19.7.05

Nada a declarar...

A Máquina do Mundo
Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se a majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter suado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuras em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo".

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animaise
chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relancee
me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas

presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Plágio internauta

A Terra parou!?
Ou a web caiu...

15.7.05

Porque o jogo começa 0x0 e não pode terminar negativo...

Te Amo

Te amo
Te amo de uma maneira inexplicável.
De uma forma inconfessável.
De um modo contraditório.
Te amo
com meus estados de ânimo
que são muitos, e mudam de humor continuamente.
Pelo que já sabe,
O Tempo.
A Vida.
A Morte.
Te amo
Com o mundo que não entendo.
Com as pessoas que não compreendo.
Com a ambivalência de minha alma.
Com a incoerência de meus atos,
Com a fatalidade do destino.
Com a conspiração do desejo.
Com a ambiguidade dos fatos.
Ainda quando te digo que não te amo, te amo.
Até quando te engano, não te engano.
No fundo, levo a cabo um plano,
para amar-te... melhor.
Pois, ainda que não creias,
minha pele sente falta enormemente da ausência de tua pele.
Te amo.
Sem refletir,
inconscientemente,
irresponsavelmente,
espontaneamente,
involuntariamente,
por instinto,
por impulso,
irracionalmente.
Com efeito nao tenho, argumentos lógicos,
nem sequer improvisados
para fundamentar este amor
que sinto por ti,
que surgiu misteriosamente do nada,
que não tem resolvido magicamente nada,
e que milagrosamente, de pouco, com pouco ou nada tem melhorado o pior de mim.
Te amo.
Te amo com um corpo que não pensa,
com um coração que não raciocina,
com uma cabeça que não coordena.
Te amo
incompreensivelmente.
Sem perguntar-me, porque te amo.
Sem importar-me porque te amo.
Sem questionar-me porque te amo.
Te amo
simplesmente porque te amo.
Eu mesmo não sei porque te amo

PABLO NERUDA

Um dia disseram...

Vc dialoga com o olhar.
E de repente, intercalando silêncio com sorriso, muito é dito.
E num outro instante, está imerso
E se entregar à vida, fechar os olhos
No momento certo buscar o mínimo significado da existência
Dentro do que pode ser denso o suficiente para consumir
Para embriagar de si mesmo.
E que feche os olhos pra tirar de cada instante
o que pode se tornar sublime ao coração.

8.7.05

Dias de hoje


Weary with toil, I haste me to my bed,
The dear repose for limbs with travel tired;
But then begins a journey in my head,
To work my mind, when body's work's expired:
For then my thoughts, from far where I abide,
Intend a zealous pilgrimage to thee,
And keep my drooping eyelids open wide,
Looking on darkness which the blind do see
Save that my soul's imaginary sight
Presents thy shadow to my sightless view,
Which, like a jewel hung in ghastly night,
Makes black night beauteous and her old face new.
Lo! thus, by day my limbs, by night my mind,
For thee and for myself no quiet find.

Shakespeare


Luto do Luto

Lutar o luto.
O nascimento do luto do luto
Luta contra o embrulhado em preto
Vindo do fraldário,
Insígnia do eterno luto.

Impedido de ser feliz por estar sempre
A encobertar o luto,
Designado a absorver e ser solidário ao luto
Encobri-lo

Ser luto e repará-lo sendo o morto que vive

O luto da honestidade,
Da sinceridade,
Da decência,
Da fraternidade,
Do companheirismo...

Assopra o luto

Supera a espera de ver o vento soprar
A nevoa do horizonte longínquo.
Espera e supera a esfera do chorar
Vociferado em vento inócuo.

O sopro rebenta o peito
E rasga a tristeza do momento
Em cacos para um vitral
Mais um frente as sutilezas do real.

Destino crucificado
Desde a raiz
Cruza a matiz
Lambuzada de inconformismo.

Fa(r)dados a lamentar
O infortúnio que enforca
A vida curiosa e palpitante
Imersa em significados.

É a vez do luto do luto.

Novos paradigmas e signos,
Pois ainda somos homens exímios
E na busca do significado absoluto
Fitemos e sejamos

O desejo do Puro Tocar no Tempo

BIU
06/07/2005



Cânticos

...
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


Cecilia Meireles


Eu

Foi eu , na primeira vista causa e espanto,
Juro, não ter culpa, na segunda, o susto se apazigua e vem,
as pessoas a cuspir porque assim é mais fácil,
conforme a cartilha específica das coisas...

