18.3.06

Diálogo (nada despretensioso) de uma vida

- Se você colaborar - ele disse - poderá pedir tudo o que quiser ao Senhor das Inclemências
...
- Imortalidade? Uma eternidade toda com essa serpente fodendo o meu coração? Uma eternidade cheia de medo, de falta de ar, de arritmia cardíaca? Nada feito.
- Você diz porque não conhece a outra alternativa.
- Que outra alternativa?
- O fim comum dos humanos. A morte. Você entende a morte? Já se imaginou morto alguma vez?
-Já que tocamos no assunto, acho que vou me suicidar assim que sair daqui.
- Não, você não vai. Você vai continuar agarrado a essa vida que você detesta, porque no seu coração, nesse mesmo coração pequeno, companheiro de gruta de uma cobra, você sente que essa vida é a única que existe. Depois vem o nada. Entropia de céluças, rendez-vous de vermes, nada de consciência, nada de memória, nada de nada, finito. Kaput. The end - ele compassava as palavras com pequenos socos no braço da cadeira. - Não lhe parece que uma eternidade cheia de medo, por pior que venha a ser, é preferível a uma eternidae cheia de nada?
- Estou pensando se vale a pena pedir minha parte em dinheiro.
- Como preferir.
pág. 54 "Síndrome de Quimera" Max Mallman

2.3.06

O literário nada do real

Papéis em branco (1997)

Fechem as cortinas
celebrem o fim
não temam
não há mais nada a fazer
nada a dizer
não há mais jornais
não há mais bíblias
não há mais mais
apenas o nada
alimentando-se do vazio
hoje é o dia que sempre foi
sem nunca existir
vamos sentar e apreciar a vista
pois nossos olhos não mais vêem
apenas sentem
nosso corpo em estranha modéstia
curva-se diante da própria sombra
tornando-a real
agora a lei é única
agora a lei não é
as palavras não são mais necessárias
agora sabemos o caminho de casa

Eduardo Gil


o lamento (1989)

O lamento da literarura com seus gorjeios e trinados, percorrendo a escala das emoções. É um vento aventureiro desfazendo tranças e arreliando rendas delicadas. A delicadeza de certas mãos que em sonhos tocam a imaginária cintura do sonhador iludido e no final compõem pontes de absurdo sentido entre imagens soltas e acabadas. Tontas cavalgadas por prdarias absolutamente inconcebíveis - e o real se retira humilhado perante o referido inatingível esplendor. Secam gerânios, begônias e nardos. A ordem é revisada. O caos dos corpos a sós. Certas formas se acentuam, procuram-se para grifar-se e, ao coincidir consigo mesmas, sucumbem ao júbilo de se sentir indescritíveis. Prodígios da metamorfose imperceptível!

em Poros ("Language is a virus from outer space"- Burroughs)
de Rubens Rodrigues Torres Filho

21.2.06

Largura na Amizade

A( )barca

"E só ficara comigo
o riso rubro das chamas, alumiando o preto
das estantes vazias.
Porque eu só preciso de pés livres,
de mãos dadas,
e de olhos bem abertos."
Bibliocausto - livro Magma
Joao Guimarães Rosa
“Viver para ser admirado pelos outros cria apenas fracasso e frustração"
Heróis de verdade - Roberto Shinyashiki

Parte a barca
Branca
Deixa larga
Embarca
Na largura
Arca
Larga

Não deixa a barca
Abarcar
A marca
E largar ao largo
Amarga
Alarga

Barca Furada
Rasga tecido
D’água
Arrasta
Aparta o broto novo

Surfa a barca
Um jeito povo
Barqueja
Arpeja
Ritmo
Encarna

Seja barca
Em barca
Forma nova
Embarca agora
A barca do eu
À barca do outro
Alarga a largura
Barca

Felipe Modenese
19-02-2006



Para que serve um amigo?

Milan Kundera, em seu livro “A identidade”, diz que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança contra a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.
Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou serão varridas numa chuva de verão.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos. Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta calor e a jaqueta. Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país. Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu. Um amigo não passa penas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o Reveillon. Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado. Um amigo não segura a barra apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem.
Se tiver num, amém.

Martha Medeiros

12.2.06

O gênio simples de mestre Rosa

Saudade

Saudade de tudo!...

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de aalmas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa de fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo...

Poema "Saudade" - livro "Magma" de 1936 -
mestre Guimarães Rosa

8.2.06

Visões

“Gostaria de dizer que penso nos humanos como fazendo parte de uma curva normal ou como a questão do limiar de dor. Se passarmos a existência a olhar de fora, ela fica pesada e insustentável, mas se passamos além disso, podemos atingir um tal grau de praticidade na existência que ela se torna leve e adaptativa. Acho que está perto das idéias do zen budismo. Nossa civilização ocidental separou mente e corpo e tornou a existência uma questão de luta e não de fluxo. O homem rico é aquele que está satisfeito com o que tem. Nossa sociedade consumista e competitiva vai solapando o gosto de simplesmente ser”
Glória Cintra - psicoterapeuta

4.2.06

Miró-Melo-Kafka-Koellreutter

“Fico agitado quando vejo, num céu imenso, a lua crescente ou o Sol. É por isso que em minhas telas existem diminutas formas em grandes espaços vazios.”
“A tela deve ser fecunda. Deve criar um universo onde, pouco importa, divisarmos neles flores, personagens, cavalos, contanto que revele ao mundo algo vivo.”

