3 - Poesia e romance
Folha - O que você diria que alguém de 17, 18 anos deveria estar lendo agora para ter uma noção do seu próprio tempo?
Paglia - Poesia. O pós-estruturalismo privilegiou o romance. É no romance que as técnicas da desconstrução funcionam melhor. Com a poesia, não. E, para mim, o poema -o curto, em especial- faz muito mais parte da nossa época. O poema curto equivale a uma canção, que se escuta inteira no rádio, ou a uma pintura, que se pode ver isolada. Já um romance pode exigir duas ou três semanas de leitura, com um esforço especial de atenção para a linearidade das idéias. E esse tempo e essa atenção são cada vez menos disponíveis, mesmo para os jovens.Eu adoro os romances do século 19, mas não tenho entusiasmo pelo romance anglo-americano contemporâneo. Os últimos romances que li a sério foram [três grandes obras do modernismo europeu] "Rumo ao Farol", de Virginia Woolf, "A Montanha Mágica", de Thomas Mann, e "Ulisses", de James Joyce, romances em que se percebe uma espécie de fusão entre poesia e prosa. Já o romance anglo-americano atual... O que é essa ficção, comparada à vitalidade que se vê por todos os lados, no cinema, na TV, até na internet ou em videogames?
Camille Paglia
em entrevista à Folha - caderno Mais de 10 de abril de 2005
tecnoplágio
A Terra parou?!?
Ou a web caiu...
07-08-2005
24.1.06
23.1.06
Cidade Vísivel
Farinha ao Menos
Sentado numa cadeira metálica do bar da Lila, de esquina, sem consumir nada, de favor, em frente à praça, Ioiô relata os episódios do dia, enquanto cobiça os bancos da praça central:
Depois de 20 km serpenteando pelos mares mineiro-capixaba-cariocas, Iaiá e Ioiô andaram mais 3 km por estrada de asfalto até Farinha ao Menos, durante os quais placas devidamente espaçadas retomavam um a um, os dez mandamentos. Por descuido de conversa, Ioiô perdera o da cobiça. . .
Chegaram.
Foram conhecer a cidade e suas janelas de olhar vagaroso, a praça central (central mesmo), com posto com uma bomba ancestral, o armazém de produtos animais, a chuva torrencial, o coreto necessário, as sedes de igrejas, o armazém local, que fornece o município há “muito tempo, ahhh! Muito tempo mesmo”, as eiras e beiras das casas, a catedral. Mas pararam de andar. O caminho tinha-lhes sido interrompido: nunca viram tanto entulho acumulado.
A cidade está com um sério problema: o tempo passa muito devagar para conseguirem dar conta de recolher tanta conversa que é jogada fora.
Nem o gari, de laranja fosforescente, consegue dar conta de tanto chamado. Os farinha-ao-menses telefonam e o homem sai correndo, de bicicleta, em busca de bitucas nos meio-fios (que vão, devagar, mas vão). O primeiro disk-gari do país.
De queixos segurados (e seguros, também), os homens conversam devagar, de janela a janela, se o tempo vai “firmá” ou se vai “chovê”. É quando decidem deixar e ver o tempo passar jogando conversa fora.
Iaiá e ioiô ficaram de queixos caídos. Como os cidadãos lidarão com tamanha quantidade. Talvez por isso o tempo ia devagar: tem que decompor, no seu caminho, tanta conversa fiada (bem fiada mesmo. . .) da gente que troca um dedinho de prosa enquanto segura o queixo embasbacado com o tempo demorado.
Dedinho em dedinho, as pessoas não sabiam quais eram seus mais. Trocavam tanto que perdiam os seus próprios e confundiam com os de outros. Mas nada de mais. Nem de menos. As pessoas parecem não saber nem quem são. É tanto troca-troca sobre a vida não sua que não sabem mais reconhecer a própria sua. Soam através das bocas de bocas de outras pessoas e acabam anulando a identidade que nunca foram.
Ioiô, às 22, foi-se embora pois lhe chegou um medo de não conseguir voltar sozinho, sem ajuda, ao local de acomodação.
Sentado numa cadeira metálica do bar da Lila, de esquina, sem consumir nada, de favor, em frente à praça, Ioiô relata os episódios do dia, enquanto cobiça os bancos da praça central:
Depois de 20 km serpenteando pelos mares mineiro-capixaba-cariocas, Iaiá e Ioiô andaram mais 3 km por estrada de asfalto até Farinha ao Menos, durante os quais placas devidamente espaçadas retomavam um a um, os dez mandamentos. Por descuido de conversa, Ioiô perdera o da cobiça. . .
Chegaram.
Foram conhecer a cidade e suas janelas de olhar vagaroso, a praça central (central mesmo), com posto com uma bomba ancestral, o armazém de produtos animais, a chuva torrencial, o coreto necessário, as sedes de igrejas, o armazém local, que fornece o município há “muito tempo, ahhh! Muito tempo mesmo”, as eiras e beiras das casas, a catedral. Mas pararam de andar. O caminho tinha-lhes sido interrompido: nunca viram tanto entulho acumulado.
A cidade está com um sério problema: o tempo passa muito devagar para conseguirem dar conta de recolher tanta conversa que é jogada fora.
Nem o gari, de laranja fosforescente, consegue dar conta de tanto chamado. Os farinha-ao-menses telefonam e o homem sai correndo, de bicicleta, em busca de bitucas nos meio-fios (que vão, devagar, mas vão). O primeiro disk-gari do país.
De queixos segurados (e seguros, também), os homens conversam devagar, de janela a janela, se o tempo vai “firmá” ou se vai “chovê”. É quando decidem deixar e ver o tempo passar jogando conversa fora.
Iaiá e ioiô ficaram de queixos caídos. Como os cidadãos lidarão com tamanha quantidade. Talvez por isso o tempo ia devagar: tem que decompor, no seu caminho, tanta conversa fiada (bem fiada mesmo. . .) da gente que troca um dedinho de prosa enquanto segura o queixo embasbacado com o tempo demorado.
Dedinho em dedinho, as pessoas não sabiam quais eram seus mais. Trocavam tanto que perdiam os seus próprios e confundiam com os de outros. Mas nada de mais. Nem de menos. As pessoas parecem não saber nem quem são. É tanto troca-troca sobre a vida não sua que não sabem mais reconhecer a própria sua. Soam através das bocas de bocas de outras pessoas e acabam anulando a identidade que nunca foram.
Ioiô, às 22, foi-se embora pois lhe chegou um medo de não conseguir voltar sozinho, sem ajuda, ao local de acomodação.
O tempo passou, embora se vê que não passa.
Êta vida boa meu deus!!! Talvez um pôco besta vai. . .
BIU
09-01-2006
09-01-2006
Cidade pequena
Na praça de Farinha ao Menos,
Destroços de lemos e remos
Arpejam a jangada chegada
Toda esburacada de pedra dourada
A cidade faria, lemos
No parquinho da central ,
Destroçado,
Bons cidadãos se, ao menos,
Pendurasse cadeiras na corrente do balanço
(Cujos elos remanescentes oscilam em fase,
Assim como os cidadãos, em fase...
De jogar conversa fora
De segurar, sem questionar,
O queixo caído
De tanta emoção),
Prendesse tábuas de assento
No sobe-desce da gangorra
(Que nem sobe nem desce:
Permanece...
Inclinada como uma ponta enferrujada
Ao ar
E outra enterrada no liso da areia,
Aplainada pela chuva,
Sem ser brincada,
Enfiada na areia, inerte ao tempo,
Que, aliás, teima em não passar
No lugarejo enterrado na serra,
Num Sossego tremendo,
Sem pressa de mudar),
Colocasse o disco no eixo do gira-gira
E girasse, apenas girasse...