Recuar e regredir em mãos dadas é o exímio amor
que sem o efetivo catarro do fato se torna vazio...
Evacuar a área como resíduos
deixar para trás história e vida
e o cometa infalível a se chocar com outros muros, outros horizontes.


Zé Ortega
07/07/2005

2.7.05

Saboreando o Momento

"O TEMPERO DA VIDA"

À BIBA

RESSUSCITAR
RE-SUSCITAR
PITADAS SUSCITAM A VIDA DAS CINZAS
DE CINZAS DA VIDA À VIDA DAS CINZAS...

O QUE HÁ DE VIDA NAS CINZAS
VEM DOS DEDOS FRICCIONADOS
E DO FAMILIAR CALOR QUE DAÍ PINGA
COMO O DO FOGO DIVINIZADO
POR LEVAR DA MORTE AO TEMPERO DA VIDA.

PITADAS DE VENTOS SOLARES DESPEJAM
A POEIRA CÔSMICA, CINZAS DE ESTRELA
FECUNDANDO A FÉRTIL TERRA,
ENQUANTO FÓTONS DO REI SOL BRADAM
À CULINÁRIA LOCAL
"DAS CINZAS À VIDA".

E NAQUELA LINGUADA INFANTIL,
OS SABORES DA VIDA VINCAM AS BOCHECHA
SEM CURVATURAS POR QUE ESCORREM
OS SEGREDOS DA VIDA REPLETA, SEM BRECHAS.

RISO E LÁGRIMAS SE CRUZAM E SEGUEM
TROCADOS NA INFLEXÃO FACIAL...

TEMPEROS

VIVER EM BEM-QUERER,
EM TEMPERAMENTO TEMPERADO
PELAS TROCAS SALPICADAS DE TOQUES
INVISÍVEIS COMO O SAL DOS QUITUTES,
O SONHO NO REAL MERGULHADO
E A POEIRA QUE JAZ NO VIVER.

CULINÁRIA É DE PÓ E MORTE.
EM MEDIDAS SUTIS É
DA VIDA A ARTE,
UM BEIJO NO OLHO:
NÃO MOSTRA MAS AQUECE O CORPO,
SUSCITA O PURO AMAR,
UM CAMINHO QUE ESCOLHO...

BIU
25/06/2005

Dica de Ana

Este livro...

Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo...e compreendê-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
Bíblia de tristes...Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de Mágoas...Dores...Ansiedades!
Livro de Sombras...Névoas e Saudades!
Vai pelo mundo...(trouxe-o no meu seio...)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de Mágoas cheio!...

Florbela Espanca

6.6.05

Inspetora Lispector

Eu sei mas não Devia

Clarice Lispector

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma
a acender cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã
sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduiche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e
ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso
de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
Agente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,
para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.

Quase um mês depois...

Jardim de mim

Como a docilidade escorrida do momento,
A presença arrasta o viscoso sentimento
De enternecimento,
De bem-estar perante o rebentar
Do viver em harmonia com o luar.
Sem querer pra onde, basta andar...

Andar, remar...
Notando o turbilhão de sensações
Que povoam o mais tenro tocar,
Sutilmente tocar a transparência
Do ar,
Da água
E do irretocável ser,
Apto a estourar as amargas amarras
Que enovelam o simples amar.

Viver e ver-se livre do ter de viver
Apenas.
Colhendo almofadados tufos de bem-querer,
Preocupado em acalentá-los,
Sutilmente exibi-los ao vento
E deixá-los
Acomodar em ramos de louro,
Acariciar o espírito do loureiro,
Como o mar faz ao vento,
Repleto daquelas dobraduras magistrais
Cuja concavidade, moldura do convexo,
Remete ao atemporal,
Esculpi o momento livrando-o de todo seixo.

E o bem-querer escorre o ramo,
Refresca-se no frescor de sua seiva
Percorrendo de delicadas folhas a beira,
Adocicando-se do que há de belo no humano.

Desprende um silêncio
Ávido
Impávido
Alça do ímpeto do desejo
De ser motivo de sorriso,
Sorrir pelo sorriso...

E no sôfrego titubear das gotas
Diante de um dentre muitos pedúnculos,
Da escolha do caminho seguro,
Soltar-se e pingar no solo das horas.
...

