15.8.06

Domingo de rede varandado

Varanda

É fora
E dentro,
Abrigo e mundo,
Largo e fundo.
Mato e rede
Balanço
Do si em tudo
É berro e zunido,
Visão
E cabresto,
É brisa
E fejão fresquinho.
Arvoredo
E baiano assentado
Pestana
E pesadelo.
Ronco e coxixo
Bronca
E resmungo
Sombra
E respingo
É palco
E purgatório
É lama
E vaso,
Mãma e cachaça
É papo e sermão,
Namorico
E ralação,
Encontro e fuga,
É gravata
E samba-canção
Memória e vastidão
E dentro
É fora.
Varanda
E mais não.

Felipe Modenese
14-08-2006

3.8.06

Manhã de Sol Matutino no Campeche, Floripa

Suspensão

Fiapos de Poeira
No ar frio do domingo matutino
Revoltando nos faixos de luz venezianos
A brilhar e driblar em pendor
Despropositado

Carregam o movimento
Silencioso
Do dia intruso

Efeito

Memórias, vida, universo

Bagunçadas dos passos,
Cenas viventes
Trespassam
As tramas do eu

No terreno caminhado,
Aos vórtices em vértices,
Lembranças,
Incluso as planejadas,
Reverberam no universo-

Sentimento em Suspensão

Felipe Modenese
30-07-2006

28.6.06

Brecha promocional


Calo

Semeados na lavoura do tempo, comprimidos sentimentos eclodem em contexto favorável, necessários ao concreto esfolhear de uma natureza inalienável, enquanto Tamires deixa o fogo ferver.
O pó acomoda-se em ruínas e o sumo desterrado preenche a espelhada face aos pingos na madrugada enfraquecida.
O indicador leva a xícara até a boca aberta e o gole fervente recolhe o olhar pasmado no azulejo bege. Aperta os olhos e o liquido preto fervilha goela abaixo:
- Caralho, puta merda, porra! – num ato reflexo.
A língua queimada pressiona o palato de Tamires e as terminações nervosas escaldadas alarmam o sistema proprioceptivo, mas em vão. Como tantas outras sensações, as informações de injuria não afetam a consciência. Resvalam sem surtir efeito, como os galhos do sertão no couro sobre a pele cangaceira.
Repressão calejada ao longo de vinte e cinco anos de luto persiste sob o robbie azul-marinho muito bem enlaçado, arrochado na barriga, e nos dedos retesados dos pés em macias chinelas brancas, enquanto a Dona busca sua correspondência na caixa do quintal.
O verde do jardim descuidado não passa de uma sombra na retina quando Tamires transpõe o carnê de IPTU para trás dos envelopes e estanca o passo arrastado no concreto: uma lucidez jamais experimentada transborda a depressão.
Como lava escorrente, um plasma de interesse subitamente recobre as trivialidades do amarelecido mundo (tal qual placas de tártaro), e um sentimento de completude esfolheia no espírito de Tamires quando descobre a unicidade das imagens daquele papel: a queima de estoque de tevês de tela plana das Casas Bahia...

Felipe Modenese
Oficina CPFL 24-06-2006

22.5.06

CAMINHO DA LUZ

“A tela deve ser fecunda. Deve criar um universo onde, pouco importa, divisarmos neles flores, personagens, cavalos, contanto que revele ao mundo algo vivo.”
Joan Miró

“É a esse vivo que parece aspirar à pintura de Miró. Isto é, a algo elaborado nessa dolorosa atitude de luta contra o hábito e a algo que vá, por sua vez, romper no espectador, a dura crosta de sua sensibilidade acostumada, para atingi-la nessa região onde se refugia o melhor de si mesma: sua capacidade de saborear o inédito, o não aprendido.”
João Cabral de Melo Neto - amigo de Miró


Iaiá, Gló, Ioiô, Nana e Newsom vestem de palmas de mãos as pálpebras fechadas e caminham no desfiladeiro entre a palavra e o que de fato ocorre.
Por sorte, os ônibus não passam ali por perto e podem deixar o comodismo engavetado, a força do hábito exilada e vestir não-gravatas ao passeio borboletesco do dia. Desfilam no desfiladeiro sem achismos.