(Como o que sabe não poder decolar,
Mas interessa-se em conhecer
As redondezas do lugar de brincar
E brincar
No mundo tão pequeno
Panorâmico
Sujando-se da beleza do local
Girando
Humilde, mas consciente
De fazer parte de um projeto maior
E deixar a conformidade ignorante)
E acertasse o movimento basculante
Do brinquedo sem nome
(Assim como esta gente praça,
morando na paz de graça.
Gente evoluída que só:
Conversa e deixa o tempo passá,
Sem muita questão pra colocá,
Além de questioná se o tempo vai virá,
E se não tem mais o que fazê pra mó
De fazê a gente daqui dorá mais um tiquinho).
BIU
10-01-2006
18.1.06
Docentes, Mestres, Cágados, Cupins e Protozoa
Exame de qualificação
05-01-2006
…enquanto isso, três cupins operários, membros do filo Arthropoda, da Classe Insecta e da Ordem Isoptera, sob o tampo da mesa, de ponta cabeça , disputam qual leva o fiapão de cortiça de volta ao cupinzeiro que fica além da janela do auditório do instituto, sob o sol dos trópicos.
Sem questionar se o ganho eletromagnético dos pontos quânticos das camadas moleculares das cabeças de fibras de miosina dos feixes musculares de seus aparelhos roedores, nem se a solução da aplicação da teoria quântica de perturbação de segunda ordem à equação de Schrödinger dependente do tempo gera uma matriz de transição do bulk quântico em movimento browniano do grupo carboxila das proteínas do ritidoma lenhoso das dicotiledôneas, os insetos disputam quem receberá as cobiçadas congratulações da rainha cupim.
Disputam a consagração de seu heroísmo.
Heróis sim. Não ousem pensar que é fácil esquadrinhar todas as encadeadas janelas do auditório em busca de uma estreita passagem para os tesouros dos tecos de cortiça da madeira de lei do tampo da mesa, nem combinar os movimentos das patas articuladas por um caminho esconderijo, cruzando cabos de microfones, Internet, fios de eletricidade, sem provocar ruídos acima de 20dB, nem provocar impressões de movimento nas retinas humanas.
Sem tomar conta da pressão exercida pelo orientador sobre o mestrando para que acelere, sendo exímio explanador, sua apresentação do exame de qualificação sobre seu trabalho realizado a respeito dos ganhos em laser de diodos semicondutores em função da injeção de portadores, um grupo de protozoários tripanossoma, membros do Reino Protista, do filo Euglenozoa, da classe Zooflagelatea e, com orgulho, da espécie Trypanossoma cruzi, investigam os tecidos das entranhas de um dos cupins para descobrir se de fato atingiram o hospedeiro intermediário adequado.
Nem cogitem pensar que é tranqüilo confinar os movimentos vibratórios do ar do exoesqueleto de queratina do inseto (barbeiro, supostamente) de modo a amplificar os efeitos Doppler em três dimensões a fim de localizar se hospedeiro favorito, nem investigar camadas e camadas celulares através do acoplamento do flagelo ao retículo endoplasmático das células hospedeiras e descobrir, para surpresa frustrante, que não se trata de um ambiente favorável ao acasalamento e proliferação e que também não conseguirão atingir o paraíso dos macrófagos e miócitos de humanos, seu hospedeiro definitivo...
São também, sim, senhores, heróis. Frustrados, mas heróis.
Afinal, quem é mais frustrado: o orientador da tese, o aluno de mestrado, os dois cupins perdedores, ou a família dos Cruzi? Ou ainda o cágado, membro da Ordem Testunidata e família Chelidae, que anda vagarosamente pela sala fechada roçando seu casco duro nas paredes brancas duras?
Teoriza-se que os protozoários são menos frustrados. Seus questionamentos, retirado todo o peso emocional da descrição toda, são de ordem existencial mais prática. Têm menos interrogações na mente. E as presentes, são mais objetivas. De modo que são menos, probabilisticamente, passíveis de passarem por frustrações irreparáveis e crises existenciais. Assim, mais dificilmente entristecidos, mais felizes, aptos a sobreviver e deixar descendentes do que os cupins, o cágado, o aluno, e lógico, o orientador. Perdendo evolutivamente apenas para as gramíneas de fora, supondo-se haver, pois o filme preto sobre os vidros dificulta a averiguação.
Traça-se aqui um exemplo da Teoria Evolutiva da Aceitação, em que seres são mais evoluídos quanto menos são os questionamentos contra os quais se debatem, desfrutando de uma existência mais serena, numa esfera mais pacífica.
De onde se conclui que somos da espécie mais primitiva, sendo o orientador, sem dúvidas (e com todas as dúvidas, suas) um dos mais primitivos de nossa era...
BIU05-01-2006
Aprendendo
A tonga da mironga do kabuletê
Vinicius de Moraes / Toquinho
Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê
Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê
Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa Houaiss
Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa Houaiss
Tonga
Acepções■ substantivo de dois gêneros Rubrica: etnologia. 1 indivíduo dos tongas v substantivo masculino Rubrica: lingüística. 2 língua banta falada em Moçambique e no Zimbábue ■ adjetivo de dois gêneros 3 relativo a tonga (acp. 1 e 2) ou próprio do povo desse nome ■ substantivo masculino Regionalismo: Angola. 4 campo para capinar, para desbravar 5 Regionalismo: São Tomé e Príncipe. filho de pais estrangeiros nascido na República Democrática de São Tomé e Príncipe tongas ■ substantivo masculino plural Rubrica: etnologia. 6 grupo étnico que habita a parte sul do rio Save, grande parte de Manica e parte da província de Tete, em Moçambique Etimologiaquicg. tonga ou thonga 'corpulência'
Mironga
Acepções■ substantivo feminino 1 mistério, segredo Ex.: as m. de umbanda 2 altercação, briga Etimologia segundo Nei Lopes, quimb. milonga, pl. de mulonga 'queixa, injúria'
Sinônimos ver sinonímia de feitiço
Cabuleté
Acepções■ substantivo masculino Regionalismo: Brasil. Uso: informal. indivíduo desprezível; bisbórria Etimologia orig.duv., talvez do quimb. mubulute 'vagabundo'
3.1.06
Tua criação e sua invenção
Iniciação
E nem mais existirá a esperança do trágico...
E no vazio,
em vão apelareis para as grandes catástrofes,
para a vaidade do ranger de dentes,
para o pavoroso das formas não de todo feitas,
sob o terrível das forças verticais...
Sumirão as espadas suspensas de fios,
sumirá a mão que escreve nas paredes
do festim velho,
e a esfinge dormirá nas areias eternas...
Somente o segredo, acordado, no caminho claro,
na encruzilhada de todos os caminhos,
andando na tua frente, desvendado,
mais difícil de crer do que de decifrar...
Teu pensamento, tua fé e teu desejo,
criando, à tua escolha, o teu destino...
E se fores forte,
olha bem para cima,
para ver como é sorrindo
que morre o teu Pai...
João Guimarães Rosa - poema "Iniciação" do livro "Magma" (pág. 71)
Um bicho que se inventa
Ferreira Gullar
Folha de São Paulo - 01-01-2006 - Ilustrada
Toda pessoa necessita que as demais pessoas a reconheçam tal como ela acredita que é, tal como se inventa para si mesma. Isto significa que, porque somos uma invenção de nós mesmos, o reconhecimento do outro é indispensável a que esta invenção se torne verdadeira. Por isso, se é certo, como disse Jean-Paul Sartre, que "o inferno são os outros", é certo também que está neles o sentido de nossa existência.
Um recém-nascido não é ainda um cidadão, quase diria que, a rigor, ainda não é gente: trata-se de um bichinho que traz consigo, potencialmente, todas as qualidades que o tornarão de fato uma pessoa. Sim, porque uma pessoa, mais que um ser natural, é um ser cultural.
