15.9.06

Alargamento


"A arte é uma contribuição para o alargamento da consciência do novo ou do desconhecido e para a modificação do homem e da sociedade. É necessário que a arte se converta em fator funcional de estética e humanização do processo civilizador em todos os seus aspectos. A função do artista deve ser a de contribuir para a conscientização das grandes idéias que formam a nossa realidade atual.”
Koellreutter

1.9.06

Carga


“Sob(re) o Tempo”

Antes de tudo, ou seja, nada
É preciso, o tempo, defini-lo
Se reflito, como hei de explicá-lo?
Se o faço, tomo sua medida

Um dia...
...É o intervalo que separa
Dois sonhos, duas fronteiras
A realidade desmascara
A fantasia que se queira

Um ano...
...É a distância que divide
Dois corpos, duas jornadas
A convergência é o limite
Que define esta empreitada

Muitos sonhos se sucedem
Nestas jornadas distintas
Todos eles me acometem,
Reencontrá-la, amor, ainda...

J.R. Mialichi

31.8.06

Infatilidade?


Cartum da Criação

Ele come ele que come ele que come ele que come isto que come aquilo que come poeira. A poeira leve do chão.
A cadeia alimentar viciada pelo instinto comilão.
Predador e presa confundidos no ciclo do vôo ao chão.
A não ser que seja um gato acrobata do circo de Vostok, sua ansiedade é o seu caixão.
Vê-se tudo aqui: do alpiste inofensivo e digerido ao cachorro bocarrão.
O pássaro protege-se na prisão, com olhar de garanhão.
O gato inquieta-se por um pássaro fujão.
O cachorro bojudo espera o salto refeição, bobo de satisfação e com a sensação de pança cheia. O rabo abana o seu dono.

Provocação
Uma nota cantada de insinuação.

Um pulo certeiro: fuça na grade guardião.
Está aberta a saída, o portão da imensidão.
O gato esperneia, despenca e faz um arco apoiado nos dentes do comilão.

Eis que nosso pássaro espertalhão alça vôo e libera a rajada de restos de alpiste.
Lambuza gato e cachorro e voa um canário bem safado, com olhar maroto e um traseiro artilharia pesada.

OS: até parece uma metáfora boba, mas sei lá: instinto criador enjaulado, esperado pelo ego, esperado pelo bocarrão do superego. O que se busca então é a rajada na arrogância, um vôo livre e leve depois do cagão.

25-03-2006
Felipe Modenese

30.8.06

Jornalismo Literário II - Feiticeiros

Artesãos da captura
Felipe Modenese /ago 2006

“Nada é mais seguro da própria recompensa do que a serenidade, pois, no seu caso, recompensa e ação são uma coisa só.”
A. Schopenhauer


Todos os dias, homens reúnem-se num quintal para costurar. Continuam na lida até que o serviço esteja terminado. Além de paciência e habilidade, têm em comum o sobrenome Alexandrino Daniel. São membros de uma família de pescadores do bairro Campeche, em Florianópolis. Há anos encontram-se para reconstruir a rede usada durante os meses da pesca da tainha.
Homem, ambiente e trabalho. Um emaranhado de palavras procura reconstruir excertos desse cenário.



****Chegadas****

Um banco de madeira em frente de um rancho sustenta três senhores sentados.
- Boa tarde! – aproximo-me pelas costas.
Por um breve período, a voz estranha aos ouvidos suspende a atividade. Enquanto retomam, apresento-me e peço licença. Minha presença causa pouco desconforto aos homens. A reação tranqüila do trio indica que o mundo tem pouca novidade a apresentar e, junto da aparência física, mostra a idade avançada do grupo.
Um pedaço de bambu apoiado nas paredes laterais de madeira ripada mantém distendido um trecho de algo que parece um enorme tecido, enquanto os senhores, sentados, fiscalizam o quadriculado de linha. O tecido esconde-se às dobraduras e os homens esticam o trecho da rede com os dois braços, como o faz aquele que está prestes a dar o primeiro passo dentro de uma mata fechada.
Chegam mais dois senhores para ajudar na tarefa. Ambos de cabelos brancos. Um bem mais velho que o outro. Depois de cumprimentos aos olhares, sem titubear, começam a atuar sobre o mesmo objeto.


**** “Táio” ****

Há 15 anos compraram a rede para a pesca da tainha. Há quatro transformoram-na numa rede “feiticeira”. Mas há muito mais estão na pesca
Passados os meses de maio e junho em que os cardumes de tainha aproximam-se da costa e a captura é farta, os donos da rede têm de reparar os estragos do uso contínuo e intenso. Ano após ano.
O rancho de madeira que guarda a rede fica no quintal da casa de seo Adriano. Ao lado, separada por um corredor de plantas, fica a casa do irmão, seo Chico. Os dois últimos a chegar são pai e filho: seo Euzébio, irmão mais velho de Chico e Adriano, e um de seus oito filhos, Daniel.
A rede, como contam, tem cerca de 600 metros de comprimento. São três “panos” superpostos: o do meio tem menor quadriculado, entre os outros dois de maior abertura. Compõem a chamada “feiticeira”.