Joan Miró

“É a esse vivo que parece aspirar a pintura de Miró. Isto é, a algo elaborado nessa dolorosa atitude de luta contra o hábito e a algo que vá, por sua vez, romper no espectador, a dura crosta de sua sensibilidade acostumada, para atingí-la nessa região onde se refugia o melhor de si mesma: sua capacidade de saborear o inédito, o não aprendido.”
João Cabral de Melo Neto - amigo de Miro

A Partida
Dei ordem de irem buscar meu cavalo ao estábulo. O criado não me compreendeu. Fui eu mesmo ao estábulo, ensilhei o cavalo e montei. Ao longe ouvi o som de uma trombeta, perguntei o que significava aquilo. Ele de nada sabia, não ouvira nada. No portão deteve-me, para perguntar-me:
-Para onde cavalga o senhor?
-Não o sei - respondi -. Apenas quero ir-me daqui, somente ir-me daqui. Partir sempre, sair daqui, apenas assim posso alcançar minha meta.
-Conheces então, tua meta? - perguntou ele.
-Sim - respondi eu -. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta.
Franz Kafka
(recebido de Eduardo Garcia Gil- Dú)


“A arte é uma contribuição para o alargamento da consciência do novo ou do desconhecido e para a modificação do homem e da sociedade. É necessário que a arte se converta em fator funcional de estética e humanização do processo civilizador em todos os seus aspectos. A função do artista deve ser a de contribuir para a conscientização das grandes idéias que formam a nossa realidade atual.”
Koellreutter

3.2.06

Religiosidade - vergonha e culpa

Revista Bravo: Foi mesmo a religião que salvou sua vida?

Seo Jorge: Eu não tenho essa relação de pecado e paraíso, de sair daqui para pagar não sei onde. Acho que a coisa é toda resolvida por aqui, mesmo. Se vacilar aqui, é aqui que tu estás fodido. Se acertar aqui, é aqui que vem a bonança. Talvez, se o Brasil tivesse sido educado nessa concepção — eu nem digo “religião” —, a gente tivesse mais mico leão dourado espalhado por aí. Mas fomos criados na concepção católica, onde é proibido, é pecado, é feio, é bonito, é com alma, é sem alma... deu essa cagada toda que está aí. Sou candomblecista sim, sou filho-de-santo pesadão como todo preto brasileiro é. Meus santos estão todos na atividade e se mexer comigo são três tambores comendo na cara. E não é papo de magia negra, não. É dança, é canto, é expressão, é sorriso, é gargalhada, é cerveja, é rango, é lombo de porco, é lingüiça de porco, é feijão, é fartura, é tambor, é todo mundo de branco! Todo mundo bem decorado, bem colorido. É cheiro de mato, cheiro de erva, é biodiversidade. Neguinho está perdendo, não sabe o que é.



