15.2.05

Poesia

A poesia não é uma expressão do ser do poeta.
A poesia é uma expressão do não-ser do poeta.
O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.
Escrevo para me completar.
Minha escritura é um pedaço arrancado de mim.
Escrevo porque tenho sede e não sou água.
Sou pote.
A poesia é água.
O pote é um pedaço de não-ser cercado de argila por todos os lados, menos um.
O pote é útil porque ele é um vazio que se pode carregar.
Nesse vazio que não mata a sede de ninguém pode-se colher na fonte, a água que mata a sede.
Poeta é pote.
Poesia é água.
Pote não se parece com água.
Poeta não se parece com poesia.
O pote contém a água.
No corpo do poeta estão as nascentes de poesia.
Não.
Não escrevo o que sou.
Sou pedra. Escrevo pássaro.
Sou tristeza. Escrevo alegria.
A poesia é sempre o reverso das coisas.
Não se trata de mentira.
É que somos seres dilacerados.
O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está.
O poeta escreve para invocar essa coisa ausente.
Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetyivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade.
"Like a bridge over troubled waters..."
O que escrevo é uma ponte de palavras que tento construir para atravessar o rio.


Rubem Alves (na página de virada do mês de outubro da Agenda Carpe Diem 2001)

14.2.05

Homenagem

fim de tarde
Fim de tarde, com a suavidade da luz recuando devagar e a mansidão do tempo no seu ritmo remansoso. Artes de desconhecimento urdindo-se espertamente para criar essa intensidade tão própria. Fim de tarde de verão, abrandando o calor e soprando meigamente essas brisas avulsas. Reticente por pura precisão, o tempo arma suas volutas de fragilidade e nelas vai sendo leve e levita. Como um livro-luva, impresso por transparências, direito-avesso entrelaçados amorosamente pela fluidez da página, arborescências imaginárias por gosto e vivacidade, eternidade daquele exato instante, algazarra de fadas ligeiras e pétalas.
Rubens Rodrigues Torres Filho em "Poros" - 1989
mas o cisco


Corre o risco de escrever.
O risco da escrita corre
pela página deserta
se meu coração disserta
sobre o susto de viver.

Mas o cisco de entrever
colhe o disco da pupila
nos sulcos do acontecimento
no giro do acontecer.

Rubens Rodrigues Torres Filho em "O vôo circunflexo" -1981

11.2.05

Samba e Vida


Amor no Coração

"Quem viver verá que não foi em vão, eu quero é muito amor no coração
BIS
Meu samba não tem dose certa é um grito de alerta
Mensagem do nosso povo
É, oh, pois é, uma palavra de amor que não se apaga com a dor BIS
Acende um sorriso no.....vo
( E no coração )
No coração festeiro, verdadeiro, brasi......leiro
Se faz a esperança em todas as crianças: os herdeiros
De nossas raízes, dos dias felizes que temos pra dar
O que é seme.........ado no nosso roçado
Se quiser vai plantar ( Chega de me dá me dá ... )
E chega de me dá me dá, agora é toma lá dá cá
E chega de me dá me dá, agora é toma lá dá cá (Vai ecoar ... )
Vai e....coar, nos quatro cantos da terra
Nosso brado de guerra contra o fantasma da opressão
Simples como a gota do oceano
Trago do cotidiano trincheiras contra a invasão."



Quem viver verá

Não ver o viver, apenas fazê-lo: máxima da Infância.
Embevecida da naturalidade, de suas peripécias vem sua magia.
Pureza materializada à vista da vida, na simples ignorância: Pra que ânsia?
Quem viver verá tanta luz, conhecerá a vida e não a nostalgia.

Adolescência: Espírito oposto, buraco negro de cujas garras nada escapa.
Estágio escultor de valores, dos desejos das descobertas:
Amor, sonho, um sistema, normas, o medo, a poesia. As portas são abertas.
Quem viver verá a vontade de viver, a ânsia pelo saber no topo da escarpa.

O fruto, então, amadurece.
A (ná) fase Adulta.
Produtividade ao pico. Busca-se o concreto:
Cimento = a responsabilidade
Areia = o dinheiro
Cascalho = o prestígio
Água = a estabilidade
As patas são acorrentadas; os sonhos, afogados. Tudo é reto.
Quem viver verá uma britânica marinha redomando Napoleão, enegrecendo a habilidade.

