sua força.
Um piparote já é moldura,
Loucura.
Seu palco é o mundo, é o fundo.
É a clareira sem beira.

Quando colocaram Vossa Santidade na Rocha,
Saímos da Pré
E viramos História.
Nasceu a memória.
Ouvir é glória!
Chega pelo ar nessa parabólica,
Colabora ou apavora: a História.

Vossa Eminência conduz essa peça chamada vida.
É o pé.
A Senhora atravessa os mares, invade os lares,
Afasta as feras, acende trevas.
Permite o culto aos deuses, a fé das montanhas.
É a escada do porão

Sobre a Senhora não há domínio;
Mais forte que Sol,
Define a imensidão;
Mais profunda que o mar,
Mais romântica que o luar.

É-nos cevas.

Sua pá lavra, eleva, cala, safa, mata.
Você, Palavra, semeia
O Amor,
A dor,
Cultiva o sabor,
Planta o saber,
O viver: amplitude celeste.
Sem você, tudo some: a ciência, a religião...
Chegaria, Mestre, a peste.

Na medida em que ficamos íntimos,
E os pronomes tornam-se amigáveis,
Aproxima-se da natureza destinada, a de ser Humano
Graças ao seu infinito, existe ser humano.
Sem seu infinito,já éramos-
Clamor

BIU
14/10/1999

14.3.05

Gratidão

Na sombra

Muitas palavras já foram ditas,
Dentre as quais, há aquelas às arvores.
Eis mais algumas:
Sois a fonte de minha nutrição.
Suprais-me.
Algo de vós me deixa em suspensão.
Talvez a seiva.
Inundais-me de tal modo que às vezes explode uma explosão.
Afagais-me.
Viciais-me.
Acalmais-me.
Aquietais-me.
Chego até a me expor aos maltratos do vento, do frio,
Pois sei que a seiva é infinda.
Chego até a dispensar o Sol, a Primavera.
Pois sei que o calor é imediato.
Largo-me ao sabor dos ventos uivantes.
Chicoteio,
Vibro,
Oscilo, bestamente,
Pois sei que o pedúnculo é o mais intenso.
Abro o braço a tempestades.
Tomo cada pancada, mas me safais de cada.
Venceis a gravidade.
Sois imbatíveis.
Às vezes me enrolo e num espinho me transformo.
Às vezes me alargo e a vitória-régia do riacho está a cargo.
Permitis a metamorfose.
A redemoinhos faço pose.
Sonho na mais bela flor desabrochar,
Um inseto de pólen lambuzado hipnotizar.
Para num fruto evoluir.
Para ao chão direto ir.
Uma semente, esse glomérulo do amor, liberar,
No solo me infiltrar, brotar, crescer, crescer, crescer, viçosamente.
A ponto de uma certa altura ultrapassar.
E sob minha sombra para sempre vos resguardar,
Infinitamente, grato pela seiva que me faz viver,
Pelo Amor que de tão intenso,
Não conseguis conter.
Lucrécio Rodrigues Torres
13/02/2002

13.3.05

Anita

Odes Materna

Mãe, no seu ventre vivo o tempo!
Daí nasci e daí saí!
Retirei minhas primeiras energias. De você me nutri!
E, desde que saí, do seu peito vem meu sustento!
De onde eu tirava o leite puro,
Chega, a todo pulo, o amor seguro,
Onde me agarro enquanto a Terra gira!

Mãe, sou um fruto de você!!
Me orgulho de brotar de tal árvore!
Sou uma borboleta viciada em sua sombra!
Sou um pássaro, que, no seu ombro, fez o ninho!

Mãe, um Deus na Terra!
Aquela que do Olimpo fugira
Para sentir tamanha alegria:
A de povoar o mundo de vida!

Só mesmo um coração tão grande como o seu
Pode conter tanta felicidade!
Lembre-se: De você vem nossa vida;
Sem você não temos saída!

BIU


Como és bela, minha Mãe!!
Os movimentos, dotados de sem igual suavidade,
Fazem-te única, ao exalar o mais tenro amor.
A pureza desprende-se de tua maternidade
Como leite, a navegar todo sinal de dor.

Flutuas numa atmosfera de felicidade,
Processas tua contínua dor em feixes de sorrisos.
De certa moça e casal perdidos,
Emites selos que extirpam a opacidade.

Tua beleza é eterna, indivisível, imutável.
Pois é uma idéia. A idéia.
Acessível a todos, mas real só pra mim.

Não temas, minha mãe!!
E temas, minha mãe,
Pois teu temer faz de ti minha mãe!

BIU
7/10/2002

Modigliani

Una Modita sur l'Amour

Contrair o dorso
E recolher,
Erguer as espáduas
E absorver
O medo de fazer sofrer
Que acomete o real amador
Ao beijar torto o ente.

Dói-lhe demais qualquer injúria
E os dedos pintam, reféns da dor,
Harmonizam as fagulhas.

Recolher num reflexo
Que pode ferir
Por demais exaltado
E cerneoso
Receoso
Cerceoso
Ser-se os Ou
Na ânsia de ser e viver.