Culpa e vergonha (Moralidade 1)
Em 2005, as CPIs escancararam atos de corrupção, apropriações indébitas, malversações variadas. A campanha eleitoral deste ano promete uma reprise e uma ampliação do mesmo espetáculo.
Mesmo assim, a impressão de muitos é que tudo isso seja apenas a ponta de um iceberg. É como se estivéssemos convencidos de que uma desonestidade endêmica compromete cada órgão vital do país, se não cada consciência.
Pagamos a dívida com o FMI, conseguimos um superávit primário e, quem sabe, com a inflação controlada e a baixa dos juros, a dívida interna diminua. Mas não há como festejar: o país nos parece sofrer de um déficit mais fundamental, que nenhuma política econômica sarará, um déficit moral.
Durante o século 20, aliás, muitos sociólogos e ensaístas brasileiros se debruçaram sobre esse déficit moral, perguntando-se como ele teria chegado a ser um "costume" nacional. Um costume, segundo a definição proposta por Tocqueville, é um hábito do corpo e do espírito, um hábito compartilhado por uma coletividade; ele dá forma a escolhas e atos de maneira, por assim dizer, espontânea, irrefletida.
É nesse contexto que dedico uma pequena série de colunas (seguidas, mas com possíveis exceções) ao funcionamento de alguns reguladores da moralidade em nossa sociedade.
Num livro famoso, "O Crisântemo e a Espada", de 1946, uma grande antropóloga americana, Ruth Benedict, tentou entender a sociedade japonesa.
Ela chegou a uma conclusão que se tornou clássica: há sociedades em que o comportamento moral é regulado pela vergonha (por exemplo, o Japão) e outras em que ele é regulado pela culpa (por exemplo, as sociedades ocidentais modernas). Em cada tipo de sociedade, ambos os afetos estariam presentes como motivações e deterrentes, mas um deles seria dominante.
Nas sociedades em que predomina a vergonha, o sujeito escolhe agir, se abster ou impor limites à sua ação para não perder a face e para preservar ou resgatar sua honra e sua dignidade. Nas outras, o sujeito age para evitar a culpa ou para expiá-la.
A ação moral concreta é parecida nos dois tipos de culturas. Por exemplo, em ambos, um sujeito moral não rouba, mas, no primeiro caso, ele não rouba para evitar a desonra que espera o ladrão; no segundo, ele não rouba para não se sentir culpado.
A vergonha parece ser um regulador perfeito para as sociedades tradicionais, em que, acima da lei, vigem os códigos de honra, a fidelidade ao legado dos ancestrais, o sentimento de uma missão simbólica da estirpe e da casta -ideais que permitem medir nosso valor e nossa dignidade.
A culpa seria o regulador das sociedades individualistas modernas, cuja origem está na idéia cristã de que o indivíduo deve pouco ou nada a seu passado e aos grupos aos quais ele pertence, mas é contável diante de um Deus que sabe tudo e, em última instância, julgará e punirá ou recompensará.
O Brasil de hoje é, grosso modo (voltarei a essa aproximação), uma sociedade ocidental moderna e fundamentalmente cristã. Na oposição proposta por Benedict, o sentimento que regula nossa ação moral deveria ser sobretudo a culpa.
No entanto, a sabedoria da língua sugere algo diferente: a malandragem "não tem vergonha na cara", "sem-vergonha" é uma fórmula tão corriqueira que se tornou um adjetivo hifenizado, assim como "pouca-vergonha" se tornou um substantivo e o mesmo vale para "cara-de-pau".
Em matéria de moral, nossa língua espera mais da vergonha que da culpa. E, ao estigmatizar a imoralidade, ela deplora mais a falta de vergonha do que a falta de culpa.
Apesar da idéia de Benedict, nossa língua tem razão, sobretudo porque a culpa, de fato, é um péssimo regulador moral.
À primeira vista, que a gente acredite ou não nas penas do inferno, pareceria lógico que evitássemos as ações que (como sabemos sempre de antemão) não nos deixariam dormir tranqüilos. Mas qualquer terapeuta sabe que não é assim: a culpa funciona como uma espécie de pagamento antecipado. Autorizo-me a fazer algo que me parece errado justamente porque sei que me sentirei culpado, e meu sofrimento futuro compra, desde já, o perdão para meu ato.
A Igreja Católica, quando instituiu o arrependimento e a penitência como condições da confissão, inventou um dispositivo extraordinariamente permissivo. Posso pecar quanto eu quiser, pois já me arrependo, sinto-me culpado, sofro e meu sofrimento me remirá.
É a mesma dinâmica que funciona quando pedimos desculpas: numa palavra só, admitimos que nosso ato é errado, prometemos que nos sentiremos culpados, e essa promessa nos garante o perdão. Com isso, podemos furar a fila e passar a perna, à condição de murmurar "desculpe".
A vergonha é um regulador moral muito mais eficaz que a culpa porque meu sofrimento por perder a face não repara minha honra. Enquanto a própria culpa absolve o sujeito culpado, a vergonha mancha, e sentir vergonha não restitui a dignidade de ninguém. A única cura da vergonha está nos atos futuros do sujeito.
Mas como funciona (ou não funciona), então, a vergonha numa sociedade moderna, como a nossa?
Continua.


CONTARDO CALLIGARIS (Folha de São Paulo, quinta-feira, 02 de fevereiro de 2006)

31.1.06

É vero!

APRENDENDO A VIVER...

Aprendi que se aprende errando
Que crescer não significa fazer aniversário
Que o silêncio é a melhor resposta, quando se ouve uma bobagem
Que trabalhar significa não só ganhar dinheiro
Que amigos a gente conquista mostrando o que somos
Que os verdadeiros amigos sempre ficam com você até o fim
Que a maldade se esconde atrás de uma bela face
Que não se espera a felicidade chegar, mas se procura por ela
Que quando penso saber de tudo ainda não aprendi nada
Que a Natureza é a coisa mais bela na Vida
Que amar significa se dar por inteiro
Que um só dia pode ser mais importante que muitos anos
Que se pode conversar com estrelas
Que se pode confessar com a Lua
Que se pode viajar além do infinito
Que ouvir uma palavra de carinho faz bem à saúde
Que dar um carinho também faz...
Que sonhar é preciso
Que se deve ser criança a vida toda
Que nosso ser é livre
Que Deus não proíbe nada em nome do amor
Que o julgamento alheio não é importante
Que o que realmente importa é a Paz Interior
E finalmente, aprendi que não se pode morrer, prá se aprender a viver...
(Carlos Castañeda)

"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo,
qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim". Chico Xavier

e-mail enviado por Mariana Vieira

28.1.06

Segredinho

"O segredo de toda verdadeira arte está, talvez, onde a razão e a magia se tornam uma coisa só".
Herman Hesse (1877-1962)

25.1.06

Alvura de Rubem

Poesia
Por Rubem Alves (em uma introdução ao mês de outubro de uma agenda de 2001)