Algum homem experiente, o “vigia”, fica num barco no mar na época da tainha. Os cardumes chegam, o que, segundo Seo Adriano, não é difícil de se saber porque “a água fica vermelha” e “qualquer um percebe”. O vigia logo sinaliza aos pescadores a espera. Os barcos saem da praia para o alto-mar, e a rede vai sendo solta. A extremidade com chumbo atinge o fundo e larga os panos na vertical. O barco vira e continua paralelo à areia. Voltam à praia num outro ponto, distante uns 200 metros da saída. Está feito o cercado com a rede, uma cortina que separa os peixes capturados dos livres para o oceano.
Cerca de 30 homens em cada extremidade puxam a rede, fazendo o arrastão do pedaço de mar cercado. O feitiço da rede funciona aí, quando peixes em fuga arrastam a rede do meio, menor, contra as maiores externas. O trecho da menor que ultrapassa um buraco da maior forma uma espécie de bolsa que deixa as tainhas aprisionadas. O pano quadriculado maior serve como uma estrutura de auréolas para muitas redes de caçar borboletas que se formam com o pano menor. O arrastão até a praia leva tempo e exige esforço.
As “lesões” nos tecidos da rede vêm dos enroscos durante o arraste e da coleta dos peixes emaranhados nas tais bolsas de rede. O embaraço é tanto que só a faca resolve.
A divisão das zonas de pesca da praia entre os donos das redes é muito bem definida, assim como a repartição dos peixes. Os donos da rede ficam com a metade da coleta. O vigia, barqueiros remadores e os puxadores ficam com partes proporcionais da outra metade. A pesca anual da tainha tem suas regras invioláveis.


**** “Retáio” ****

O banco em que estão sentados “tem mais de uns oitenta anos”, segundo seo Adriano. As tantas cicatrizes e o polimento envelhecido das bordas da tábua parecem desmentir o tom de deboche de seu dizer. Ao lado do banco fica um balde com agulhas de costura de redes de pesca e carretéis de linha de alguns diâmetros.

Seo Euzébio é perito com as agulhas: o carretel gira na areia da entrada do galpão e desenrola a linha que vai sendo atrelada ao instrumento com uma das mãos, enquanto a outra alterna as faces da agulha. Distribui os aparatos carregados de linha para os demais, dois de seus irmãos, dois filhos e um neto. Vai todo dia da semana ao encontro para o remendo da feiticeira. Sabe que é fundamental ao bom andamento do processo.
A vistoria minuciosa, mas nem por isso lenta, dos “panos” não deixa passar “buracos”. As braçadas localizam os defeitos da trama de linhas e persistem o dia todo curando o tecido da rede.
Canivete ou tesoura pendurado no pescoço, faquinha bem amolada apertada na axila ou nos lábios, os homens localizam os problemas e vão cortando e costurando fios com nós feitos com as agulhas até que certo buraco esteja sanado.
Vista e mãos não param de suturar habilidosamente as descontinuidades da rede a não ser para contar ou lembrar uma “estória” engraçada, uma piada ou para café, convocado pelas matronas das casas.
Seo Adriano conta que uma velhinha em depressão queria se matar com um tiro. Para não errar, perguntou a alguém o local certo do coração. A resposta guardada foi: - Fica dois dedos abaixo do peito. Quando Seo Adriano terminou dizendo que a velha foi para o hospital com um tiro no joelho, a gargalhada estourou. Logo voltaram ao trabalho.
Terminado o trecho do pano, os senhores decidem mudar e estiram outro trecho de alguns metros. Como são três panos de 600 metros de comprimento e 15 metros de largura (profundidade), em média, o trabalho requer uma boa dose de paciência, gosto pela coisa, assunto e dedos bem firmes e calejados pelos cortes do nylon. Algo nada difícil na família Alexandrino Daniel.

Adriano Alexandrino Daniel tem 80 anos. Seo Chico tem 82 e Euzébio Alexandrino Daniel tem 90 anos. Os filhos presentes têm cerca de 60 e o neto, em torno de 40.
Os três irmãos trabalham na pesca desde crianças. No início, quando Campeche não passava de uma vila longínqua, era apenas para comer. Depois, adultos, tornou-se uma renda extra. Mantiveram outra profissão, aposentaram-se e nunca deixaram a paixão.
A companheira de longa data de seo Adriano convoca com firmeza para o café da tarde. Seo Chico vai para sua casa. Seo Euzébio nos acompanha para o café com leite com pedaço de polenta. A conversa é pouca. Estão voltados ao trabalho.
De volta ao rancho, pergunto se gostam de vinho. O consenso afirmativo é um alarido. Ofereço para trazer vinho numa outra tarde, comprometo-me. Permanece o desejo de reencontrar aqueles homens no ofício, no rito silencioso da família de pescadores.
Costuram todos os anos as redes de memórias, cultivam a mente e o corpo em atividade delicada e tecem, na ação, motivos para uma vida sábia. São artífices de sua longevidade, retidos nos panos serenos de uma vida humilde.
Ao contrário das tainhas, deixam-se levar pela rede e tratam o inevitável com arte magistral.