Rompimento do pedúnculo: queda desnorteante: a Velhice estarrecedora.
Encara-se estaticamente a morte da vida. Chegada a hora da pesagem,
Chega a aceitação: o papel está cumprido; a terra ao invés de miragem.
Quem viver verá o auge da displicência: a vida gasta com a morte, a vencedora.

Toda( )via, não basta ter visão; temos de ter a vida inteira e vivê-la como vida.

BIU
1999

Pão e Vinho

Cólera da Alma

"Basta olhar para a cara dos que amam.
São olhos de lágrimas enternecedoras.
São vozes entrecortadas pela emoção.
São lábios aflorados em prece.
É uma língua dulçurosa que pede carinho.
São braços que se estendem pedindo amparo.
É um corpo amolecido que procura apoio.
É um perene e contante desvanecimento em toda a estrutura anatômica."
...

A Herança de Adão

"O amor tem raízes profundas no mais íntimo do nosso ser e atormenta despoticamente o coração humano.
Não há inquietude tão dolorosa e cruciante como a da juventude que principia a amar.
O despertar para a consciência desse problema é como atear fogo a um estopim.
Não há quem evite a explosão."

Padre Antônio Vieira em "Amar, Verbo Intransitivo"

10.2.05

Dicas Veríssimas

Amor

Às vezes, as pessoas que amamos nos magoam, e nada podemos fazer senão continuar nossa jornada com nosso coração machucado.
Às vezes nos falta esperança, mas alguém aparece para nos confortar.
Às vezes o amor nos machuca profundamente, e vamos nos recuperando muito lentamente dessa ferida tão dolorosa.
Às vezes perdemos nossa fé, então descobrimos que precisamos acreditar, tanto quanto precisamos respirar: é nossa razão de existir.
Às vezes estamos sem rumo, mas alguém entra em nossa vida, e se torna o nosso destino.
Às vezes estamos no meio de centenas de pessoas, e a solidão aperta nosso coração pela falta de uma única pessoa.
Às vezes a dor nos faz chorar, nos faz sofrer, nos faz querer parar de viver, até que algo toque nosso coração, algo simples como a beleza de um por do sol, a magnitude de uma noite estrelada, a simplicidade de uma brisa batendo em nosso rosto, é a força da natureza os chamando para a vida.

Você descobre que as pessoas que pareciam ser sinceras e receberam sua confiança, te traíram sem qualquer piedade.
Entende que o que para você era amizade, para outros era apenas conveniência, oportunismo.

Você descobre que algumas pessoas nunca disseram eu te amo, descobre também que outras disseram eu te amo uma única vez e agora temem dizer novamente, e com razão, mas se o seu sentimento for sincero poderá ajudá-las a reconstruir um coração quebrantado.
Assim ao conhecer alguém, preste atenção no caminho que essa pessoa percorreu.
Não deixe de acreditar no amor, mas certifique-se de estar entregando seu coração para alguém que dê valor aos mesmos sentimentos que você dá, manifeste suas idéias e planos, para saber se vocês combinam, esteja aberto a algumas alterações, mas jamais abra mão de tudo, pois se essa pessoa te deixar, então nada irá lhe restar.

Aproveite ao máximo seus momentos de felicidade, quando menos esperamos iniciam-se
períodos difíceis em nossas vidas.
Tenha sempre em mente que às vezes tentar salvar um relacionamento, manter um grande amor, pode ter um preço muito alto se esse sentimento não for recíproco, pois em algum outro momento essa pessoa irá te deixar e seu sofrimento será ainda mais intenso, do que teria sido no passado.

Pode ser difícil fazer algumas escolhas, mas muitas vezes isso é necessário, existe uma diferença muito grande entre conhecer o caminho e percorrê-lo.
Não procure querer conhecer seu futuro antes da hora, nem exagere em seu sofrimento, esperar é dar uma chance à vida para que ela coloque a pessoa certa em seu caminho.

A tristeza pode ser intensa, mas jamais será eterna.
A felicidade pode demorar a chegar, mas o importante é que ela venha para ficar e não esteja apenas de passagem, como acontece com muitas pessoas que cruzam nosso caminho.