Poesia não é uma expressão do ser do poeta.
A poesia é uma expressão do não-ser do poeta.
O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.
Escrevo para me completar.
Minha escritura é o pedaço arrancado de mim.
Escrevo porque tenho sede e não sou água.
Sou pote.
A poesia é água.
O pote é um pedaço de não-ser cercado de argila por todos os lados, menos um.
O pote é útil porque ele é um vazio que se pode carregar.
Nesse vazio que não mata a sede de ninguém pode-se colher, na fonte, a água que mata a sede.
Poeta é pote.
Poesia é água.
Pote não se parece com água.
Poeta não se parece com poesia.
O pote contém a água.
No corpo do poeta estão as nascentes da poesia.
Não.
Não escrevo que sou.
Sou pedra.Escrevo pássaro.
Sou tristeza.Escrevo alegria.
A poesia é sempre o reverso das coisas.
Não se trata de mentira.
É que somos seres dilacerados.
O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está.
O poeta escreve para invocar essa coisa ausente.
Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade.
“Like a bridge over troubled waters...”
O que escrevo é uma ponte de palavras que tento construir para atravessar o rio.

24.1.06

Dito e Feito

3 - Poesia e romance

Folha - O que você diria que alguém de 17, 18 anos deveria estar lendo agora para ter uma noção do seu próprio tempo?

Paglia - Poesia. O pós-estruturalismo privilegiou o romance. É no romance que as técnicas da desconstrução funcionam melhor. Com a poesia, não. E, para mim, o poema -o curto, em especial- faz muito mais parte da nossa época. O poema curto equivale a uma canção, que se escuta inteira no rádio, ou a uma pintura, que se pode ver isolada. Já um romance pode exigir duas ou três semanas de leitura, com um esforço especial de atenção para a linearidade das idéias. E esse tempo e essa atenção são cada vez menos disponíveis, mesmo para os jovens.Eu adoro os romances do século 19, mas não tenho entusiasmo pelo romance anglo-americano contemporâneo. Os últimos romances que li a sério foram [três grandes obras do modernismo europeu] "Rumo ao Farol", de Virginia Woolf, "A Montanha Mágica", de Thomas Mann, e "Ulisses", de James Joyce, romances em que se percebe uma espécie de fusão entre poesia e prosa. Já o romance anglo-americano atual... O que é essa ficção, comparada à vitalidade que se vê por todos os lados, no cinema, na TV, até na internet ou em videogames?

Camille Paglia
em entrevista à Folha - caderno Mais de 10 de abril de 2005


tecnoplágio

A Terra parou?!?
Ou a web caiu...

07-08-2005

23.1.06

Cidade Vísivel

Farinha ao Menos

Sentado numa cadeira metálica do bar da Lila, de esquina, sem consumir nada, de favor, em frente à praça, Ioiô relata os episódios do dia, enquanto cobiça os bancos da praça central:

Depois de 20 km serpenteando pelos mares mineiro-capixaba-cariocas, Iaiá e Ioiô andaram mais 3 km por estrada de asfalto até Farinha ao Menos, durante os quais placas devidamente espaçadas retomavam um a um, os dez mandamentos. Por descuido de conversa, Ioiô perdera o da cobiça. . .
Chegaram.
Foram conhecer a cidade e suas janelas de olhar vagaroso, a praça central (central mesmo), com posto com uma bomba ancestral, o armazém de produtos animais, a chuva torrencial, o coreto necessário, as sedes de igrejas, o armazém local, que fornece o município há “muito tempo, ahhh! Muito tempo mesmo”, as eiras e beiras das casas, a catedral. Mas pararam de andar. O caminho tinha-lhes sido interrompido: nunca viram tanto entulho acumulado.
A cidade está com um sério problema: o tempo passa muito devagar para conseguirem dar conta de recolher tanta conversa que é jogada fora.
Nem o gari, de laranja fosforescente, consegue dar conta de tanto chamado. Os farinha-ao-menses telefonam e o homem sai correndo, de bicicleta, em busca de bitucas nos meio-fios (que vão, devagar, mas vão). O primeiro disk-gari do país.

De queixos segurados (e seguros, também), os homens conversam devagar, de janela a janela, se o tempo vai “firmá” ou se vai “chovê”. É quando decidem deixar e ver o tempo passar jogando conversa fora.
Iaiá e ioiô ficaram de queixos caídos. Como os cidadãos lidarão com tamanha quantidade. Talvez por isso o tempo ia devagar: tem que decompor, no seu caminho, tanta conversa fiada (bem fiada mesmo. . .) da gente que troca um dedinho de prosa enquanto segura o queixo embasbacado com o tempo demorado.
Dedinho em dedinho, as pessoas não sabiam quais eram seus mais. Trocavam tanto que perdiam os seus próprios e confundiam com os de outros. Mas nada de mais. Nem de menos. As pessoas parecem não saber nem quem são. É tanto troca-troca sobre a vida não sua que não sabem mais reconhecer a própria sua. Soam através das bocas de bocas de outras pessoas e acabam anulando a identidade que nunca foram.