****Gosto****

Sandálias de couro marrom sobre as meias bege, calça jeans azul marinha, malha branca sobre camisa azul clara de manga curta sobre camiseta cinza-escuro com um buraco abaixo da gola. Boné branco e azul de alguma peixaria. O bigode branco imbricado no rosto. As bolsas dos olhos caem levemente deixando à mostra a carne rosácea do verso das pálpebras inferiores. Juntos aos olhos claros, compõem o olhar profundo de Seo Euzébio.
Ao notar meu retorno, sua voz é baixa e pausada:
- Uhmm! Já tô sentindo o gostinho do vinho.
Os cumprimentos são orais. As mãos não interrompem o trabalho obstinado.

O trecho do “pano” está esticado por um gancho a um abacateiro e os senhores trabalham de pé. Começam às 8 da manhã, pausam para o almoço e continuam até às 4, 5 da tarde. Todos os dias da semana até que a fabulosa rede feiticeira esteja com seu quadriculado totalmente reconstruído, o que levará perto de dois meses.
Um outro filho de Seo Euzébio está presente dessa vez. É João. Além deste e dos irmãos, o neto pescador, filho de uma filha de Seo Euzébio, continua na lida. Imbatíveis na execução dos retalhos, os irmãos procuram trabalho, consertos para o arrastão bem sucedido do próximo ano. Remendam o presente para receberem as tainhas vindouras. Aos “pontos” pacientes, trabalham para o futuro bem preparado.
Escorre pelos descendentes da árvore genealógica dos pescadores um gosto pelo ofício; um visco de serenidade recobre o trato com as pessoas. A conversa sobre a pesca da tainha com o neto é tranqüila.
Os goles de vinho são tímidos se comparados ao entusiasmo da sugestão. Apreciam a bebida, mas conhecem centenas de casos de alcoólatras e desventurados. Molham a goela, controlam o “trago” e preferem o trabalho sóbrio. Sabem dos perigos das drogas e parecem não padecer de angústias que levam ao consumo desmedido de álcool. Não têm do que fugir...
Quando a assunto é política, os ânimos esquentam e as discussões colocam João e seo Chico em oposição. O manuseio fica atrapalhado.
Comparam os preços do litro de gasolina, reconhecendo-os um bom parâmetro da economia e da cadeia produtiva.
O mundo cabe numa tarde de corte e costura, nos remendos de uma rede feiticeira para a pesca sazonal da tainha no Campeche.
Enquanto seo Euzébio ajuda o neto no retalho de um buraco complicado, abrindo o pedaço destroçado, seo Adriano volta depois de um longo tempo dentro de casa, e retoma o ofício sem soltar uma palavra. Procura os buracos e retifica os quadriculados como se tentasse tirar o atraso, como se estivesse em débito com o pacto familiar silencioso.
Preocupado em abastecer-me de conteúdo, seo Chico conta estórias da região e detalha episódios da história brasileira com uma memória intacta e uma mente sã aos 82 anos.
Entretanto, ele não se deu conta de que o ritual que transcorre naquela tarde e que perdura por dezenas de dias é, por si só, mais do que assunto suficiente. É um tratado de habilidade para enfrentar a vida, uma lição de persistência de membros de uma família com um objetivo comum. Uma obra de arte encenada num quintal, a céu aberto, composta de movimentos lapidados pelas intempéries de décadas de vida em sociedade e de pesca. Um monumento vivo em que ação e recompensa fundem-se e ensinam a serenidade adquirida. Um patrimônio da raça humana.

*****Carona****

Quando deixei seo Euzébio em frente a sua casa, depois de um trajeto de conversas calmas e mágicas, e durante o qual me dei conta da relíquia que estava “transportando”, o senhor de 90 anos disse:
- Cresça e apareça, rapaz!
O que será que significa? Talvez seja uma retaliação pela “invasão” do ritual familiar. Talvez, um enunciado qualquer que lhe veio à mente na correria da despedida? Estávamos numa rua movimentada, e enunciara uma frase de efeito para o jovem inocente? Talvez, uma frase enigmática, carregada de significado a ser desvendado? Talvez tivesse falado ao meu espírito: só quando crescer aos solavancos de uma juventude poderá aparecer de maneira completa e serena no mundo?
Certo é que a figura detalhada de seo Euzébio e a sutura familiar da “feiticeira” cresce, toma conta da mente e aparece, recompõe-se em texto, esse tecido de palavras que ousa capturar algum significado. Muitos devem ter fugido...


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15.8.06

Domingo de rede varandado

Varanda

É fora
E dentro,
Abrigo e mundo,
Largo e fundo.
Mato e rede
Balanço
Do si em tudo
É berro e zunido,
Visão
E cabresto,
É brisa
E fejão fresquinho.
Arvoredo
E baiano assentado
Pestana
E pesadelo.
Ronco e coxixo
Bronca
E resmungo
Sombra
E respingo
É palco
E purgatório
É lama
E vaso,
Mãma e cachaça
É papo e sermão,
Namorico
E ralação,
Encontro e fuga,
É gravata
E samba-canção
Memória e vastidão
E dentro
É fora.
Varanda
E mais não.