Luiz Fernando Veríssimo

3.2.05

Amor Dantesco

"Vive a ressaca do corpo
Remove a dor do engodo
De cair nas armadilhas do corpo"
Anônimo

A partir daquela visão, o meu espírito natural começou a sentir-se interdito no seu modo de agir, pois a alma inteira estava tomada pelo pensamento daquela mais do que gentil; em pouco tempo, minhas condições eram de tal jeito frágeis e débeis que tristes ficavam muitos dos meus amigos ao me verem; outros, cheios de inveja, queriam saber de mim justamente aquilo que eu queria ocultar de todos. Dando-me conta, então, das maldosas perguntas que me faziam, e por vontade do Amor, que me ordenava obedecer os ditames da Razão, respondia-lhes que me encontrava sob o império deste Amor. Do Amor, dizia - e não podia deixar de dizer, ou esconder, tantas eram as marcas que trazia no rosto. E quando me perguntavam:
"Em nome de quem de tal forma o deformou o Amor?", eu, sorrindo, olhava para eles, e calava.

Dante Alighieri em "Retratos do Amor quando Jovem"

Sutilezas da Relação

CONTARDO CALLIGARIS

"Closer - Perto Demais": por que somos infelizes em amor?

Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas "Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais. O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.
Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a "Closer - Perto Demais".

1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão? Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade).
O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade.
Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo.
Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura?
Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada.
Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações.
Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência.
Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele.

2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal.
Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim.
Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja.
A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar -não de trocar de parceiro, mas de se reinventar. Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme. Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa.

3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse.
Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde.

4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.

5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra.
Sua mulher pergunta: você me ama ainda?
Ela tem razão, é a única pergunta que importa.
Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro.
Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes?

O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância.

Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes

Relâmpago

Relâmago


Na quarta-feira de cinzas, o cinza do céu
Anuncia o vôo do véu
O véu que resguarda nestes dias
Arrasta consigo as suaves estacas voluntárias como cobaias
Experimentação
Riscos
O Festival da Carne
Dá-nos aval para o convívio espiritual
Tal que, por horas, a palavra é banal;
O toque e o olhar explicitam do momento o cerne

O rosto de princesa e o corpo de deusa
Inundam o pensamento e acolchoam o coração
De tal modo que uma obra-prima repousa sobre a lousa
Com todas as cores, restando ao céu apenas o cinza-solidão

Cada movimento para a aproximação
Mostra o cruzamento de desejos
A carência de afagos é encoberta de beijos
De todas as formas e em todas as direções.
Lábios tocam-se incessantemente
Hálitos.
Cruzamento
Entrelaçamento

E os relâmpagos cruzam o céu,
Ao deixar,
Conectando pontos:
Seja céu e terra, verticais
Sejam horizontais
Já que os dois tornaram-se iguais.

BIU

2.2.05

Observe e mantenha-se jovem

O Olho que vê

Os cães pequenos olham para os cães grandes;
Observam as intratáveis dimensões
E as curiosas imperfeições do odor.
Eis um grupo de machos compenetrados:
Os homens jovens olham de cima os mais velhos,
Consideram-lhes a mente de meia-idade
Observam-lhes as correlações inexplicáveis.

Tsin-Tsu disse:
Somente nos cães pequenos e nos jovens
Encontramos a observação minuciosa.

Erza Pound (tradução de Mário Faustino)
Em "Lustra" (1916)

Figura de Dança

- para as bodas em Cananéia -

De olhos escuros,
Ó mulher de meus sonhos,
De sândalo e marfim,
Não há nenhuma igual entre as dançarinas,
Nenhuma com pés rápidos.

Não te encontrarei nas tendas
Na escuridão amortecida.
Não te encontrarei junto à nascente
Entre as mulheres com seus cântaros.

Como um renovo sob a cortiça são seus braços;
Tua face é como um rio com luzes.

Alvas como a amêndoas são tuas espáduas;
Como amêndoas recentes desnudadas da casca.
Não te defendem com eunucos
Nem com barras de cobre.

Ouro-turquesa e prata estão no lugar do teu repouso.
Uma escura veste, com fios de ouro em frisos
Colheste ao teu redor,
Ó nathat-Ikanaie, "Árvore-ao-pé-do-rio".

Como um regato entre o junco são tuas mãos sobre mim;
Teus dedos uma gélida corrente.

Tuas servas são tão alvas como seixos.
Ah! sua música ao teu redor.

Não há nenhuma igual entre as dançarinas,
nenhuma com pés rápidos.