III


Pedra Dourada – Faria Lemos

Cidade pequena

Na praça de Farinha ao Menos,
Destroços de lemos e remos
Arpejam a jangada chegada
Toda esburacada de pedra dourada

A cidade faria, lemos
No parquinho da central ,
Destroçado,
Bons cidadãos se, ao menos,

Pendurasse cadeiras na corrente do balanço
(Cujos halos remanescentes oscilam em fase,
Assim como os cidadãos, em fase...
De jogar conversa fora
De segurar, sem questionar,
O queixo caído
De tanta emoção),

Prendesse tábuas de assento
No sobe-desce da gangorra
(Que nem sobe nem desce:
Permanece...
Inclinada como uma ponta enferrujada
Ao ar
E outra enterrada no liso da areia,
Aplainada pela chuva,
Sem ser brincada,
Enfiada na areia, inerte ao tempo,
Que, aliás, teima em não passar
No lugarejo enterrado na serra,
Num Sossego tremendo,
Sem pressa de mudar),

Colocasse o disco no eixo do gira-gira
E girasse, apenas girasse...
(Como o que sabe não poder decolar,
Mas interessa-se em conhecer
As redondezas do lugar de brincar
E brincar
No mundo tão pequeno
Panorâmico
Sujando-se da beleza do local
Girando
Humilde, mas consciente
De fazer parte de um projeto maior
E deixar a conformidade ignorante)

E acertasse o movimento basculante
Do brinquedo sem nome
(Assim como esta gente praça,
morando na paz de graça.
Gente evoluída que só:
Conversa e deixa o tempo passá,
Sem muita questão pra colocá,
Além de questioná se o tempo vai virá,
E se não tem mais o que fazê pra mó
De fazê a gente daqui dorá mais um tiquinho).

10-01-2006

IV



Faria Lemos a Carangola

Ciscos

As sombras de mãos duplicadas
Vêm das lâmpadas do poste com hastes encurvadas.
Brincam no papel enquanto
Jovens digitalizam suas vidas em fotos
Jogam baralho sob colunas de mármore
E decidem namoricos nas muretas da arvore.

10 minutos antes da última hora,
Vem a força aprisionada nos cristais do caminho,
Aglutinada com a calma das eras
E protegida sob copas de cerca viva e espinho:

A serenidade da natureza,
No embalo dos gritos de insetos,
Grilos, cigarras e sapos ritmados,
Aflora , desterra a beleza

Ciscos nos morros de mata salpicada
Não incomodam, mas botam pra fora,
Fazem chorar
O serpenteio do rio Carangola,
Um segredo na alma e no fundo dos olhos,
Uma estória:

O buxo rasgado da cordilheira
Pelo facão dos tropeiros,
A enxada dos cafeeiros
E os cascos do gado barranqueiro
Desfolha suas entranhas
Em lâminas encr(u)ist(r)adas
De terrena sabedoria:
Brilham a luz que colhem
Brincam com as energias que em si dissolvem
E ensinam como dar luz a um caminho:
Brilhar de amor por detalhes
E brincar o caminho em harmonia.

10 e 11-01-2006

26.4.06

V


















Carangola a Espera Feliz

Glória de Viver
A Glória

No caminho da luz, às cegas,
À sombra de avencas molecas
E de conversas mais que sinceras,
Sob prantos de bromélias aéreas,
Películas de mica embrochuradas
Projetam os cantos de pássaros
Em tábulas rasas de aflição
E ouvidos descrentes de visão.

Passo a pássaro,
Poucos tropeços vacilados,
Buracos violados
E paisagens exuberantes,
Excitadas em voz,
Compõem um mapa na mente
A partir de cristais excertos da infância,
Galhetos e gravetos arrancados
De cipós e brinquedos truncados;
Tal qual o teneném
Usa o pouco além
Para criar algo encantado:
Um lar dependurado
Nos fragmentos naturais maturados.

Ali a cria resplandece
E a alma em flor se banha,
Podendo tocar a própria tua;
Talvez guiá-la a um caminho iluminado
Por demais batalhado
Delineado pela essência nua.

Faz do construído um santuário,
Emaranhado claro de sensações,
Abrigo à paz e vida,
Breve, entretanto, às claras.

Tão familiar ao mundo,
Percorre-o de vistas fechadas;
Heroína de si mesmo,
A mulher revigora a força vivente,
Enlaceia a vida como um presente
E galopa a terra enferma
A recolher cíntilos de prazer,
Desejos de caminhar e viver.

Vê o que ninguém pode e
Explode em risada que sacode,
Afugenta o medo ausente
Com rugido de amor por entre os dentes,
Infiltrados pelas vilosidades da alma.

Constrói dos toques, gostos, cheiros e sons
Emaranhados um ninho no infinito suspenso:
Um lugar de viver encanto,
A Glória de viver aqui e agora.


11 e 15 - 01-2006

25.4.06

VI


Espera Feliz a Alto do Caparaó

Mucoviscidose
A Túlio

Os olhos lacrados
Percorremos
Trajetos obstinados
Definhamos
Sem atentar ao tentar
Fechar os olhos
E seguir os próprios passos
E os passos próprios.

Eis que gotas caem
Sob o peso da gravidade
E pingam no cruzamento
De diagonais:
Dispor-se e serenar-se.