Certamente, não pretendo dizer que a pessoa não seja o seu corpo material, esse organismo que pulsa, respira e pensa; tanto é que, sem ele, simplesmente ela não existiria, e é nele que repousam todas as qualidades que permitirão o surgimento da pessoa humana que cada recém-nascido se tornará.
Mas não há nenhum fatalismo nisso. Se é verdade que o recém-nascido já possui qualidades e traços próprios que o tornam diferente de todos os outros, não significa que se tornará inevitavelmente o indivíduo X. Não, o que ele se tornará -e é imprevisível- dependerá em boa parte de como assimilará os valores que a educação lhe ofereça. No princípio, o que ele aprende são as normas básicas de sobrevivência e convívio. Só mais tarde conhecerá os valores que absorverá de acordo com suas idiossincrasias, face aos quais reagirá de maneira própria e, assim, irá, passo a passo, se formando e se inventando como ser humano.
A sociedade humana foi inventada por nossos antepassados. Quem nasce hoje já a encontra inventada, material e espiritualmente, com seus equipamentos, valores e princípios que a constituem e definem. É dentro desta realidade cultural, complexa e contraditória, que ele vai se inventar como indivíduo único e inconfundível.
Porque cada um de nós quer ser assim: único e inconfundível.
Viver é, portanto, inventar-se: inventar sua vida, sua função no mundo, sua presença. Obviamente, nem todos têm a mesma capacidade de inventar-se e reinventar o mundo. Alguns levam essa capacidade a ponto de mudar de maneira radical o universo cultural que encontraram ao nele integrar-se, como o fizeram por exemplo Isaac Newton ou Albert Einstein, Sócrates ou Karl Marx, William Shakespeare ou Wolfgang Goethe, Leonardo da Vinci ou Pablo Picasso...
Mas a humanidade não é constituída apenas de gênios, que, na verdade, são exceções. Não obstante, todas as pessoas, em maior ou menor grau, se inventam e contribuem para que o mundo humano se mantenha e se renove. Aliás, se os gênios contribuem para a reinvenção do universo cultural -que é o nosso espaço de vida-, a vasta maioria das pessoas é responsável pela preservação do que já foi inventado. Por isso mesmo, a maioria é conservadora e freqüentemente resiste às mudanças e inovações. É que essa maioria não tem noção de que vive num mundo inventado, de que a vida é inventada e de que os valores, que lhe parecem permanentes, também o são. Eles não foram ditados por nenhum ente divino, mas inventados pelos homens conformes suas necessidades e possibilidades. E também, conforme elas, podem ser mudados.
O homem é o único animal que se inventa e inventa o mundo em que vive. A colméia, que a abelha fabrica hoje, tem os casulos da mesma forma hexagonal que tinha desde que surgiram no planeta as primeiras abelhas. Já o habitat humano vem mudando desde sempre, da caverna natural ao casebre, que se transformou em aldeia, povoado, cidade até chegar à megalópole de hoje. O homem, para o bem ou para o mal, mudou a face do planeta, utilizou os recursos naturais para produzir seu mundo tecnológico e dinâmico. Mudou a natureza, alterou o seu funcionamento biológico, meteorológico, sísmico. Seu habitat é primordialmente a cidade, esta complexíssima máquina que só funciona graças à tecnologia que inventamos e desenvolvemos incessantemente.
Quando digo que o homem se inventa, não sugiro que se trata de mera fantasia sem base na realidade . Newton inventou o cálculo infinitesimal, linguagem das ciências exatas, que não existia. A ciência inventou as leis da física, que sempre atuaram na natureza, mas que eram como se não existissem no entendimento humano. As invenções da arte são de outro tipo: Shakespeare inventou a complexidade da alma humana que, se não fosse ele, estaria como se não existisse. Ou seja, a partir da natureza ou de sua imaginação, o homem se inventa e constrói um universo cultural que é seu verdadeiro espaço de existência.
O homem criou também, além do mundo material, além da ciência e da técnica, o mundo simbólico da filosofia, da música, da poesia, do teatro, do cinema. Inventou os valores éticos e estéticos. Inventou a Justiça, embora sendo injusto. E por que, então, a inventou? Porque quer ser melhor do que é, quer -como disse o poeta Höderlin- "ultrapassar o campo do possível". Inventou até Deus, que é a resposta à fatalidade da morte e às perguntas sem resposta. O homem inventou Deus para que este o criasse. Filho dileto de Deus, pode assim aspirar à ressurreição.
E nem mais existirá a esperança do trágico...
E no vazio,
em vão apelareis para as grandes catástrofes,
para a vaidade do ranger de dentes,
para o pavoroso das formas não de todo feitas,
sob o terrível das forças verticais...
Sumirão as espadas suspensas de fios,
sumirá a mão que escreve nas paredes
do festim velho,
e a esfinge dormirá nas areias eternas...
Somente o segredo, acordado, no caminho claro,
na encruzilhada de todos os caminhos,
andando na tua frente, desvendado,
mais difícil de crer do que de decifrar...
Teu pensamento, tua fé e teu desejo,
criando, à tua escolha, o teu destino...
E se fores forte,
olha bem para cima,
para ver como é sorrindo
que morre o teu Pai...
João Guimarães Rosa - poema "Iniciação" do livro "Magma" (pág. 71)
Um bicho que se inventa
Ferreira Gullar
Folha de São Paulo - 01-01-2006 - Ilustrada
Toda pessoa necessita que as demais pessoas a reconheçam tal como ela acredita que é, tal como se inventa para si mesma. Isto significa que, porque somos uma invenção de nós mesmos, o reconhecimento do outro é indispensável a que esta invenção se torne verdadeira. Por isso, se é certo, como disse Jean-Paul Sartre, que "o inferno são os outros", é certo também que está neles o sentido de nossa existência.
Um recém-nascido não é ainda um cidadão, quase diria que, a rigor, ainda não é gente: trata-se de um bichinho que traz consigo, potencialmente, todas as qualidades que o tornarão de fato uma pessoa. Sim, porque uma pessoa, mais que um ser natural, é um ser cultural.
Certamente, não pretendo dizer que a pessoa não seja o seu corpo material, esse organismo que pulsa, respira e pensa; tanto é que, sem ele, simplesmente ela não existiria, e é nele que repousam todas as qualidades que permitirão o surgimento da pessoa humana que cada recém-nascido se tornará.
Mas não há nenhum fatalismo nisso. Se é verdade que o recém-nascido já possui qualidades e traços próprios que o tornam diferente de todos os outros, não significa que se tornará inevitavelmente o indivíduo X. Não, o que ele se tornará -e é imprevisível- dependerá em boa parte de como assimilará os valores que a educação lhe ofereça. No princípio, o que ele aprende são as normas básicas de sobrevivência e convívio. Só mais tarde conhecerá os valores que absorverá de acordo com suas idiossincrasias, face aos quais reagirá de maneira própria e, assim, irá, passo a passo, se formando e se inventando como ser humano.
A sociedade humana foi inventada por nossos antepassados. Quem nasce hoje já a encontra inventada, material e espiritualmente, com seus equipamentos, valores e princípios que a constituem e definem. É dentro desta realidade cultural, complexa e contraditória, que ele vai se inventar como indivíduo único e inconfundível.
Porque cada um de nós quer ser assim: único e inconfundível.
Viver é, portanto, inventar-se: inventar sua vida, sua função no mundo, sua presença. Obviamente, nem todos têm a mesma capacidade de inventar-se e reinventar o mundo. Alguns levam essa capacidade a ponto de mudar de maneira radical o universo cultural que encontraram ao nele integrar-se, como o fizeram por exemplo Isaac Newton ou Albert Einstein, Sócrates ou Karl Marx, William Shakespeare ou Wolfgang Goethe, Leonardo da Vinci ou Pablo Picasso...