Erza Pound (tradução de Augusto de Campos)
Em "Lustra" (1916)

1.2.05

Dicas portuguesas de sobrevivência

NAVEGUE

Navegue,
descubra tesouros,
mas não os tire do fundo do mar,
o lugar deles é lá.

Admire a lua,
sonhe com ela,
mas não queira trazê-la para a terra.

Curta o sol,
se deixe acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.

Sonhe com as estrelas,
apenas sonhe,
elas só podem brilhar no céu.

Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.

Não apare a chuva,
ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.

As lágrimas?
Não as seque, elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.

O sorriso!
Esse você deve segurar,
não o deixe ir embora, agarre-o!

Quem você ama?
Guarde dentro de um porta-jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milênio é outro, se a idade aumenta;
conserve a vontade de viver, pois não se chega a parte alguma sem ela.

Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.
Persiga um sonho, mas não o deixe viver sozinho.
Alimente sua alma com amor, cure suas feridas com carinho.

Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.

Procure, sempre procure o fim de uma história, seja ela qual for.
Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.

Acelere seus pensamentos,
mas não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.

Agonize de dor por um amigo,
só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.

Procure os seus caminhos, mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.

Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.

Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudade, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!

FERNANDO PESSOA

Poesia e Paisagem Recifenses

"Você percebe o tamanho do artista quando a cidade dele se confunde com sua obra. Isso acontece com Roma & Fellini, Tom Jobim & Rio, Dorival Caymmi & Bahia, Woody Allen & Nova York... Poesia se confunde com paisagem. Quando chego em Recife, mesmo sem walkman no ouvido começo escutar lá dentro da alma Chico Science o tempo todo. É impressionante a gritante presença de Chico por aqui. Até motorista de táxi fala dele e me mostra o poste onde desgraçadamente ele se desmaterializou para outra dimensão das pontes e overdrives dessa cidade hiper musical.O Porto Musical começou ontem com uma grande festa, é claro. E o nome dele foi citado muitas vezes. E na maior parte delas, por alemães, franceses, italianos...
Viva Chico Science, Viva o Mangue, Viva Pernambuco!" Marcelo Tas (marcelotas.blog.uol.com.br)


A CIDADE

O sol nasce e ilumina as pedras evoluídas
Que cresceram com a força de pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam vigiando as pessoas
Não importa se são ruins, nem importa se são boas

E a cidade se apresenta centro das ambições
Para mendigos ou ricos e outras armações
Coletivos, automóveis, motos e metrôs
Trabalhadores, patrões, policiais, camelôs

A cidade não pára, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce

A cidade se encontra prostituída
Por aqueles que a usaram em busca de saída
Ilusora de pessoas de outros lugares
A cidade e sua fama vai além dos mares

No meio da esperteza internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos

A cidade não pára, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce

Eu vou fazer uma embolada, um samba, um maracatu
Tudo bem envenenado, bom pra mim e bom pra tu
Pra a gente sair da lama e enfrentar os urubu
Num dia de sol Recife acordou
Com a mesma fedentina do dia anterior

31.1.05

SULZUL

SULLUZ

Espreitado por chifres pequenos e pontudos
Extrai-se do mistério de que a noite recobre
A paisagem manifesta por lusco-fuscos,
Lampejos dos processos deitados num silencioso molde.

Remetido por horizontes verti-transversais
Aos recônditos do zigue-zague do eu,
Aprofunda-se a sabedoria do ateneu
Ao desconhecer (não conter) as verdades universais

Açoitado pela imperceptível continuidade d e s c o n t i nua do processo,
Vislumbram-se o rasgo do fardo amargo,
Amado por seus gestos singulares do desejo,
E os enfiltramentos do belo pelos vincos do embargo.

E para conhecer-se se faz necessário conhecer
Pois nas entrelinhas do estimulo jaz o si.
Então que numa janela do tempo, permanecer
No tom da viagem da luz ao sul do mi
E deste àquela.

Lucrécio Rodrigues Torres

Inclina o perfil - Cecília Meireles

Inclina o perfil amado
nos veludos do silêncio
e apaga sobre esse quadro
as velas do pensamento

E fecha a porta da sala
e desce a escada profunda
e sai pela rua clara
onde não façam perguntas

E vai por praias desertas
desmanchando os teus caminhos,
cortando o fio às conversas
dos teus próprios labirintos.

E ao chão dize: Sou de areia.
E às ondas dize: Sou de água.
E em valas de ausência deita
a alma de outroras magoada.