Eis que dali brota
Uma flor, toda.
Destinada a admirar o loureiro,
Embalá-lo em perfumes
E assim com muitas gotas...
Até que o inédito jardim
Seja o mais belo de mim,
Pleno de sentimentos, cores nunca vistas.

Calmo jardim!
Mesmo com possíveis vendavais
Pois sob o feitiço da sombra,
Irradiado por sua perene primavera,
Faz de momentos eternidades,
Vê a beleza apolínea no tudo e no nada, a paz.

BIU
27/05/2005

12.5.05

Ter a pia I

Estilingue

Cavidade ressonante de versos
Exibe uma trinca
E os dedos do que brinca,
Sôfregos, empurram em dor imersos

O esconder como ser
Repele a plenitude do momento
E a porosidade do inabalável escondido
Revela um bebê impedido de viver

Viciado em ser-lhes especial,
Centro da atenção impressionada,
Chega a desprezar os demais do palanque umbigal
E não reter o mundo pois até a sua em si está por demais centrada

Acuados em ser(,) seres acuados
Pela cobrança que encobre o viver,
Buscamos algo sempre a correr
Como uma fuga do mi ao si dos refugiados

Urge esmigalhar a casca
E aguçar tantos quanto sejam os sentidos
Livres do sangue viscoso dos momentos não-vividos
E dar-se ao singelo sorriso
De ver os estilhaços da máscara

BIU
10/05/2005

10.5.05

As arestas da Terra cheia

composicação
Enceguicido por esse teu corpo,
paisagem lunar em noite de Terra cheia,
vejo que o Mar da Tranquilidade me hipnotiza
com sua ausência de algas e sereias.
Mas quem quer atmosfera? Basta
a vertigem veloz soprando nos cabelos
que ornam as regiões mais aprazíveis
da imensidão resplandecente e sem arestas.

Rubens Rodrigues Torres Filho em "Poemas Novos (1994-1997)"

3.5.05

Vinicius "Amador" de Moraes, longe de amador...

A brusca poesia da mulher amada

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Rio de Janeiro, 1938


A brusca poesia da mulher amada (II)

A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens.Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada.
A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada
É a mulher amada.
Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!

Rio de Janeiro, 1950


A brusca poesia da mulher amada (III)

A Nelita

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!

Rio de Janeiro, 1963

26.4.05

Pela estreita fresta da poesia

Fresta
Fernando Pessoa

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,

E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

25.4.05

Uma longa canção

Life Is A Long Song
(Jethro Tull)

When you're falling awake
and you take stock of the new day,
And you hear your voice croak
as you choke on what you need to say,
Well, don't you fret, don't you fear,
I will give you good cheer.

Life's a long song.
Life's a long song.
Life's a long song.

If you wait then your plate I will fill.
As the verses unfold and your soul suffers the long day,
And the twelve o'clock gloom spins the room,
You struggle on your way.
Well, don't you sigh, don't you cry,
Lick the dust from your eye.

Life's a long song.
Life's a long song.
Life's a long song.

We will meet in the sweet light of dawn.

As the Baker Street train spills your pain all over your new dress,
And the symphony sounds underground put you under duress,
Well don't you squeal as the heel grinds you under the wheel.

Life's a long song.
Life's a long song.
Life's a long song.

But the tune ends too soon for us all.

20.4.05

Dica de Beto

SE

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.
Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,de sonhar -
sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.
Se és capaz de arriscar numa única partida,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.
Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida

19.4.05

Paraíso em foco

Domenico di Masi em “Criatividade” diz:

“A arte e a religião foram, portanto, as duas grandes criações consoladoras esboçadas durante milênios da Pré-história e aprimorada durante séculos da História. Mas, se a arte pode oferecer somente algumas alegrias compensadoras para as dores existenciais, a fé num mundo depois da morte, além de exorcizar a duração demasiadamente breve da vida terrena, pode até descortinar a esperança de uma felicidade eterna, simétrica às atribulações padecidas na vida e perfeitamente de acordo com as aspirações humanas”

“Não há sorte incerta, rara, fugaz sobre esta terra que não se torne segura, plena e perene nas descrições paradisíacas”

“As figurações do paraíso, portanto, e a inexaurível criatividade que as colocariam constituem outras fontes copiosas de informação sobre como o homem teria desejado viver sobre a terra e sobre o que ele entendia por felicidade. Naquilo que nos diz respeito de forma específica, elas nos oferecem testemunhos indiretos originais para reconstruir não só as formas de criatividade que o homem produziu, mas também a relação ambígua de ódio e amor que ele manteve seja com o trabalho, seja como o ócio”