Ioiô, às 22, foi-se embora pois lhe chegou um medo de não conseguir voltar sozinho, sem ajuda, ao local de acomodação.
O tempo passou, embora se vê que não passa.
Êta vida boa meu deus!!! Talvez um pôco besta vai. . .
BIU
09-01-2006

Cidade pequena

Na praça de Farinha ao Menos,
Destroços de lemos e remos
Arpejam a jangada chegada
Toda esburacada de pedra dourada

A cidade faria, lemos
No parquinho da central ,
Destroçado,
Bons cidadãos se, ao menos,

Pendurasse cadeiras na corrente do balanço
(Cujos elos remanescentes oscilam em fase,
Assim como os cidadãos, em fase...
De jogar conversa fora
De segurar, sem questionar,
O queixo caído
De tanta emoção),

Prendesse tábuas de assento
No sobe-desce da gangorra
(Que nem sobe nem desce:
Permanece...
Inclinada como uma ponta enferrujada
Ao ar
E outra enterrada no liso da areia,
Aplainada pela chuva,
Sem ser brincada,
Enfiada na areia, inerte ao tempo,
Que, aliás, teima em não passar
No lugarejo enterrado na serra,
Num Sossego tremendo,
Sem pressa de mudar),

Colocasse o disco no eixo do gira-gira
E girasse, apenas girasse...
(Como o que sabe não poder decolar,
Mas interessa-se em conhecer
As redondezas do lugar de brincar
E brincar
No mundo tão pequeno
Panorâmico
Sujando-se da beleza do local
Girando
Humilde, mas consciente
De fazer parte de um projeto maior
E deixar a conformidade ignorante)

E acertasse o movimento basculante
Do brinquedo sem nome
(Assim como esta gente praça,
morando na paz de graça.
Gente evoluída que só:
Conversa e deixa o tempo passá,
Sem muita questão pra colocá,
Além de questioná se o tempo vai virá,
E se não tem mais o que fazê pra mó
De fazê a gente daqui dorá mais um tiquinho).

BIU
10-01-2006

18.1.06

Docentes, Mestres, Cágados, Cupins e Protozoa

Exame de qualificação

…enquanto isso, três cupins operários, membros do filo Arthropoda, da Classe Insecta e da Ordem Isoptera, sob o tampo da mesa, de ponta cabeça , disputam qual leva o fiapão de cortiça de volta ao cupinzeiro que fica além da janela do auditório do instituto, sob o sol dos trópicos.
Sem questionar se o ganho eletromagnético dos pontos quânticos das camadas moleculares das cabeças de fibras de miosina dos feixes musculares de seus aparelhos roedores, nem se a solução da aplicação da teoria quântica de perturbação de segunda ordem à equação de Schrödinger dependente do tempo gera uma matriz de transição do bulk quântico em movimento browniano do grupo carboxila das proteínas do ritidoma lenhoso das dicotiledôneas, os insetos disputam quem receberá as cobiçadas congratulações da rainha cupim.
Disputam a consagração de seu heroísmo.
Heróis sim. Não ousem pensar que é fácil esquadrinhar todas as encadeadas janelas do auditório em busca de uma estreita passagem para os tesouros dos tecos de cortiça da madeira de lei do tampo da mesa, nem combinar os movimentos das patas articuladas por um caminho esconderijo, cruzando cabos de microfones, Internet, fios de eletricidade, sem provocar ruídos acima de 20dB, nem provocar impressões de movimento nas retinas humanas.
Sem tomar conta da pressão exercida pelo orientador sobre o mestrando para que acelere, sendo exímio explanador, sua apresentação do exame de qualificação sobre seu trabalho realizado a respeito dos ganhos em laser de diodos semicondutores em função da injeção de portadores, um grupo de protozoários tripanossoma, membros do Reino Protista, do filo Euglenozoa, da classe Zooflagelatea e, com orgulho, da espécie Trypanossoma cruzi, investigam os tecidos das entranhas de um dos cupins para descobrir se de fato atingiram o hospedeiro intermediário adequado.
Nem cogitem pensar que é tranqüilo confinar os movimentos vibratórios do ar do exoesqueleto de queratina do inseto (barbeiro, supostamente) de modo a amplificar os efeitos Doppler em três dimensões a fim de localizar se hospedeiro favorito, nem investigar camadas e camadas celulares através do acoplamento do flagelo ao retículo endoplasmático das células hospedeiras e descobrir, para surpresa frustrante, que não se trata de um ambiente favorável ao acasalamento e proliferação e que também não conseguirão atingir o paraíso dos macrófagos e miócitos de humanos, seu hospedeiro definitivo...
São também, sim, senhores, heróis. Frustrados, mas heróis.
Afinal, quem é mais frustrado: o orientador da tese, o aluno de mestrado, os dois cupins perdedores, ou a família dos Cruzi? Ou ainda o cágado, membro da Ordem Testunidata e família Chelidae, que anda vagarosamente pela sala fechada roçando seu casco duro nas paredes brancas duras?
Teoriza-se que os protozoários são menos frustrados. Seus questionamentos, retirado todo o peso emocional da descrição toda, são de ordem existencial mais prática. Têm menos interrogações na mente. E as presentes, são mais objetivas. De modo que são menos, probabilisticamente, passíveis de passarem por frustrações irreparáveis e crises existenciais. Assim, mais dificilmente entristecidos, mais felizes, aptos a sobreviver e deixar descendentes do que os cupins, o cágado, o aluno, e lógico, o orientador. Perdendo evolutivamente apenas para as gramíneas de fora, supondo-se haver, pois o filme preto sobre os vidros dificulta a averiguação.
Traça-se aqui um exemplo da Teoria Evolutiva da Aceitação, em que seres são mais evoluídos quanto menos são os questionamentos contra os quais se debatem, desfrutando de uma existência mais serena, numa esfera mais pacífica.
De onde se conclui que somos da espécie mais primitiva, sendo o orientador, sem dúvidas (e com todas as dúvidas, suas) um dos mais primitivos de nossa era...
BIU
05-01-2006