Mas a humanidade não é constituída apenas de gênios, que, na verdade, são exceções. Não obstante, todas as pessoas, em maior ou menor grau, se inventam e contribuem para que o mundo humano se mantenha e se renove. Aliás, se os gênios contribuem para a reinvenção do universo cultural -que é o nosso espaço de vida-, a vasta maioria das pessoas é responsável pela preservação do que já foi inventado. Por isso mesmo, a maioria é conservadora e freqüentemente resiste às mudanças e inovações. É que essa maioria não tem noção de que vive num mundo inventado, de que a vida é inventada e de que os valores, que lhe parecem permanentes, também o são. Eles não foram ditados por nenhum ente divino, mas inventados pelos homens conformes suas necessidades e possibilidades. E também, conforme elas, podem ser mudados.
O homem é o único animal que se inventa e inventa o mundo em que vive. A colméia, que a abelha fabrica hoje, tem os casulos da mesma forma hexagonal que tinha desde que surgiram no planeta as primeiras abelhas. Já o habitat humano vem mudando desde sempre, da caverna natural ao casebre, que se transformou em aldeia, povoado, cidade até chegar à megalópole de hoje. O homem, para o bem ou para o mal, mudou a face do planeta, utilizou os recursos naturais para produzir seu mundo tecnológico e dinâmico. Mudou a natureza, alterou o seu funcionamento biológico, meteorológico, sísmico. Seu habitat é primordialmente a cidade, esta complexíssima máquina que só funciona graças à tecnologia que inventamos e desenvolvemos incessantemente.
Quando digo que o homem se inventa, não sugiro que se trata de mera fantasia sem base na realidade . Newton inventou o cálculo infinitesimal, linguagem das ciências exatas, que não existia. A ciência inventou as leis da física, que sempre atuaram na natureza, mas que eram como se não existissem no entendimento humano. As invenções da arte são de outro tipo: Shakespeare inventou a complexidade da alma humana que, se não fosse ele, estaria como se não existisse. Ou seja, a partir da natureza ou de sua imaginação, o homem se inventa e constrói um universo cultural que é seu verdadeiro espaço de existência.
O homem criou também, além do mundo material, além da ciência e da técnica, o mundo simbólico da filosofia, da música, da poesia, do teatro, do cinema. Inventou os valores éticos e estéticos. Inventou a Justiça, embora sendo injusto. E por que, então, a inventou? Porque quer ser melhor do que é, quer -como disse o poeta Höderlin- "ultrapassar o campo do possível". Inventou até Deus, que é a resposta à fatalidade da morte e às perguntas sem resposta. O homem inventou Deus para que este o criasse. Filho dileto de Deus, pode assim aspirar à ressurreição.
2.1.06
Fim de ano
2005
Casulo ano
Metamorfose ano
Ano
Repleto de ângulos,
Vieses novos
Ainda vaporizados
Vórtice ano
Realidade
Pelo estreito viés de poesia
Viesia
Difratada
Mortes plácidas e horrendas
Massacres
Amores
Vapores
Linda vó
Tia doce, bem doce
Odores
Motores
Cintilante desespero de cheiros
Morenos
Pavores
Pânico
Amores cipós no inferno da mente
Até um verdadeiro, penso
Imenso
Colhê-lo
Amá-lo
No embalo de ondas incessantes
De questão
Corrupto ano
Falcatruas
Cuecas peruas nuas
Santo ano
De papa novo!
Reciclando
“Preguiça de viver” ano
Assassino ano
Do herói que devia ser
Parto ano
Do humano que pode ser
Doloroso ano
Desafiando a solidão
Professor ano
Da grandeza do que é sobre o que poderia ser
Do que está para o que não é
Nem nunca será
Vitória do que é
Vitorioso ano
Suicida ano
Palestina ano
Londres
Bombas sondas
No inferno humano
Mapa ano
Dos tesouros nossos
Poucos
Humanos
Amor, prazer, dor
Frágil ano
Sou humano
Humano
Nunca mais ano
Sempre ano
Temperado ano
Diabo ano
De sorrisos desesperados
E débeis soluços
Mas verdadeiros
Amor ano
Ando
Erguendo a fronte
Ao desamparo humano
Tsunami ano
Katrina ano
Wilma ano
Peregrino ano
Mais um...
Ao equilíbrio engano
Magma ano
Viagem à Catarina
Paraitinga
A Bueno Brandão
À riqueza da capital
Ao limbo
Ao coração
A Bersabéia
Ao futuro em vão
Meses gordos
Mensalão ano
Tricolor ano
Tricampeão
Calvino ano
Ronaldinhos ano
Vó em descanso
Passar um pano
Buxando
Bush ano
Amor ano
Balanço
Gangorra
Decotado ano
Kamikaze ano
Tera ano
Miudezas
Paixão ano
Sutilezas
Películas de real
Pelicano
Insano
Socorro ano
Mundo ano
Mundano
Gincana de sentimentos
Inventário do mudo mundano
Irremediável
Riscado
Frisante ano
Frisos
Vieses novos de poesia
Bolhas nuas
Fecha ano 5
Abre o 6
Achado
Protegido
A um sereno ano
Recheado de vôos
Oceano
BIU
31-12-2005
Arruaça
Para a foto das páginas 60 e 61 do número 7, ano II, da resta “Porto Seguro Brasil”
Brilham pontos na escuridão
Espiralando
Bocados mais juntos
Rodando
Sopros mais antigos
Brincando
No sem-fim da imensidão
Disputam mais negros olhos
Branqueando
Dobraduras na tez da noite
Serpenteando
Vias-lácteas no açoite
Bagunçando
Quem arde mais a retina dos povos
Ondulam ao perfeito acaso
Arranhões
De negrura pelos vales
Molecando
De montanhas sob neves
Balburdiando
Ao trazer impressões do universo
Jorram bem ali no meio
Cuspidas
Nervuras de arruaça
Trepadas
Rindo a qualquer ameaça
Gargalhadas
Como quem brinca sem arreio
Então que no olhar da fronte
Matutado
Destoa textura aos véus dada
Inocentada:
Só a pele do moleque de Rosa
Nadando
Na vereda de São Romão, esbalda o Rio da Ponte
BIU
29-12-2005
Casulo ano
Metamorfose ano
Ano
Repleto de ângulos,
Vieses novos
Ainda vaporizados
Vórtice ano
Realidade
Pelo estreito viés de poesia
Viesia
Difratada
Mortes plácidas e horrendas
Massacres
Amores
Vapores
Linda vó
Tia doce, bem doce
Odores
Motores
Cintilante desespero de cheiros
Morenos
Pavores
Pânico
Amores cipós no inferno da mente
Até um verdadeiro, penso
Imenso
Colhê-lo
Amá-lo
No embalo de ondas incessantes
De questão
Corrupto ano
Falcatruas
Cuecas peruas nuas
Santo ano
De papa novo!
Reciclando
“Preguiça de viver” ano
Assassino ano
Do herói que devia ser
Parto ano
Do humano que pode ser
Doloroso ano
Desafiando a solidão
Professor ano
Da grandeza do que é sobre o que poderia ser
Do que está para o que não é
Nem nunca será
Vitória do que é
Vitorioso ano
Suicida ano
Palestina ano
Londres
Bombas sondas
No inferno humano
Mapa ano
Dos tesouros nossos
Poucos
Humanos
Amor, prazer, dor
Frágil ano
Sou humano
Humano
Nunca mais ano
Sempre ano
Temperado ano
Diabo ano
De sorrisos desesperados
E débeis soluços
Mas verdadeiros
Amor ano
Ando
Erguendo a fronte
Ao desamparo humano
Tsunami ano
Katrina ano
Wilma ano
Peregrino ano
Mais um...