Felipe Modenese
14-08-2006

3.8.06

Manhã de Sol Matutino no Campeche, Floripa

Suspensão

Fiapos de Poeira
No ar frio do domingo matutino
Revoltando nos faixos de luz venezianos
A brilhar e driblar em pendor
Despropositado

Carregam o movimento
Silencioso
Do dia intruso

Efeito

Memórias, vida, universo

Bagunçadas dos passos,
Cenas viventes
Trespassam
As tramas do eu

No terreno caminhado,
Aos vórtices em vértices,
Lembranças,
Incluso as planejadas,
Reverberam no universo-

Sentimento em Suspensão

Felipe Modenese
30-07-2006

28.6.06

Brecha promocional


Calo

Semeados na lavoura do tempo, comprimidos sentimentos eclodem em contexto favorável, necessários ao concreto esfolhear de uma natureza inalienável, enquanto Tamires deixa o fogo ferver.
O pó acomoda-se em ruínas e o sumo desterrado preenche a espelhada face aos pingos na madrugada enfraquecida.
O indicador leva a xícara até a boca aberta e o gole fervente recolhe o olhar pasmado no azulejo bege. Aperta os olhos e o liquido preto fervilha goela abaixo:
- Caralho, puta merda, porra! – num ato reflexo.
A língua queimada pressiona o palato de Tamires e as terminações nervosas escaldadas alarmam o sistema proprioceptivo, mas em vão. Como tantas outras sensações, as informações de injuria não afetam a consciência. Resvalam sem surtir efeito, como os galhos do sertão no couro sobre a pele cangaceira.
Repressão calejada ao longo de vinte e cinco anos de luto persiste sob o robbie azul-marinho muito bem enlaçado, arrochado na barriga, e nos dedos retesados dos pés em macias chinelas brancas, enquanto a Dona busca sua correspondência na caixa do quintal.
O verde do jardim descuidado não passa de uma sombra na retina quando Tamires transpõe o carnê de IPTU para trás dos envelopes e estanca o passo arrastado no concreto: uma lucidez jamais experimentada transborda a depressão.
Como lava escorrente, um plasma de interesse subitamente recobre as trivialidades do amarelecido mundo (tal qual placas de tártaro), e um sentimento de completude esfolheia no espírito de Tamires quando descobre a unicidade das imagens daquele papel: a queima de estoque de tevês de tela plana das Casas Bahia...

Felipe Modenese
Oficina CPFL 24-06-2006

22.5.06

CAMINHO DA LUZ

“A tela deve ser fecunda. Deve criar um universo onde, pouco importa, divisarmos neles flores, personagens, cavalos, contanto que revele ao mundo algo vivo.”
Joan Miró

“É a esse vivo que parece aspirar à pintura de Miró. Isto é, a algo elaborado nessa dolorosa atitude de luta contra o hábito e a algo que vá, por sua vez, romper no espectador, a dura crosta de sua sensibilidade acostumada, para atingi-la nessa região onde se refugia o melhor de si mesma: sua capacidade de saborear o inédito, o não aprendido.”
João Cabral de Melo Neto - amigo de Miró


Iaiá, Gló, Ioiô, Nana e Newsom vestem de palmas de mãos as pálpebras fechadas e caminham no desfiladeiro entre a palavra e o que de fato ocorre.
Por sorte, os ônibus não passam ali por perto e podem deixar o comodismo engavetado, a força do hábito exilada e vestir não-gravatas ao passeio borboletesco do dia. Desfilam no desfiladeiro sem achismos.

III


Pedra Dourada – Faria Lemos

Cidade pequena

Na praça de Farinha ao Menos,
Destroços de lemos e remos
Arpejam a jangada chegada
Toda esburacada de pedra dourada

A cidade faria, lemos
No parquinho da central ,
Destroçado,
Bons cidadãos se, ao menos,

Pendurasse cadeiras na corrente do balanço
(Cujos halos remanescentes oscilam em fase,
Assim como os cidadãos, em fase...
De jogar conversa fora
De segurar, sem questionar,
O queixo caído
De tanta emoção),

Prendesse tábuas de assento
No sobe-desce da gangorra
(Que nem sobe nem desce:
Permanece...
Inclinada como uma ponta enferrujada
Ao ar
E outra enterrada no liso da areia,
Aplainada pela chuva,
Sem ser brincada,
Enfiada na areia, inerte ao tempo,
Que, aliás, teima em não passar
No lugarejo enterrado na serra,
Num Sossego tremendo,
Sem pressa de mudar),

Colocasse o disco no eixo do gira-gira
E girasse, apenas girasse...
(Como o que sabe não poder decolar,
Mas interessa-se em conhecer
As redondezas do lugar de brincar
E brincar
No mundo tão pequeno
Panorâmico
Sujando-se da beleza do local
Girando
Humilde, mas consciente
De fazer parte de um projeto maior
E deixar a conformidade ignorante)

E acertasse o movimento basculante
Do brinquedo sem nome
(Assim como esta gente praça,
morando na paz de graça.
Gente evoluída que só:
Conversa e deixa o tempo passá,
Sem muita questão pra colocá,
Além de questioná se o tempo vai virá,
E se não tem mais o que fazê pra mó
De fazê a gente daqui dorá mais um tiquinho).