Aprendendo

A tonga da mironga do kabuletê
Vinicius de Moraes / Toquinho

Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê
Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê
Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê


Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa Houaiss

Tonga
Acepções■ substantivo de dois gêneros Rubrica: etnologia. 1 indivíduo dos tongas v substantivo masculino Rubrica: lingüística. 2 língua banta falada em Moçambique e no Zimbábue ■ adjetivo de dois gêneros 3 relativo a tonga (acp. 1 e 2) ou próprio do povo desse nome ■ substantivo masculino Regionalismo: Angola. 4 campo para capinar, para desbravar 5 Regionalismo: São Tomé e Príncipe. filho de pais estrangeiros nascido na República Democrática de São Tomé e Príncipe tongas ■ substantivo masculino plural Rubrica: etnologia. 6 grupo étnico que habita a parte sul do rio Save, grande parte de Manica e parte da província de Tete, em Moçambique Etimologiaquicg. tonga ou thonga 'corpulência'

Mironga

Acepções■ substantivo feminino 1 mistério, segredo Ex.: as m. de umbanda 2 altercação, briga Etimologia segundo Nei Lopes, quimb. milonga, pl. de mulonga 'queixa, injúria'
Sinônimos ver sinonímia de feitiço

Cabuleté
Acepções■ substantivo masculino Regionalismo: Brasil. Uso: informal. indivíduo desprezível; bisbórria Etimologia orig.duv., talvez do quimb. mubulute 'vagabundo'

3.1.06

Tua criação e sua invenção

Iniciação

E nem mais existirá a esperança do trágico...
E no vazio,
em vão apelareis para as grandes catástrofes,
para a vaidade do ranger de dentes,
para o pavoroso das formas não de todo feitas,
sob o terrível das forças verticais...
Sumirão as espadas suspensas de fios,
sumirá a mão que escreve nas paredes
do festim velho,
e a esfinge dormirá nas areias eternas...
Somente o segredo, acordado, no caminho claro,
na encruzilhada de todos os caminhos,
andando na tua frente, desvendado,
mais difícil de crer do que de decifrar...
Teu pensamento, tua fé e teu desejo,
criando, à tua escolha, o teu destino...
E se fores forte,
olha bem para cima,
para ver como é sorrindo
que morre o teu Pai...

João Guimarães Rosa - poema "Iniciação" do livro "Magma" (pág. 71)



Um bicho que se inventa
Ferreira Gullar
Folha de São Paulo - 01-01-2006 - Ilustrada