Viver como espelho do amor
Sem impressões
Nem as digitais
Intocavelmente viver
E fiar-se na fé
De ter o ser
Independente de ter
Para fazer do mi alegria
Do ti euforia
E do si o se da anarquia
Em busca da música da paz
Que não existe na alma que ama.
Culpa do jorro da dor
Que trata de esculpir as suavidades dessa alma
Como o tempo faz os riscos da palma

BIU
12/03/2005

10.3.05

Morte, Ciência Brasileira e Samba

Ciência e Arte
(Cartola e Carlos Cachaça)

Tu és meu Brasil em toda parte
Quer na ciência ou na arte
Portentoso e altaneiro
Os homens que escreveram tua história
Conquistaram tuas glórias
Epopéias triunfais
Quero neste pobre enredo
Reviver glorificando os homens teus
Levá-los ao panteon dos grandes imortais
Pois merecem muito mais
Não querendo levá-los ao cume da altura
Cientistas tu tens e tens cultura
E neste rude poema destes pobres vates
Há sábios como Pedro Américo e César Lattes

PS: Ontem, 09/03/2005, morreu em Campinas, Cesare M. G. Lattes, um dos icones da ciência nacional, figura entre figuras que procuram promover a tão sonhada hegemonia nacional, acreditam que através da educação pode-se alavancar uma nação, escavam pelo buraco do subdesenvolvimento em busca de alternativas sólidas, orgulham-se de seu país e sonham ver espontâneo um sorriso na face de todo brasileiro. Nesse sentido achei oportuno esse samba, sinônimo de alegria ainda que imerso em tristeza...

3.3.05

Pessoas no tempo

Uns Versos Quaisquer
Fernado Pessoa

Vive um momento com saudade dele
Já ao vivê-lo . . .
Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e não sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos . . .

Demo-nos pois a consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
E que nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja . . .

Assim idênticos à hora toda
Em seu pleno sabor,
Nossa vida será nossa anteboda:
Não nós, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,
E a morte não virá nem tarde ou cedo . . .

Porque o que importa é que já nada importe . . .
Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,
Ou, tênue e longe, cale
Seus gestos . . . Tudo é o mesmo . . . Eis o momento . . .
Sejamo-lo . . . Pra quê o pensamento? . . .
11.10.1914
Realidade
Álvaro de Campos

Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...
Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isto —
Nesta localidade da cidade ...

Há vinte anos!...
O que eu era então! Ora, era outro...
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...

Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
Sei eu o que é útil ou inútil?)...
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)
Tento reconstruir na minha imaginação
Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos...
Não me lembro, não me posso lembrar.

O outro que aqui passava, então,
Se existisse hoje, talvez se lembrasse...
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

Sim, o mistério do tempo.
Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...

Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,
Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais
lembradamente de azul.
Hoje, se calhar, está o quê?
Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado físisca e moralmente: não quero imaginar nada...

Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,
Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso...
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.

Olhamos indiferentemente um para o outro.
E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

Talvez isso realmente se desse...
Verdadeiramente se desse...
Sim, carnalmente se desse...

Sim, talvez...

1.3.05

Rito à Linguagem

Código Virtuoso

Levanta dos percalços do sono
Um reexame dos ditames do acaso
E o rico perdurar dos zigues-zagues
Recobram afago (im)pedindo que os largue

A transfiguração da idéia fosca
Em sentido lingüístico
Gera construção da branca mosca
Sobre o papel meta e artístico.

O corte seco do charuto
É preciso, direto e enxuto,
Contra o discurso da fumaça cubana,
Rebuscado, fractal em sua gana,
Repleto de balbucios e balbúrdias,
Enfeitado de aparentes nonsenses e rédias.

A análise da virtude da virtuose
Expõe um narcisismo fétido,
Um palanque imóvel pela trombose
Das veias de arte do moleque ávido.

Sombras dos signos iluminados pela história,
Os significados não ficam,
Ultrapassam o tempo e não se findam
Nem em si, nem na civilizatória memória

Vivemos sob o código das idéias
Maestro de minúsculos filetes de protoplasma no cérebro
Rumo à música do paraíso da compreensão,
À sinfonia da harmonia e do mundo em vão


Lucrécio Rodrigues Torres
01/03/2005

28.2.05

Sharks and Men

Se os tubarões fossem homens

Bertold Brecht

'Se os tubarões fossem homens', perguntou ao senhor K. a filha de sua senhoria, 'eles seriam mais amáveis com os peixinhos?'
"Certamente, disse ele. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e tomariam toda espécie de medidas sanitárias. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, lhe fariam imediatamente um curativo, para que não morresse antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres tem melhor sabor do que os tristes.
Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.
Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.
O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente.
Acima de tudo, os peixinhos deveriam voltar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um deles mostrasse tais tendências.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de argaço e receberia um título de herói.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardim que se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que seus acordes todos os peixinhos, como orquestra na frente, sonhando, embalados, nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões.
Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões.
Além disso se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles teriam com maior freqüência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas, etc.
Em suma, se os tubarões fossem homens, haveria uma civilização no mar."

25.2.05

Revoadas

T

O tato tatiado de T
Tateia as viculosidades de minha alma
Escorrega por meus vícios com calma
E acolchoa dores cristalizadas na carne.

São toques serenos e cheios de emoção
Embevecido em admiração, adimiro tal beleza,
Estarreço-me diante da beleza de tua pureza
Agarro-me a seus lábios e percorro o coração.

Quando um certo ar lhe invde,
Suas pálpebras caem repetidas vezes
E suas narinas abrem-se numa dinâmica virginal
Tornando musa de pensamentos.

Lustros do paraíso cegam o futuro
E resplandecem o momento vivente,
Todas (mesmo poucas) as vezes em que, videntes,
Os brilhos de seu corpo e alma tocam meu escuro.

Uma esperança feliz recobre os contornos
E faz da terra céu ao tansmitir
Eternidade a este ente do amor,
A esta mulher que um bom homem nunca esqueçe.

T, tateie os frisos do monumento;
O monumento chamado momento,
Apenas por nós reconhecido.
Somos nada sem este
Como o sou na ausência de pensamento,
Fraco na ausência do visco de seus olhos,
O riso aberto em sua face,
O toque angelical da sua pele,
E o beijo epifânico da linha de sua boca.

BIU
07/01/2005