10-01-2006

IV



Faria Lemos a Carangola

Ciscos

As sombras de mãos duplicadas
Vêm das lâmpadas do poste com hastes encurvadas.
Brincam no papel enquanto
Jovens digitalizam suas vidas em fotos
Jogam baralho sob colunas de mármore
E decidem namoricos nas muretas da arvore.

10 minutos antes da última hora,
Vem a força aprisionada nos cristais do caminho,
Aglutinada com a calma das eras
E protegida sob copas de cerca viva e espinho:

A serenidade da natureza,
No embalo dos gritos de insetos,
Grilos, cigarras e sapos ritmados,
Aflora , desterra a beleza

Ciscos nos morros de mata salpicada
Não incomodam, mas botam pra fora,
Fazem chorar
O serpenteio do rio Carangola,
Um segredo na alma e no fundo dos olhos,
Uma estória:

O buxo rasgado da cordilheira
Pelo facão dos tropeiros,
A enxada dos cafeeiros
E os cascos do gado barranqueiro
Desfolha suas entranhas
Em lâminas encr(u)ist(r)adas
De terrena sabedoria:
Brilham a luz que colhem
Brincam com as energias que em si dissolvem
E ensinam como dar luz a um caminho:
Brilhar de amor por detalhes
E brincar o caminho em harmonia.

10 e 11-01-2006

26.4.06

V


















Carangola a Espera Feliz

Glória de Viver
A Glória

No caminho da luz, às cegas,
À sombra de avencas molecas
E de conversas mais que sinceras,
Sob prantos de bromélias aéreas,
Películas de mica embrochuradas
Projetam os cantos de pássaros
Em tábulas rasas de aflição
E ouvidos descrentes de visão.

Passo a pássaro,
Poucos tropeços vacilados,
Buracos violados
E paisagens exuberantes,
Excitadas em voz,
Compõem um mapa na mente
A partir de cristais excertos da infância,
Galhetos e gravetos arrancados
De cipós e brinquedos truncados;
Tal qual o teneném
Usa o pouco além
Para criar algo encantado:
Um lar dependurado
Nos fragmentos naturais maturados.

Ali a cria resplandece
E a alma em flor se banha,
Podendo tocar a própria tua;
Talvez guiá-la a um caminho iluminado
Por demais batalhado
Delineado pela essência nua.

Faz do construído um santuário,
Emaranhado claro de sensações,
Abrigo à paz e vida,
Breve, entretanto, às claras.

Tão familiar ao mundo,
Percorre-o de vistas fechadas;
Heroína de si mesmo,
A mulher revigora a força vivente,
Enlaceia a vida como um presente
E galopa a terra enferma
A recolher cíntilos de prazer,
Desejos de caminhar e viver.

Vê o que ninguém pode e
Explode em risada que sacode,
Afugenta o medo ausente
Com rugido de amor por entre os dentes,
Infiltrados pelas vilosidades da alma.

Constrói dos toques, gostos, cheiros e sons
Emaranhados um ninho no infinito suspenso:
Um lugar de viver encanto,
A Glória de viver aqui e agora.


11 e 15 - 01-2006

25.4.06

VI


Espera Feliz a Alto do Caparaó

Mucoviscidose
A Túlio

Os olhos lacrados
Percorremos
Trajetos obstinados
Definhamos
Sem atentar ao tentar
Fechar os olhos
E seguir os próprios passos
E os passos próprios.

Eis que gotas caem
Sob o peso da gravidade
E pingam no cruzamento
De diagonais:
Dispor-se e serenar-se.

Caem como líquido amniótico
Rápido
De um mero gestar
Esmero

Pálpebras cortinam
O perambular
Arrastando consigo
A chuva do mar;
Agora,
Só o caminhar
Simples como o oceano
Extenso a brotar.

A vista espera
Os olhos cerrarem-se
E experimenta
As asas abrirem
Antes de secarem
Aos sopros quietos;
Como uma borboleta,
Tomam consciência
Da nova envergadura
Prestes a voar.

E
Ainda escorre um muco viscoso
Da gestação da alma,
Quando o corpo fecha o olho vagaroso
Ao olhar dos pés a palma;
Bater as pálpebras
A um mundo novo
Voar as pernas
Por um caminho povo
E alçar a mente recém-despida
Ao destino tortuoso
Mas pleno
...
Aahh!!!
Isso, ao menos!