Toda pessoa necessita que as demais pessoas a reconheçam tal como ela acredita que é, tal como se inventa para si mesma. Isto significa que, porque somos uma invenção de nós mesmos, o reconhecimento do outro é indispensável a que esta invenção se torne verdadeira. Por isso, se é certo, como disse Jean-Paul Sartre, que "o inferno são os outros", é certo também que está neles o sentido de nossa existência.
Um recém-nascido não é ainda um cidadão, quase diria que, a rigor, ainda não é gente: trata-se de um bichinho que traz consigo, potencialmente, todas as qualidades que o tornarão de fato uma pessoa. Sim, porque uma pessoa, mais que um ser natural, é um ser cultural.
Certamente, não pretendo dizer que a pessoa não seja o seu corpo material, esse organismo que pulsa, respira e pensa; tanto é que, sem ele, simplesmente ela não existiria, e é nele que repousam todas as qualidades que permitirão o surgimento da pessoa humana que cada recém-nascido se tornará.
Mas não há nenhum fatalismo nisso. Se é verdade que o recém-nascido já possui qualidades e traços próprios que o tornam diferente de todos os outros, não significa que se tornará inevitavelmente o indivíduo X. Não, o que ele se tornará -e é imprevisível- dependerá em boa parte de como assimilará os valores que a educação lhe ofereça. No princípio, o que ele aprende são as normas básicas de sobrevivência e convívio. Só mais tarde conhecerá os valores que absorverá de acordo com suas idiossincrasias, face aos quais reagirá de maneira própria e, assim, irá, passo a passo, se formando e se inventando como ser humano.
A sociedade humana foi inventada por nossos antepassados. Quem nasce hoje já a encontra inventada, material e espiritualmente, com seus equipamentos, valores e princípios que a constituem e definem. É dentro desta realidade cultural, complexa e contraditória, que ele vai se inventar como indivíduo único e inconfundível.
Porque cada um de nós quer ser assim: único e inconfundível.
Viver é, portanto, inventar-se: inventar sua vida, sua função no mundo, sua presença. Obviamente, nem todos têm a mesma capacidade de inventar-se e reinventar o mundo. Alguns levam essa capacidade a ponto de mudar de maneira radical o universo cultural que encontraram ao nele integrar-se, como o fizeram por exemplo Isaac Newton ou Albert Einstein, Sócrates ou Karl Marx, William Shakespeare ou Wolfgang Goethe, Leonardo da Vinci ou Pablo Picasso...
Mas a humanidade não é constituída apenas de gênios, que, na verdade, são exceções. Não obstante, todas as pessoas, em maior ou menor grau, se inventam e contribuem para que o mundo humano se mantenha e se renove. Aliás, se os gênios contribuem para a reinvenção do universo cultural -que é o nosso espaço de vida-, a vasta maioria das pessoas é responsável pela preservação do que já foi inventado. Por isso mesmo, a maioria é conservadora e freqüentemente resiste às mudanças e inovações. É que essa maioria não tem noção de que vive num mundo inventado, de que a vida é inventada e de que os valores, que lhe parecem permanentes, também o são. Eles não foram ditados por nenhum ente divino, mas inventados pelos homens conformes suas necessidades e possibilidades. E também, conforme elas, podem ser mudados.
O homem é o único animal que se inventa e inventa o mundo em que vive. A colméia, que a abelha fabrica hoje, tem os casulos da mesma forma hexagonal que tinha desde que surgiram no planeta as primeiras abelhas. Já o habitat humano vem mudando desde sempre, da caverna natural ao casebre, que se transformou em aldeia, povoado, cidade até chegar à megalópole de hoje. O homem, para o bem ou para o mal, mudou a face do planeta, utilizou os recursos naturais para produzir seu mundo tecnológico e dinâmico. Mudou a natureza, alterou o seu funcionamento biológico, meteorológico, sísmico. Seu habitat é primordialmente a cidade, esta complexíssima máquina que só funciona graças à tecnologia que inventamos e desenvolvemos incessantemente.
Quando digo que o homem se inventa, não sugiro que se trata de mera fantasia sem base na realidade . Newton inventou o cálculo infinitesimal, linguagem das ciências exatas, que não existia. A ciência inventou as leis da física, que sempre atuaram na natureza, mas que eram como se não existissem no entendimento humano. As invenções da arte são de outro tipo: Shakespeare inventou a complexidade da alma humana que, se não fosse ele, estaria como se não existisse. Ou seja, a partir da natureza ou de sua imaginação, o homem se inventa e constrói um universo cultural que é seu verdadeiro espaço de existência.
O homem criou também, além do mundo material, além da ciência e da técnica, o mundo simbólico da filosofia, da música, da poesia, do teatro, do cinema. Inventou os valores éticos e estéticos. Inventou a Justiça, embora sendo injusto. E por que, então, a inventou? Porque quer ser melhor do que é, quer -como disse o poeta Höderlin- "ultrapassar o campo do possível". Inventou até Deus, que é a resposta à fatalidade da morte e às perguntas sem resposta. O homem inventou Deus para que este o criasse. Filho dileto de Deus, pode assim aspirar à ressurreição.

2.1.06

Fim de ano

2005

Casulo ano
Metamorfose ano
Ano
Repleto de ângulos,
Vieses novos
Ainda vaporizados
Vórtice ano
Realidade
Pelo estreito viés de poesia
Viesia
Difratada

Mortes plácidas e horrendas
Massacres
Amores
Vapores
Linda vó
Tia doce, bem doce
Odores
Motores
Cintilante desespero de cheiros
Morenos
Pavores
Pânico
Amores cipós no inferno da mente
Até um verdadeiro, penso
Imenso
Colhê-lo
Amá-lo
No embalo de ondas incessantes
De questão

Corrupto ano
Falcatruas
Cuecas peruas nuas
Santo ano
De papa novo!
Reciclando
“Preguiça de viver” ano

Assassino ano
Do herói que devia ser
Parto ano
Do humano que pode ser
Doloroso ano
Desafiando a solidão
Professor ano
Da grandeza do que é sobre o que poderia ser
Do que está para o que não é
Nem nunca será
Vitória do que é

Vitorioso ano
Suicida ano
Palestina ano
Londres
Bombas sondas
No inferno humano

Mapa ano
Dos tesouros nossos
Poucos
Humanos
Amor, prazer, dor
Frágil ano
Sou humano
Humano
Nunca mais ano
Sempre ano
Temperado ano
Diabo ano

De sorrisos desesperados
E débeis soluços
Mas verdadeiros
Amor ano
Ando
Erguendo a fronte
Ao desamparo humano

Tsunami ano
Katrina ano
Wilma ano
Peregrino ano
Mais um...
Ao equilíbrio engano

Magma ano
Viagem à Catarina
Paraitinga
A Bueno Brandão
À riqueza da capital
Ao limbo
Ao coração
A Bersabéia
Ao futuro em vão