Ao equilíbrio engano
Magma ano
Viagem à Catarina
Paraitinga
A Bueno Brandão
À riqueza da capital
Ao limbo
Ao coração
A Bersabéia
Ao futuro em vão
Meses gordos
Mensalão ano
Tricolor ano
Tricampeão
Calvino ano
Ronaldinhos ano
Vó em descanso
Passar um pano
Buxando
Bush ano
Amor ano
Balanço
Gangorra
Decotado ano
Kamikaze ano
Tera ano
Miudezas
Paixão ano
Sutilezas
Películas de real
Pelicano
Insano
Socorro ano
Mundo ano
Mundano
Gincana de sentimentos
Inventário do mudo mundano
Irremediável
Riscado
Frisante ano
Frisos
Vieses novos de poesia
Bolhas nuas
Fecha ano 5
Abre o 6
Achado
Protegido
A um sereno ano
Recheado de vôos
Oceano
BIU
31-12-2005
Arruaça
Para a foto das páginas 60 e 61 do número 7, ano II, da resta “Porto Seguro Brasil”
Brilham pontos na escuridão
Espiralando
Bocados mais juntos
Rodando
Sopros mais antigos
Brincando
No sem-fim da imensidão
Disputam mais negros olhos
Branqueando
Dobraduras na tez da noite
Serpenteando
Vias-lácteas no açoite
Bagunçando
Quem arde mais a retina dos povos
Ondulam ao perfeito acaso
Arranhões
De negrura pelos vales
Molecando
De montanhas sob neves
Balburdiando
Ao trazer impressões do universo
Jorram bem ali no meio
Cuspidas
Nervuras de arruaça
Trepadas
Rindo a qualquer ameaça
Gargalhadas
Como quem brinca sem arreio
Então que no olhar da fronte
Matutado
Destoa textura aos véus dada
Inocentada:
Só a pele do moleque de Rosa
Nadando
Na vereda de São Romão, esbalda o Rio da Ponte
BIU
29-12-2005
27.12.05
Suspensões Dependuradas
poema mecanóptico-relativístico
ESSE EQUILÍBRIO TOSCO
SUA LUCIDEZ FOSCA
E A SUFOCADA AGONIA DE FAZER-SE SEM SENTIDO,
ALMEJANDO O DESTERRO DO DESTINO INSOSSO,
COMO A VIDA DEPENDURADA NO RELATIVO
COM TODA SUAS NÃO-RAZÕES...
BIU
22-12-2005
Teso em suspensões ilusórias, do
caos temperado no limiar do medo
mãos dadas e distantes
de zero à cem por hora, dentro de que hora?
onde está pergunta meu coração duro
mas onde está o que responde minha alma...
essa fatalidade de viver para morrer?
esse sonho de não ter o que?
para que tudo isso
grampeador,
medidas,
grifos
traços
rolhas
percevejo
seusujeira
surrealismo infiel
nada é suficiente,
nada é estável
como poderia ser...
telefone
livros
maçanetas e chaves
ovos
leite
deus
barro
hummmmmmmmmmmmmm,
O telefone toca, o passáro toca
o corpo na grama toca
cêu azul, nuvem branca
limão, maçã, dedos
fins que não justificam os meios
tolice e seriedade, compromisso e atraso
câncer e hematomas
cubista mundo.
Imbecil mundo....
Zé Ortega
20.12.05
Consultório
Ampulheta
Especialidade 1: Oftalmologia
Exame 1: Olho no Olho
Diagnóstico 1: Cegueira por condensação vítrea
Terapia 1: Dar vida ao ver, Viver
Especialidade 2: Odontologia
Exame 2: Bate-papo
Diagnóstico 2: Hipertração da ATM oclusante
Terapia 2: Mastigar e nutrir-se de Poesia
Exame 2: Bate-papo
Diagnóstico 2: Hipertração da ATM oclusante
Terapia 2: Mastigar e nutrir-se de Poesia
Biu
20/12/2005
19.12.05
Tempo de compras...
Crônica de uma vitrine
Num futuro não muito distante, seremos todos manequins: magérrimos, traços perfeitos, pele, cabelo e olhos inalteráveis.
Presos a uma porosidade áurea, perfeitos, imóveis; com o olhar ao infinito; indiferente ao mundo e, inclusive os ouvidos, entupidos de cera.
E então seremos eternos, eternamente exibidos, olhados, admirados e expostos numa vitrine das lojas de grife (no futuro, todas as lojas o serão), invejados por outros igualmente perfeitos, eternos e encantados, hipnotizadas pelo horizonte indefinido - e, por serem eternos, não invejam nada.
Para sempre sem dores, inertes ao mundo, ao tempo, às opiniões e às emoções, sem dores. Mortos, pois não há vida sem morte e ambas, sem dor. Mas eternos, finalmente eternos...
Num futuro não muito distante, seremos todos manequins: magérrimos, traços perfeitos, pele, cabelo e olhos inalteráveis.
Presos a uma porosidade áurea, perfeitos, imóveis; com o olhar ao infinito; indiferente ao mundo e, inclusive os ouvidos, entupidos de cera.
E então seremos eternos, eternamente exibidos, olhados, admirados e expostos numa vitrine das lojas de grife (no futuro, todas as lojas o serão), invejados por outros igualmente perfeitos, eternos e encantados, hipnotizadas pelo horizonte indefinido - e, por serem eternos, não invejam nada.
Para sempre sem dores, inertes ao mundo, ao tempo, às opiniões e às emoções, sem dores. Mortos, pois não há vida sem morte e ambas, sem dor. Mas eternos, finalmente eternos...
16.12.05
"O fim e o principio" - I
A Eduardo Coutinho
I
O sol sutura a pele
Do rosto içado ao chão de tudo,
Metido no escuro da face
Marcada do ferro solar arguto
Como cu(o)mprido sem justo ditado:
Mais do que a enxada,
É o mesmo sol hirto
Que castiga do mundo a terra
Devastada
Evacuada
Trucidada
Esturricada
BIU
05/12/2005
I
O sol sutura a pele
Do rosto içado ao chão de tudo,
Metido no escuro da face
Marcada do ferro solar arguto
Como cu(o)mprido sem justo ditado:
Mais do que a enxada,
É o mesmo sol hirto
Que castiga do mundo a terra
Devastada
Evacuada
Trucidada
Esturricada
BIU
05/12/2005
Pô, meu!
Poemel
“Eu sou convencido de que o homem inventa a si mesmo.” (Ferreira Gullar em palestra no Espaço Cultural CPFL)
“Não estou vazio,
Não estou sozinho,
Pois anda comigo,
Algo indescritível”
(Carlos D. Andrade em “Carrego Comigo” - Rosa do Povo)
Não li os filósofos,
Releio-os, filtrados.
Nos interstícios destras letras,
Embalsamados nos traços,
Ativados nos termos,
Roxos pelo repuxo
De cordas tensas,
Rotas e eriçadas,
Atadas a tanto custo
Nas fendas e arestas das palavras,
Mantidas em pé em folhas claras.
Cada qual pesa nada
Se retirada do estrume
Onde está (a)fundada,
Mas revela sem antes densidade
Caso tomada fruto
De toda uma humanidade,
Suspensa no ar caduco
Filtrado na árvore dependurada
No cálice da flor-palavra.
Vultos de respeito
Pela filogenia calada,
À sombra das sépalas,
Acometem e deixam suspeito
Cada termo de esconder a ossada
Do mistério às claras.
Ó indesejáveis letras desejadas,
Levadas a termo,
Revelam o sumidouro dos ofícios
E o oficio dos sumidouros,
O viver:
Beijar a flor enquanto primavera,
Extrair um mel
Doce e amargo
Opaco e translúcido
Viscoso, imiscível
Mas presente como a seiva do real
BIU
06 e 14/12/2005
7.12.05
Momentos
Silêncio (ao) Extra-Terrestre
Aqui os sons preenchem o silêncio
Mesmo quando o som é silêncio
E o silêncio é som
Da alma que investe em si
Diante do remanso mundo
Latidos encavalam piados,
E grunhidos, discursos
Percursos descrevem recursos
Do mundar-se ao fundo
Do farfalho dos ramos dos galhos
Da copa, ressonador da voz do vento
Aqui o ar é um elemento
Que impõe o não-esquecimento
Ao desmantelo do eu profundo
Perante reticências das eminências
Do silêncio chiado do mundo
Diante de si mesmo...