17-01-2006

20.4.06

VII


Alto do Caparaó ao Pico da Bandeira

Dádiva em fragmentos condensados

“O tempo é a dádiva da eternidade” – William Blake
“A totalidade do ser é impossível para nós. Assim, dão-nos tudo, mas de forma gradual.” - Jorge Luis Borges

Ao nível de nuvens soltas,
Cabelos ao vento ar puro
Serpenteiam livres de apuro
A captar sensações amorfas

Dobraduras sem fim
Entremeadas de rotas-minhocas
Laranjas, bradam por mim
E mostram o mundo sem tocas.
Toques de deus por entre fiapos
Iluminam do caminho da luz o fim
E traçam fugas aos aliados
Por um mundo melhor enfim.

Vapores do desespero
Anunciam o esmero
Por um trato sereno
A um perfil pleno.
Como um tato de glória,
Os olhos percebem o meio
E tocam tanta bandeira
Que descascam um país brasileiro
Fértil
Vigoroso
Viçoso.

Subir mais alto só pra ver
O vento rugir segredos
Nos ouvidos cegos
E despertar a fúria de viver,
Soterrada no dia-a-dia,
Embriagada no formol da rotina.
Encurralada, agora pulsa,
Ganha superfície e volume
Fagocitando beleza crua,
Expandindo o limite, incólume
Ao tão que lhe invade
E inspira a liberdade.

Brilha o país
E o planeta inteiro
Do Pico da Bandeira
Em suspiros de vitória
Por um caminho trilhado
Rumo a um eu herdeiro
De um desejo descabido
De viver tudo primeiro.

Cada passo
Todo o passo
Passo todo
Calculado em descalço,
Ciente do caso do descaso,
Revigorado ao máximo
De eterno retorno
Enquanto dura o passo
Derradeiro,
Mas passo a passo.

Tons de uma terra sui generis
Aquarelam o precioso
Nos olhos febris
Do espírito ocioso.
E abduzem,
Como as lâminas da eternidade
Nos fazem com o tempo,
Expondo fragmentos da totalidade,
Sombras coloridas no gradual
Condensadas no limite do real.

Ímpeto vital,
Presente,
Pluma da passagem do tempo,
Passa tempo
Anda
Caminha
Permanecendo no fugaz,
Ardendo de viver
Agora.
Assim como a luz
Que arde e caminha
Ao belo, infinito e eterno do agora
Em seu caminho, que nunca acaba.

13, 19 e 20 - 01 - 2006

17.4.06

Recre(i)ação

A realidade é a construção de dada comunidade, tentando tornar o mundo inteligível. Por isso a literatura refrata esse real e, ao mesmo tempo, faz refletir sobre a consistência do real, sempre relativo e conjetural. É o mundo mesmo que solicita e suscita o poeta em nós. Um poema, um romance, são formas especiais de conhecimento do mundo humano; modos de transfigurar a experiência, no esforço de lhe dar a densidade de um sentido. Ponto de intersecção entre mímesis e poiésis: o barro e a mão do oleiro; na circulação das palavras, a seleção singularizada no poema – corpo novo que é imagem da permanente recriação do mundo.

Extraído do Ensaio "Mímesis e Poética: entre criar e imitar
de Lourival Holanda
(nº 62 da Revista Continente Multicultural- fev.2006)

12.4.06

Poesia atual - artigo


Palavras criam realidades
A ampliação das formas de representação estética tem como corolário uma outra visão da realidade. Toda mudança de paradigma provoca o entusiasmo e o desconforto, a apologia e a negação furiosa