8.4.05

Fenda na poesia

Abdução Anfíbia

Um rasgo no prosaico
Suspende o coaxar
Entre um e outro inseto
E engole um pulo másculo
Rumo ao incerto porém irresistível

O trato repentino da arte desconfortável
Transforma o corpo lânguido
Em sustentáculo do desejo
Vetor da física à doença do sentimento
Prostra-se o sapo
Refém da memória do belo
“Numa transversal do tempo”

O temido desconhecido
Por hora abafa o entusiasmo,
Amortece os estímulos
Até que o pensar novo
Revela-se benéfico
Num revelar-se construído sobre ruínas,
Coletado do sumo que escorre
Da condensação escultora do vapor do momento
Sobre a superfície gélida das trilhas do eu


Aperfeiçoadas esculturas
Afeiçoam o anfíbio
Saliente no sutil torcer de cabeça
Frente o infinito belo
Debaixo do rasgo transversal do tempo

Cuooooxe.............Cuuuoooooooooooooxxxxeee


BIU
07/04/2005

6.4.05

Shakespeare e Rilke

CXLI.
William Shakespeare

In faith, I do not love thee with mine eyes,
For they in thee a thousand errors note;
But 'tis my heart that loves what they despise,
Who in despite of view is pleased to dote;
Nor are mine ears with thy tongue's tune delighted,
Nor tender feeling, to base touches prone,
Nor taste, nor smell, desire to be invited
To any sensual feast with thee alone:
But my five wits nor my five senses can
Dissuade one foolish heart from serving thee,
Who leaves unsway'd the likeness of a man,
Thy proud hearts slave and vassal wretch to be:
Only my plague thus far I count my gain,
That she that makes me sin awards me pain.


Ich fürchte mich so vor der Menschen Wort
Rainer Maria Rilke

Ich fürchte mich so vor der Menschen Wort.
Sie sprechen alles so deutlich aus:
Und dieses heißt Hund und jenes heißt Haus,
und hier ist Beginn und das Ende ist dort.

Mich bangt auch ihr Sinn, ihr Spiel mit dem Spott,
sie wissen alles, was wird und war;
kein Berg ist ihnen mehr wunderbar;
ihr Garten und Gut grenzt grade an Gott.
Ich will immer warnen und wehren: Bleibt fern.
Die Dinge singen hör ich so gern.
Ihr rührt sie an: sie sind starr und stumm.
Ihr bringt mir alle die Dinge um


Tradução de Carlos Bechtinger
Eu me assusto tanto diante da palavra dos homens

Eu temo tanto a palavra dos homens
Eles explicam tudo tão claramente
E isso se chama cachorro e aquilo se chama casa,
E aqui é o começo e o fim é lá.

Me assusta também a reflexão de vocês,
o jogo de vocês com escárnio
Vocês sabem de tudo, o que foi e o que virá.
Nenhuma montanha é mais maravilhosa para vocês
Os seus jardins e o bem de vocês se limitam em Deus
Eu quero sempre avisar e combater: Fique longe disso!
Eu escuto com tanto prazer as coisas cantadas
Vocês não a tocam. Elas são mudas e teimosas.
Vocês todos para mim matam as coisas.

5.4.05

Poetizas em amostra

Meu Deus, me dê a coragem
Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braçoso meu pecado de pensar.


Todas as vidas
Cora Coralina

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, Global Editora, 1983 - S.Paulo, Brasil


O amor no éter
Adélia Prado

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados
na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Poesia reunida, Editora Siciliano, 1991 - S.Paulo, Brasil

PS: um site que reune uma boa amostra de poetizas brasileiras e traduzidas é "Mulheres que amo" :http://utopia.com.br/poesia/

31.3.05

Palavras Amigas

“Mensagem aos Viajantes”

De tudo que me foi dito
Uma mulher, acredito
Preencheria o vazio
De toda alma em estio

Sigo trilhas; conquisto montanhas
Cume, falésias, dunas, cavernas
Acidentes do terreno e da alma
Busca insólita pela taverna

Sobre o mundo repousa o espírito
Este ente, caráter holístico
Ante tudo, sobre nada habita
Desorientando aquele que fica

E assim, a entreter o ciclo
Vislumbra o viajante a mãe Terra
Segue o rumo, indefinido
Perante a qual tudo se encerra
José Roberto Mialichi
31/03/2005