BIU
17/11/2005
Furo n’água
i.m. Haroldo de Campos
Que furo n’água, meu,
é: tudo é um furo n’água.
Suar a camisa embaixo
Do sol – a fim de quê?
A hora dos velhos chega,
Depois a nossa e nada
Muda no mundo.O sol,
Que sobe, desce, sobe
Outra vez, desce e assim
Por diante. Venta ao norte
E ao sul, ao sul e ao norte.
Os rios vão dar no mar:
Bom, e daí? O mar
Não enche, as águas voltam
Ao grid de largada
E a trabalheira é tanta
Que nem te digo. Olhar
Demais irrita os olhos
E ouvir dói nos ouvidos.
Mas dá tudo na mesma.
A gente só refaz
o que outros já fizeram
e tudo aqui debaixo
do sol é a mesma merda.
Quem chama algo de novo,
se olha direito, vê
que vem do tempo do onça.
Ninguém mais sabe como
Foi ontem nem ninguém
depois de amanhã vai
lembrar como é que as coisas
terão sido amanhã.
Nelson Ascher – “Parte Alguma”
As cidades e o céu 2
Em Bersabéia, transmite-se a seguinte crença: que suspensa no céu existe uma outra Bersabéia, onde gravitam as virtudes e os sentimentos mais elevados da cidade, e que, se a Bersabéia terrena tomar a celeste como modelo, elas se tornarão uma única cidade. A imagem que a tradição divulga é de uma cidade ouro maciço, com tarraxas de prata e porta de diamante, uma cidade jóia, repleta de entalhes e engastes, que supremas e laboriosas pesquisas, aplicadas a matéria de supremo valor, podem produzir. Fiéis a essa crença, os habitantes de Bersabéia cultuam tudo o que lhes evoca a cidade celeste: acumulam metais nobres e pedras raras, renunciam aos efêmeros, elaboram formas de composta compostura.
Também crêem esses habitantes, que existe uma outra Bersabéia no subterrâneo, receptáculo de tudo o que lhes ocorre de desprezível e indigno, e eles zelam constantemente para eliminar da Bersabéia emersa qualquer ligação ou semelhança com a gêmea do subsolo. No lugar dos tetos, imagina-se que a cidade ínfera possui latas de lixo invertidas, das quais transbordam cascas de queijo, embalagens gordurosas, água de louça suja, restos de espaguete, velhas vendas. Ou mesmo que a sua substância seja aquela escura, maleável e densa como pez que escorre pelos esgotos prolongando o percurso das vísceras humanas, de buraco negro em buraco negro, até esborrachar-se no mais profundo sedimento subterrâneo, e que justamente a partir dos preguiçosos enroscados lá em baixo elevem-se giro após giro, os edifícios de uma cidade fecal de extremidades tortuosas.
Nas crenças de Bersabéia, existe uma parte de verdadeiro e outra de falso. É verdade que duas projeções de si mesma acompanham a cidade, uma celeste e uma infernal; mas há um equívoco quanto aos seus conteúdos. O inferno incubado no mais profundo subsolo de Bersabéia é uma cidade desenhada pelos mais prestigiosos arquitetos, construída com os materiais mais caros do mercado, que funciona em todos os seus mecanismos e relojoaria e engrenagens, com ornamentos de passamanaria e franjas e falbalá pendurados em todos os tubos e vielas.
Preocupada em acumular os seus quilates de perfeição, Bersabéia crê que seja virtude aquilo que a esta altura é uma melancólica obsessão de preencher os receptáculos vazios de si mesma; não sabe que os seus únicos momentos de abandono generoso são aqueles em que se desprende, deixa cair, se expande. Todavia, no zênite de Bersabéia gravita um corpo celeste que refulge com todo o bem da cidade, reunido em torno do tesouro dos resíduos: um planeta que desfralda cascas de batata, guarda-chuvas quebrados, meias gastas, cintilantes cacos de terracota, botões perdidos, embalagens de chocolates, lajeado de bilhetes de bonde, fragmentos de unhas e de calos, cascas de ovo. Essa é a cidade celeste e em seu céu correm cometas de cauda longa, emitidos para girar no espaço como o único ato livre e feliz de que são capazes os habitantes de Bersabéia, cidade que só quando caga não é avara calculadora interesseira. I
Ítalo Calvino em “As Cidades Invisíveis” (1972)
Aqui os sons preenchem o silêncio
Mesmo quando o som é silêncio
E o silêncio é som
Da alma que investe em si
Diante do remanso mundo
Latidos encavalam piados,
E grunhidos, discursos
Percursos descrevem recursos
Do mundar-se ao fundo
Do farfalho dos ramos dos galhos
Da copa, ressonador da voz do vento
Aqui o ar é um elemento
Que impõe o não-esquecimento
Ao desmantelo do eu profundo
Perante reticências das eminências
Do silêncio chiado do mundo
Diante de si mesmo...
BIU
17/11/2005
Furo n’água
i.m. Haroldo de Campos
Que furo n’água, meu,
é: tudo é um furo n’água.
Suar a camisa embaixo
Do sol – a fim de quê?
A hora dos velhos chega,
Depois a nossa e nada
Muda no mundo.O sol,
Que sobe, desce, sobe
Outra vez, desce e assim
Por diante. Venta ao norte
E ao sul, ao sul e ao norte.
Os rios vão dar no mar:
Bom, e daí? O mar
Não enche, as águas voltam
Ao grid de largada
E a trabalheira é tanta
Que nem te digo. Olhar
Demais irrita os olhos
E ouvir dói nos ouvidos.
Mas dá tudo na mesma.
A gente só refaz
o que outros já fizeram
e tudo aqui debaixo
do sol é a mesma merda.
Quem chama algo de novo,
se olha direito, vê
que vem do tempo do onça.
Ninguém mais sabe como
Foi ontem nem ninguém
depois de amanhã vai
lembrar como é que as coisas
terão sido amanhã.
Nelson Ascher – “Parte Alguma”
As cidades e o céu 2
Em Bersabéia, transmite-se a seguinte crença: que suspensa no céu existe uma outra Bersabéia, onde gravitam as virtudes e os sentimentos mais elevados da cidade, e que, se a Bersabéia terrena tomar a celeste como modelo, elas se tornarão uma única cidade. A imagem que a tradição divulga é de uma cidade ouro maciço, com tarraxas de prata e porta de diamante, uma cidade jóia, repleta de entalhes e engastes, que supremas e laboriosas pesquisas, aplicadas a matéria de supremo valor, podem produzir. Fiéis a essa crença, os habitantes de Bersabéia cultuam tudo o que lhes evoca a cidade celeste: acumulam metais nobres e pedras raras, renunciam aos efêmeros, elaboram formas de composta compostura.
Também crêem esses habitantes, que existe uma outra Bersabéia no subterrâneo, receptáculo de tudo o que lhes ocorre de desprezível e indigno, e eles zelam constantemente para eliminar da Bersabéia emersa qualquer ligação ou semelhança com a gêmea do subsolo. No lugar dos tetos, imagina-se que a cidade ínfera possui latas de lixo invertidas, das quais transbordam cascas de queijo, embalagens gordurosas, água de louça suja, restos de espaguete, velhas vendas. Ou mesmo que a sua substância seja aquela escura, maleável e densa como pez que escorre pelos esgotos prolongando o percurso das vísceras humanas, de buraco negro em buraco negro, até esborrachar-se no mais profundo sedimento subterrâneo, e que justamente a partir dos preguiçosos enroscados lá em baixo elevem-se giro após giro, os edifícios de uma cidade fecal de extremidades tortuosas.