Por Claudio Daniel
Paul Valéry, em conhecido ensaio publicado em 1939, estabelece uma distinção entre a prosa e a poesia, afirmando que a primeira assemelha-se ao andar, e a segunda ao dançar. Estas imagens remetem ao caráter mais utilitário da prosa, onde importam a clareza e o sentido, enquanto na poesia contam mais o andamento rítmico, a construção de paisagens, a estranheza vocabular e sintática, o trabalho com a metáfora e outros recursos lingüísticos, que atribuem ao texto seu valor artístico. Na prosa, está em primeiro plano a função comunicativa, conforme o conceito de Roman Jakobson: o que vale é a informação, e podemos pensar aqui num manual de medicina, num código jurídico, num tratado de filosofia ou em livros de sociologia ou contabilidade. Já na poesia, onde o artesanato semântico é ele mesmo a informação a ser transmitida, temos a função poética, o sentido construído pela forma. Sem dúvida, essa distinção entre prosa e poesia admite exceções: obras como o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, as Galáxias, de Haroldo de Campos e o Catatau, de Paulo Leminski, são textos em prosa permeados de poeticidade, numa voluntária superação de dicotomias, sinalizando também a dissolução das fronteiras entre os gêneros. Por sua capacidade de fluidez, simbiose e mutação, a poesia relaciona-se com outras formas de escrita, perturbando-as, criando uma instabilidade textual, distante de qualquer idéia de imobilidade ou permanência. Sendo um pouco mais audaciosos, podemos pensar na poesia além da própria literatura, manifestada na canção, no balé, na pintura, no drama cênico, enfim, em todas as criações onde a linguagem está enamorada pela linguagem. Tudo é a arte da poética, de certa forma, quando o dançarino, a dança e o dançar são um único e inquietante movimento. Como afirma Antonio Risério, em seu Oriki Orixá, a poesia não se restringe ao código escrito, inclusive por ser anterior a ele: os primeiros poemas de que temos notícia pertenciam à tradição oral (como os mitos fundadores indígenas, africanos ou escandinavos) e eram transmitidos na forma de canto, com a colaboração da música, coreografia, vestuário, mito e símbolo: arte mágica, onde cada palavra não era apenas a representação de uma coisa e, sim, a própria coisa, na forma de som. Não se tratava de imitar, mas de criar realidades, numa síntese entre estética e teurgia. Disso resulta o caráter sagrado, de invocação, dos mantras indianos e dos orikis nagô-iorubás: ao pronunciarem o nome de seu deus, este era corporificado como vibração sonora (o que hoje chamaríamos de isomorfismo, o conteúdo igual à forma). O caráter mágico ou encantatório da poesia, sem dúvida, estava relacionado a formas de pensamento analógico e ritualístico, mas podemos ver suas irradiações em toda a evolução da escritura poética, que nunca renunciou à vocação taumatúrgica de construir universos “com sua própria fauna e flora”, no dizer do poeta chileno Vicente Huidobro, protagonista do criacionismo. Coube às vanguardas históricas, aliás, a recuperação da visualidade, do gesto e do movimento na poesia, aliando a pesquisa fônica a toda sorte de recursos expressivos.
Quando se censura a vanguarda por seu suposto hermetismo ou obscuridade, os anátemas são aplicados à sua “extravagância” formal, mas também a sua “ausência de conteúdo” ou “alienação” (para recuperarmos uma acusação de heresia habitual nos anos 60 e 70). Os poetas experimentais estariam distantes da “realidade” e do “mundo”, isolados em modernas torres de marfim. Caberia perguntar, aqui, quais são os conceitos de “realidade” e de “mundo” defendidos por esses críticos, e que estão na essência de textos literários de imediata compreensão, mas escasso valor artístico. Para os acadêmicos de formação sociológica, discípulos do modelo desenvolvido por Luckács, a realidade é um fato imediato e objetivo sujeito à investigação científica, enfatizando aspectos econômicos ou sociais, dentro de uma linha histórica evolutiva. Essa concepção, que dominou o cenário europeu nas primeiras décadas do século passado, está eivada de certo determinismo (diríamos até fatalismo) que considera todas as criações intelectuais ou estéticas como subprodutos da cadeia produtiva. A partir dessa visão, de indiscutível miopia, surgiram propostas como a do realismo socialista, que intentou ser o “espelho do real”, refletindo as injustiças do capitalismo e projetando, ao mesmo tempo, a futura redenção socialista (considerada inevitável, dentro de uma perspectiva retilínea e darwiniana da história).
Na literatura brasileira contemporânea, essa expansão do sentido pela construção inusitada ou excêntrica é visível em autores como Horácio Costa, Wilson Bueno e Josely Vianna Baptista, precedidos pelo Haroldo de Campos de Galáxias e dos estudos sobre o barroco. Em seu livro A Arte no Horizonte do Provável, o poeta paulista fez uma interessante distinção entre a abordagem diacrônica da literatura, baseada num fio evolutivo histórico, e a sincrônica, que busca relações de proximidade entre autores de diferentes períodos epocais. Esse é o método que utilizou em seu estudo “Uma Arquitextura do Barroco” (em A Operação do Texto), que aponta afinidades entre autores tão diversos como o cubano Lezama Lima, o grego Lícofron, o brasileiro Sousândrade e o chinês Li Shang Yin, distanciados na geografia e no tempo regular, mas muito próximos em seu ostinato rigore e capacidade imaginativa. Essa aproximação, que a princípio pode parecer arbitrária e impulsiva, é fundadora de uma concepção literária e filosófica que animou os autores mais inventivos da América Latina, a partir dos anos 70, dentro dessa vertente que se convencionou chamar de Neobarroco. Num poema como “O Napoleão de Ingres”, de Roberto Echavarren, por exemplo, temos uma collage de signos de diversos territórios e culturas, apontando a mestiçagem, a impureza, o paradoxal e o ambíguo como elementos constituintes de nossa realidade: “A cor da seda, sua textura / são quase metálicos: um zepelim no céu / azul-da-prússia, um dragão chinês / voando em seu troar de metais”. Essa mescla de elementos díspares remete à própria formação social e cultural latino-americana, que cozinhou no mesmo caldeirão signos e referenciais europeus, asiáticos, indígenas e africanos, numa antropofagia que perdura até os dias de hoje. Além da diversidade, a desigualdade da convivência entre tecnologia e subnutrição, crescimento industrial e miserabilidade, erotismo e religião, entre outras manifestações contraditórias do nosso continente, colaboram com o conceito do Neobarroco e sua visão de um mundo plural, irregular, multifacetado, sublime e trágico.
(texto incompleto publicado na Edição Nº62- Fevereiro de 2006 da revista Continente Multicultural)

31.3.06

Exercício

Passei(-)o Passado

“O tempo é uma dádiva da eternidade” – Paul Valèry

Cachos bojudos de uma pequena árvore denotam quase tudo. Passeio. Passei-o sem vê-lo. Sem notar seu microcosmo:
Cachos em flores e frutos. Esparramados na curvatura da copa.
Flores túrgidas de pólen e polinizadas e frutos assementados. Além de uma variedade rica de estados intermediários. Etapas num continuo processo de metamorfose.
Vida.
Rasgados, abertos, hirsutos languidamente. Costurados, lacrados, pasmosos de natureza.