Meses gordos
Mensalão ano
Tricolor ano
Tricampeão

Calvino ano
Ronaldinhos ano
Vó em descanso
Passar um pano
Buxando
Bush ano

Amor ano
Balanço
Gangorra
Decotado ano
Kamikaze ano
Tera ano
Miudezas
Paixão ano

Sutilezas
Películas de real
Pelicano
Insano
Socorro ano
Mundo ano
Mundano

Gincana de sentimentos
Inventário do mudo mundano
Irremediável
Riscado

Frisante ano
Frisos
Vieses novos de poesia
Bolhas nuas
Fecha ano 5
Abre o 6
Achado
Protegido
A um sereno ano
Recheado de vôos
Oceano


BIU
31-12-2005




Arruaça
Para a foto das páginas 60 e 61 do número 7, ano II, da resta “Porto Seguro Brasil”

Brilham pontos na escuridão
Espiralando
Bocados mais juntos
Rodando
Sopros mais antigos
Brincando
No sem-fim da imensidão

Disputam mais negros olhos
Branqueando
Dobraduras na tez da noite
Serpenteando
Vias-lácteas no açoite
Bagunçando
Quem arde mais a retina dos povos

Ondulam ao perfeito acaso
Arranhões
De negrura pelos vales
Molecando
De montanhas sob neves
Balburdiando
Ao trazer impressões do universo

Jorram bem ali no meio
Cuspidas
Nervuras de arruaça
Trepadas
Rindo a qualquer ameaça
Gargalhadas
Como quem brinca sem arreio

Então que no olhar da fronte
Matutado
Destoa textura aos véus dada
Inocentada:
Só a pele do moleque de Rosa
Nadando
Na vereda de São Romão, esbalda o Rio da Ponte

BIU
29-12-2005

27.12.05

Suspensões Dependuradas

poema mecanóptico-relativístico
A FORÇA DA POESIA É SUA RESULTANTE NULA
ESSE EQUILÍBRIO TOSCO
SUA LUCIDEZ FOSCA
E A SUFOCADA AGONIA DE FAZER-SE SEM SENTIDO,
ALMEJANDO O DESTERRO DO DESTINO INSOSSO,
COMO A VIDA DEPENDURADA NO RELATIVO
COM TODA SUAS NÃO-RAZÕES...

BIU
22-12-2005



Teso em suspensões ilusórias, do
caos temperado no limiar do medo
mãos dadas e distantes
de zero à cem por hora, dentro de que hora?

onde está pergunta meu coração duro
mas onde está o que responde minha alma...
essa fatalidade de viver para morrer?
esse sonho de não ter o que?
para que tudo isso
grampeador,
medidas,
grifos
traços
rolhas
percevejo
seusujeira
surrealismo infiel
nada é suficiente,
nada é estável
como poderia ser...
telefone
livros
maçanetas e chaves
ovos
leite
deus
barro
hummmmmmmmmmmmmm,

O telefone toca, o passáro toca
o corpo na grama toca
cêu azul, nuvem branca
limão, maçã, dedos
fins que não justificam os meios
tolice e seriedade, compromisso e atraso
câncer e hematomas
cubista mundo.

Imbecil mundo....

Zé Ortega

20.12.05

Consultório

Ampulheta
Especialidade 1: Oftalmologia
Exame 1: Olho no Olho
Diagnóstico 1: Cegueira por condensação vítrea
Terapia 1: Dar vida ao ver, Viver
Especialidade 2: Odontologia
Exame 2: Bate-papo
Diagnóstico 2:
Hipertração da ATM oclusante
Terapia 2: Mastigar e nutrir-se de Poesia
Biu
20/12/2005

19.12.05

Tempo de compras...

Crônica de uma vitrine

Num futuro não muito distante, seremos todos manequins: magérrimos, traços perfeitos, pele, cabelo e olhos inalteráveis.
Presos a uma porosidade áurea, perfeitos, imóveis; com o olhar ao infinito; indiferente ao mundo e, inclusive os ouvidos, entupidos de cera.
E então seremos eternos, eternamente exibidos, olhados, admirados e expostos numa vitrine das lojas de grife (no futuro, todas as lojas o serão), invejados por outros igualmente perfeitos, eternos e encantados, hipnotizadas pelo horizonte indefinido - e, por serem eternos, não invejam nada.
Para sempre sem dores, inertes ao mundo, ao tempo, às opiniões e às emoções, sem dores. Mortos, pois não há vida sem morte e ambas, sem dor. Mas eternos, finalmente eternos...

16.12.05

"O fim e o principio" - I

A Eduardo Coutinho

I

O sol sutura a pele
Do rosto içado ao chão de tudo,
Metido no escuro da face
Marcada do ferro solar arguto
Como cu(o)mprido sem justo ditado:
Mais do que a enxada,
É o mesmo sol hirto
Que castiga do mundo a terra
Devastada
Evacuada
Trucidada
Esturricada

BIU
05/12/2005