Nas crenças de Bersabéia, existe uma parte de verdadeiro e outra de falso. É verdade que duas projeções de si mesma acompanham a cidade, uma celeste e uma infernal; mas há um equívoco quanto aos seus conteúdos. O inferno incubado no mais profundo subsolo de Bersabéia é uma cidade desenhada pelos mais prestigiosos arquitetos, construída com os materiais mais caros do mercado, que funciona em todos os seus mecanismos e relojoaria e engrenagens, com ornamentos de passamanaria e franjas e falbalá pendurados em todos os tubos e vielas.
Preocupada em acumular os seus quilates de perfeição, Bersabéia crê que seja virtude aquilo que a esta altura é uma melancólica obsessão de preencher os receptáculos vazios de si mesma; não sabe que os seus únicos momentos de abandono generoso são aqueles em que se desprende, deixa cair, se expande. Todavia, no zênite de Bersabéia gravita um corpo celeste que refulge com todo o bem da cidade, reunido em torno do tesouro dos resíduos: um planeta que desfralda cascas de batata, guarda-chuvas quebrados, meias gastas, cintilantes cacos de terracota, botões perdidos, embalagens de chocolates, lajeado de bilhetes de bonde, fragmentos de unhas e de calos, cascas de ovo. Essa é a cidade celeste e em seu céu correm cometas de cauda longa, emitidos para girar no espaço como o único ato livre e feliz de que são capazes os habitantes de Bersabéia, cidade que só quando caga não é avara calculadora interesseira. I
Ítalo Calvino em “As Cidades Invisíveis” (1972)
11.11.05
Inspiração anti(e)-calvinista
TEXTURA
“Do mundo que se desfaz, o que gostaria de salvar é a coisa mais frágil: aquela ponte marinha entre seus olhos e o sol poente.” – Espada de Sol- Palomar- I. Calvino
Conhecer-se
Sendo filho
Do pó do mundo
Reconhecer-se
Ser-se
Ser se
E ser,
Exercer
O desígnio da contemplada
Esbelteza ostentada,
Espada dourada no mar
Derramada ao olhar
Todo dia em ponto,
Todo o dia em ponto,
Todo o dia em pontos
De sensação-memória-imaginação
Bolhas superpõem-se em camadas
Confundir-se ao mundo
Como água e ar na queda
Do leito do rio profundo
A germinar a ponte inquieta,
Espessura da camada de espuma
Figurada em brancura
Somada da luz refletida
Pelos corpos das bolhas retidas
O branco (a)tinge a retina
Encanta a( )cortina
Da cachoeira,
Disfarça a rotina
Da corredeira da queda
Como reconhecer-se mundo
Aflora a morfina
Do tempo,
Faz a certeza da vida
Revelar-se perfeição
Da textura das pétalas
Do dia-a-dia.
05/11/2005
BIU
“Do mundo que se desfaz, o que gostaria de salvar é a coisa mais frágil: aquela ponte marinha entre seus olhos e o sol poente.” – Espada de Sol- Palomar- I. Calvino
Conhecer-se
Sendo filho
Do pó do mundo
Reconhecer-se
Ser-se
Ser se
E ser,
Exercer
O desígnio da contemplada
Esbelteza ostentada,
Espada dourada no mar
Derramada ao olhar
Todo dia em ponto,
Todo o dia em ponto,
Todo o dia em pontos
De sensação-memória-imaginação
Bolhas superpõem-se em camadas
Confundir-se ao mundo
Como água e ar na queda
Do leito do rio profundo
A germinar a ponte inquieta,
Espessura da camada de espuma
Figurada em brancura
Somada da luz refletida
Pelos corpos das bolhas retidas
O branco (a)tinge a retina
Encanta a( )cortina
Da cachoeira,
Disfarça a rotina
Da corredeira da queda
Como reconhecer-se mundo
Aflora a morfina
Do tempo,
Faz a certeza da vida
Revelar-se perfeição
Da textura das pétalas
Do dia-a-dia.
05/11/2005
BIU
28.10.05
Um mês e meio...
Delícia de Menina
Malícia, carícia: que delícia...
Sentimentos me acometem, regem
Minha existência de ti se enebria
Forças perante ti desfalecem
Olhares, movimentos atentos
Singelos detalhes a observar
Sina de caçador, intento
Desejos fulminantes saciar
Efêmera a dinâmica do impulso
Sutilezas que governam decisões
Preciso momento do bote aguço
Esperado contraponto de razões
“Ante o brilho do seu olhar,
A maciez de sua pele,
A delicadeza de suas mãos,
A turgidez de seus seios,
A forma afeminada de suas curvas
E de todo o seu existir
Como hei de resistir
Se minha sorte é tudo isto saborear”
Malícia, carícia: que delícia...
Sentimentos me acometem, regem
Minha existência de ti se enebria
Forças perante ti desfalecem
Olhares, movimentos atentos
Singelos detalhes a observar
Sina de caçador, intento
Desejos fulminantes saciar
Efêmera a dinâmica do impulso
Sutilezas que governam decisões
Preciso momento do bote aguço
Esperado contraponto de razões
“Ante o brilho do seu olhar,
A maciez de sua pele,
A delicadeza de suas mãos,
A turgidez de seus seios,
A forma afeminada de suas curvas
E de todo o seu existir
Como hei de resistir
Se minha sorte é tudo isto saborear”
José Mialichi
Restorno
Dicionários não servem
Ao não-palavra;
Não servem ao ignorante,
Descrente dos conceitos;
A crença na realidade deste chão
Independe de sua explicação,
Reside no simples tocá-lo
Com a simplicidade complexa do tato.
Faz-se o que diante do novo? Um bicho novo?
Mariposa?
Eis-nos atados á palavra
Como a mariposa a essas paredes.
Um gradiente de luminosidade é um conceito?
Alfabeto da escala de tons de cinza?
Simplesmente espera a aurora
De sua clarificação, paciente
Em sua limitação.
Navega pelos tons
Como por cidades
Ciente de que palavras
São detalhes, nuances, grãos de areia
No concreto deserto da realidade.
BIU
25/10/2005
13.9.05
Nada a acrescentar
Ode à Alegria
(João Silvério Trevisan)
Mesmo que eu não tenha motivo aparente para me alegrar.
Mesmo rastejando neste chão de equívocos
que é a noite escura da existência,
ah, eu me deixo tomar por uma Alegria
que brota do mais alto e do mais baixo e de todos os lados
porque o centro do mundo e o próprio eixo do universo
batem aqui, exatamente onde estou
onde SOU
Dizem que o mundo mudou muito!...
Hoje já tem divórcio...
Dizem que o lundu virou maxixe
Que virou samba que virou... sei lá
Dizem que o homem já foi à lua
mas o negro brasileiro até hoje não se libertou
Dizem que a vocação do Brasil é à deriva... Será?!
Dizem que logo-logo vão descobrir
A cura completa da AIDS mas
o ser humano continuará incurável!
E dizem que eu vou morrer do coração. Quem sabe?!
O que eu sei é que ainda que eu tenha compreendido todos os
mistérios, se não tiver Amor,
eu não terei compreendido nada
O que eu sei - é que ainda - que eu tenha -
Compreendido - todos os mistérios...
Se não tiver Amor - eu não terei compreendido nada
O que eu sei,
é que TODOS precisamos beber da ALEGRIA
da Alegria - que é a face visível do Amor.
Eu sei que o tempo todo a grande Morte nos espreita,
Sei o quanto é cruel
estarmos assim diante das trevas
E possuído de todas as dúvidas
Mas sei também que existe um SIM!