Meus pés catatônicos pararam e fitaram por necessidade.
Mil e um polinizadores revelam sob a sombra da correria cotidiana: mangavas, moscas varejeiras, percevejos, formigas, borboletas. E as flores e frutos. Agentes transformadores da situação, instintivamente. Dinamizam ações imediatas no organismo árvore. Pululam. Insetos espreitados seguem seu rumo caçoando da tentativa de tornar palavras o sistema vigente. Gozam com seu zumbido da pretensão humana. Zzzziiiiiii...
Nutrem-se de um visco oleoso e sintetizado na máquina árvore. Filtro divinizado no tempo. Glorificado pelas intempéries.

Como deixar de notar o silêncio infinitamente ativo de uma pequena árvore, florida de boas-vindas ao Outono. Cuspindo semente e pólen, um pó lento, uma nuvem que deixa a visão turva de emoção, uma medusa aos pensamentos. Pó lento revelado por poucos feixes de luz que dão contorno a nuvens no céu matutino.
Os pés descalços, num caldo de folhas caídas - não mortas - mergulhados numa travessa de grama verde pontiaguda, ainda suadas da respiração noturna. Como espadas de verdura, sangram o silêncio de uma noite transcorrida.
Insetos frenéticos e calmos buscam... percorrem um estame apenas ou a copa inteira. Pés molhados de um melaço do tempo.

Entro na árvore como quem procura causar a menor perturbação possível numa laguna glacial enfiada entre picos dos Andes ou o menor desmoronamento possível em dobraduras de areia nas dunas dos Lençóis maranhenses.
Sob a copa, como de dentro de uma oca, notam-se os movimentos infinitos, a intimidade da dinâmica de uma copa de árvore, de uma aldeia em extinção. Por frisos de galhos e flores, movimentos rápidos e lentos, frêmitos. Com seus rituais, sua pouca roupa, suas tintas, cocares e adereços, a tribo sui generis agarra sua tradição.

Não se pode resistir à tentação de abraçá-la, enfeitiçar-se de tanta nervura, de tamanha alvura, de algo tão vivo sem lambuzar-se todo e grudar em si um pó lento, uma descrição íntima autentica e espontânea: a minha polinização de emoções, reverberadas em palavras da indiferença do mundo todo.
Sim, estou incrustado de pólen. E esparramo-os aqui, por necessidade. Como o pintor raspa o dedo de tintas na lateral da palheta, ou o padeiro que esfrega as mãos na quina da bancada, ou alquimista que espreme suas mãos de pólvora em panos de algodão, ou o padre que toca os cantos da boca lambuzada de farelos e uva, ou ainda o físico que glorifica suas equações e símbolos enigmáticos na largura do quadro. Esparramo rápido. Para poder agarrar de volta meus instrumentos de lógica cartesiana (mesmo que seja a da física quântica), precisão matemática, erudição invejável e escrotice inalcançável... Um inseto absorto em incompreensão expelida em termos, palavras, poesia...
Talvez, as palavras sejam mesmo isso: incompreensão. Fuga de uma emoção eterna. Não suportamos o eterno. E por isso, foi-nos dado o tempo! Necessidade.
Ajoelho diante do caule, franzino e robusto, abraço a árvore... Rezo.

Felipe Modenese 25-03-2006

21.3.06

Farpas do território solidão

Raspas de Rilke

Solidão
Suportada,
Vida,
Desriscada da filogênese
Traço curto
No cristal da criação
Raspas do halo
Turbilhão
Do encontro dos veios
À margem da escuridão
Limite espiral,
Desconcerto de inquietude
Contínua e silenciosa
Solidão

BIU
16-03-2006
Meu território (1998)

Como um inseto
livre sujo
eu rastejo
procurando na superficíe redenção
sob pressão eu misturo
as palavras honestas
elas não mostram o que eu sinto
só demarcam meu terrritório
sujo livre
das suas sujeiras que não são minhas
mas que carrego nos meus pés
que demarcam meu território
longe de você só há uma saída
que não procuro só achando
nos meus sonhos feitos de sujeira
e liberdade
eu me revelo doce
quando você instiga a violência
que existe
sob meus pés
sujos e fracos
e que não pedem descanso
para serem limpos
sonho com você quando sonho comigo
e estou sozinho
novamente
procurando
por você
nesse espaço
já marcado por
mentiras
suor
e lágrimas
que não são
suficientes
para limpar
meus pés
Du Gil