Sem propósito de sonho
nem de alvoradas seguintes,
esquece teus olhos tontos
e teu coração tão triste.

Talvez nem a sobre-humana
mão que tece o ar e a floresta
perturbe alguém que descansa
de tão duras controvérsias.

Talvez fiques tão tranquila,
ó vida, entre o mar e o vento,
como o que ninguém divisa
de uma lágrima num lenço.

Cecília Meireles (de Retrato Natural)

True lovers in each happening of their hearts - Cummings

true lovers in each happening of their hearts
live longer than all which and every who;
despite what fear denies, what hope asserts,
what falsest both disprove by proving true

(all doubts, all certainties, as villains strive
and heroes through the mere's mind poor pretend
- grim comics of duration: only love
immortally occurs beyond the mind)

such a forever is love's any now
and her each here is such an everywhere,
even more true would truest lovers grow
if out of midnight dropped more suns than are

(yes; and if time should ask into his was
all shall, treir eyes would never miss a yes)

E.E. Cummings (in Selected Poems 1923-1958)

Vapor

" O mundo é apenas uma peça de teatro;
é vão e vazio, simplesmente nada,
uma simulação da realidade.
Não lhe dediqueis vossa afeição.
Não rompais o laços que vos une com vosso Criador
e não sejais dos que erraram e se desviaram de Seus caminhos.
Em Verdade, digo,
o mundo é como o vapor no deserto,
que o sedento imagina ser água e
se empenha com todas as forças em alcançar,
até que ao fazê-lo verifica ser apenas uma ilusão."

Bahá´u´lláh

Amizade

AMIGOS

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril."

Oscar Wilde

28.1.05

No papel, Papel do Papel

No papel, Papel do Papel

Todos têm seu papel no mundo!
Alguns já o têm nas costas cravado
Como os pés e pulsos na cruz
Dentre os quais há os que não conseguem ler ou entender

Pois não encontram espelhos adequados
Ou tem sua flexibilidade atrofiada
Outros o perseguem num ritmo desenfreado
Sem saber que este mesmo é o papel lhes destinado

Giram como cão atrás do rabo
Suspeitam, mas nada os seduz:
Capuz que esconde, interroga, abala

O papel do papel
Apela nos gestos
Restringe movimentos
Condena prisioneiros
Estica monumentos
Impele pioneiros
Cala a fala
Embala a faca
E caleja a fala
Afia e lustra a bala
Desorienta aviões a prédios
Mata de asfixia
Ou de hiperventilação

E enquanto a Papa papa seu papel,
Saboreamos o nosso
Com o timbre de Subdesenvolvimento,
O rótulo de Terceiro Mundo,
Blended in 1500
E com a rubrica de todos
Domesticamo-nos em casa
Esperando que nosso real papel
Chegue numa garrafa toda riscada
Lançada por um sr. que tudo sabe
Menos o papel do papel que nos cabe

BIU
28/01/2005

Soneto da Fidelidade

SONETO DA FIDELIDADE

Vinícius de Morais

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

The Lord of the Rings

O Senhor dos Anéis

Uma imensa metáfora épica de nós...
Da vida, desta passagem triunfante,
A Odisséia pela Terra-Média,
A Batalha eterna de cada um
Onde os pequenos e os jovens mostram sua força
E tornam-se adultos
Os mais velhos mostram sua sabedoria
E tornam-se eternos
A percepção da consciência da luta por algo maior
Digno de devoção
A eterna dicotomia do maniqueísmo,
Do ser e vir a ser
Da busca e de nosso apego a símbolos do poder
Da lealdade, fraternidade
Amor eterno.
O criativo, pretensioso e desmedido triunfo dos homens na Terra-Média,
Como se fosse o da paz, uma grande mensagem
A eterna tricotomia
E a descoberta única de que o seu é o melhor lugar
E a felicidade repousa nos prazeres “pequenos”, “simples”
Fugazes
Símbolos do amor eterno
E da passagem do eterno ao momentâneo
Da cobiça desmedida e do descontrole
Frodo e o fardo do destino salvador supostamente escolhido
Tomado como sacrifício
O nascimento de heróis, sempre distantes
O platonismo do hedonismo
E o anel como metáfora da vida,
A vida a que todos queremos nos atar, aficionados, desmedidamente
E o medo eterno das cinzas e o fogo eterno...

BIU
15/01/2004