E repito que este SIM foi, é e será, sim, a Alegria!
a Alegria-Pássaro que estende suas asas sobre nós
e nós sorrimos, apesar de tudo e de tudo
E eu respondo a todos os insultos
Com uma alegria...íssima
E digo ao mundo que se um vier, eu a defenderei
E se três ou quinhentos vierem, eu a defenderei
Eu a defenderei contra todos os horrores,
Defenderei, defenderei
e responderei a todas as infâmias com Alegria
e ainda que eu morra (ouviu, Deus?)
Ainda que eu morra, como um cão bravio
defenderei minha capacidade (mortal!)
de viver em alegria!
8.9.05
Caranguejos
Risoflora
Chico Science e Naçâo Zumbi
Eu sou um caranguejo e estou de andada
só por sua causa, só por você, só por você
e quando estou contigo eu quero gostar
e quando estou um pouco mais junto eu quero te amar
e aí te deixar de lado como a flor que eu tinha na mão
e a esqueci na calçada só por esquecer
apenas porque você não sabe voltar pra mim
Oh Risoflora! vou ficar de andada até te achar
prometo meu amor vou me regenerar
Oh Risoflora! não vou dar mais bobeira dentro de um caritó
Oh Risoflora, não me deixe só
Eu sou um caranguejo e quero gostar
Enquanto estou um pouco mais junto eu quero te amar
E acho que você não sabe o que é isso não
E se sabe pelo menos você pode fingir
E em vez de cair em tuas mão preferia os teus braços
E em meus braços te levarei como uma flor
Pra minha maloca na beira do rio, meu amor!
Oh Risoflora!
Vou ficar de andada até te achar
Prometo meu amor vou me regenerar
Oh Risoflora! Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó
Oh Risoflora, não me deixe só
Chico Science e Naçâo Zumbi
Eu sou um caranguejo e estou de andada
só por sua causa, só por você, só por você
e quando estou contigo eu quero gostar
e quando estou um pouco mais junto eu quero te amar
e aí te deixar de lado como a flor que eu tinha na mão
e a esqueci na calçada só por esquecer
apenas porque você não sabe voltar pra mim
Oh Risoflora! vou ficar de andada até te achar
prometo meu amor vou me regenerar
Oh Risoflora! não vou dar mais bobeira dentro de um caritó
Oh Risoflora, não me deixe só
Eu sou um caranguejo e quero gostar
Enquanto estou um pouco mais junto eu quero te amar
E acho que você não sabe o que é isso não
E se sabe pelo menos você pode fingir
E em vez de cair em tuas mão preferia os teus braços
E em meus braços te levarei como uma flor
Pra minha maloca na beira do rio, meu amor!
Oh Risoflora!
Vou ficar de andada até te achar
Prometo meu amor vou me regenerar
Oh Risoflora! Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó
Oh Risoflora, não me deixe só
29.8.05
Parir-se
Ecdise
Emaranham-se hifas
Sobre medos persistentes,
Enroscam-se pífias
Sobre menos importantes
Com formas sutis e variadas,
Explosões de alegria, num micélio,
Desmontam o resto de mistério,
Desfolham as metmorfoseadas.
Desgarram-se lascas
Rasgadas da carne costurada
Sobre realidades opacas.
E a ecdise faz-se sa(n)grada.
Era soterro de estigmas
Encrustrados
Na serendipidade
Dos detalhes de mim
Em auto-comiseração.
A ponta da espada do incomodo
Espeta a matriz de esporos
E arrasta a vontade do novo,
De tear tecidos não escuros...
E nasce um corpo
Sob o sol da bondade
Incipiente corpo de verdade
Nutrido do esterco do porco
Nasce frágil
Mostra fácil a pele pálida
Numa brandura ávida
Por ignorar o passado,
Corar-se no seio da amizade,
Ver-se livre do sonho projetado,
E ser, após a ecdise da realidade,
Vivo na soberba humildade.
BIU
29/08/2005
Serendipidade: arte de transformar detalhes, aparentemente insignificantes, em indícios que permitam reconstruir toda uma história
Emaranham-se hifas
Sobre medos persistentes,
Enroscam-se pífias
Sobre menos importantes
Com formas sutis e variadas,
Explosões de alegria, num micélio,
Desmontam o resto de mistério,
Desfolham as metmorfoseadas.
Desgarram-se lascas
Rasgadas da carne costurada
Sobre realidades opacas.
E a ecdise faz-se sa(n)grada.
Era soterro de estigmas
Encrustrados
Na serendipidade
Dos detalhes de mim
Em auto-comiseração.
A ponta da espada do incomodo
Espeta a matriz de esporos
E arrasta a vontade do novo,
De tear tecidos não escuros...
E nasce um corpo
Sob o sol da bondade
Incipiente corpo de verdade
Nutrido do esterco do porco
Nasce frágil
Mostra fácil a pele pálida
Numa brandura ávida
Por ignorar o passado,
Corar-se no seio da amizade,
Ver-se livre do sonho projetado,
E ser, após a ecdise da realidade,
Vivo na soberba humildade.
BIU
29/08/2005
Serendipidade: arte de transformar detalhes, aparentemente insignificantes, em indícios que permitam reconstruir toda uma história
26.8.05
"...Alta noite já se ia..."
Trilha
Encapuzado.
Num punho, o fogo lamparina
No outro, o cajado tremelica.
Pé e cabeça calejados
Pelo caminho caminhado.
O homem peregrina na terra hostil
Em busca daquilo que ofusca
E afasta a esquina da vida sutil,
De ser tua a sua vida que enrosca.
Neste tecido ilusório de contrários,
Tece soluções a males primários;
Por operações inusitadas
Inocula belezas bordadas.
Dotado do dom de doar
Pesquisas em palavras,
Escrutina as dores do ar,
Donde ardem tesouros, das lavras.
A dor extirpada
Pelo caminho caminhado
Liberta o homem mistificado
E rasga na face fechada
Uma trilha ao sorriso
De ver teu o seu caminho
Que só assim é caminhado.
BIU
22/08/2005
Encapuzado.
Num punho, o fogo lamparina
No outro, o cajado tremelica.
Pé e cabeça calejados
Pelo caminho caminhado.
O homem peregrina na terra hostil
Em busca daquilo que ofusca
E afasta a esquina da vida sutil,
De ser tua a sua vida que enrosca.
Neste tecido ilusório de contrários,
Tece soluções a males primários;
Por operações inusitadas
Inocula belezas bordadas.
Dotado do dom de doar
Pesquisas em palavras,
Escrutina as dores do ar,
Donde ardem tesouros, das lavras.
A dor extirpada
Pelo caminho caminhado
Liberta o homem mistificado
E rasga na face fechada
Uma trilha ao sorriso
De ver teu o seu caminho
Que só assim é caminhado.
BIU
22/08/2005
1.8.05
Vínculos.
há uma lágrima que não escorre
está pedrificada dentro de minha identidade
da qual não sei, onde é,
qual sei onde seria?
não escorre por que não há dor, nem
há forma de limpá-la a não ser evitá-la
devo ficar calado nas próximas horas
ficar calado é ficar de bem com o ódio
a plenitude do silêncio é a ferramenta que sustenta
o ócio dos dias e o boçal das famílias
da sujeira impregnada por de baixo das pálpebras
Sei que nada é divino
nada é mistério
porque o mistério é a dor da consternação
há uma lágrima de concreto feito viga
sobrepõe a minhas mãos cansadas, as veias rotas,
caminhos inerentes, escolhas punjentes.
José E. de Castro Ortega
A implosão da mentira (Por Afonso Romano de Sant'Anna)
"Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.
Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.
Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.
Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o
rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.
Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constróem um país de mentiras diariamente."
19.7.05
Nada a declarar...
A Máquina do Mundo
Carlos Drummond de Andrade
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se a majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter suado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuras em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo".
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animaise
chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relancee
me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se a majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter suado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuras em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo".
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animaise
chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relancee
me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
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