Caem como líquido amniótico
Rápido
De um mero gestar
Esmero

Pálpebras cortinam
O perambular
Arrastando consigo
A chuva do mar;
Agora,
Só o caminhar
Simples como o oceano
Extenso a brotar.

A vista espera
Os olhos cerrarem-se
E experimenta
As asas abrirem
Antes de secarem
Aos sopros quietos;
Como uma borboleta,
Tomam consciência
Da nova envergadura
Prestes a voar.

E
Ainda escorre um muco viscoso
Da gestação da alma,
Quando o corpo fecha o olho vagaroso
Ao olhar dos pés a palma;
Bater as pálpebras
A um mundo novo
Voar as pernas
Por um caminho povo
E alçar a mente recém-despida
Ao destino tortuoso
Mas pleno
...
Aahh!!!
Isso, ao menos!

17-01-2006

20.4.06

VII


Alto do Caparaó ao Pico da Bandeira

Dádiva em fragmentos condensados

“O tempo é a dádiva da eternidade” – William Blake
“A totalidade do ser é impossível para nós. Assim, dão-nos tudo, mas de forma gradual.” - Jorge Luis Borges

Ao nível de nuvens soltas,
Cabelos ao vento ar puro
Serpenteiam livres de apuro
A captar sensações amorfas

Dobraduras sem fim
Entremeadas de rotas-minhocas
Laranjas, bradam por mim
E mostram o mundo sem tocas.
Toques de deus por entre fiapos
Iluminam do caminho da luz o fim
E traçam fugas aos aliados
Por um mundo melhor enfim.

Vapores do desespero
Anunciam o esmero
Por um trato sereno
A um perfil pleno.
Como um tato de glória,
Os olhos percebem o meio
E tocam tanta bandeira
Que descascam um país brasileiro
Fértil
Vigoroso
Viçoso.

Subir mais alto só pra ver
O vento rugir segredos
Nos ouvidos cegos
E despertar a fúria de viver,
Soterrada no dia-a-dia,
Embriagada no formol da rotina.
Encurralada, agora pulsa,
Ganha superfície e volume
Fagocitando beleza crua,
Expandindo o limite, incólume
Ao tão que lhe invade
E inspira a liberdade.

Brilha o país
E o planeta inteiro
Do Pico da Bandeira
Em suspiros de vitória
Por um caminho trilhado
Rumo a um eu herdeiro
De um desejo descabido
De viver tudo primeiro.

Cada passo
Todo o passo
Passo todo
Calculado em descalço,
Ciente do caso do descaso,
Revigorado ao máximo
De eterno retorno
Enquanto dura o passo
Derradeiro,
Mas passo a passo.

Tons de uma terra sui generis
Aquarelam o precioso
Nos olhos febris
Do espírito ocioso.
E abduzem,
Como as lâminas da eternidade
Nos fazem com o tempo,
Expondo fragmentos da totalidade,
Sombras coloridas no gradual
Condensadas no limite do real.

Ímpeto vital,
Presente,
Pluma da passagem do tempo,
Passa tempo
Anda
Caminha
Permanecendo no fugaz,
Ardendo de viver
Agora.
Assim como a luz
Que arde e caminha
Ao belo, infinito e eterno do agora
Em seu caminho, que nunca acaba.

13, 19 e 20 - 01 - 2006

17.4.06

Recre(i)ação

A realidade é a construção de dada comunidade, tentando tornar o mundo inteligível. Por isso a literatura refrata esse real e, ao mesmo tempo, faz refletir sobre a consistência do real, sempre relativo e conjetural. É o mundo mesmo que solicita e suscita o poeta em nós. Um poema, um romance, são formas especiais de conhecimento do mundo humano; modos de transfigurar a experiência, no esforço de lhe dar a densidade de um sentido. Ponto de intersecção entre mímesis e poiésis: o barro e a mão do oleiro; na circulação das palavras, a seleção singularizada no poema – corpo novo que é imagem da permanente recriação do mundo.

Extraído do Ensaio "Mímesis e Poética: entre criar e imitar
de Lourival Holanda
(nº 62 da Revista Continente Multicultural- fev.2006)

12.4.06

Poesia atual - artigo


Palavras criam realidades
A ampliação das formas de representação estética tem como corolário uma outra visão da realidade. Toda mudança de paradigma provoca o entusiasmo e o desconforto, a apologia e a negação furiosa

Por Claudio Daniel
Paul Valéry, em conhecido ensaio publicado em 1939, estabelece uma distinção entre a prosa e a poesia, afirmando que a primeira assemelha-se ao andar, e a segunda ao dançar. Estas imagens remetem ao caráter mais utilitário da prosa, onde importam a clareza e o sentido, enquanto na poesia contam mais o andamento rítmico, a construção de paisagens, a estranheza vocabular e sintática, o trabalho com a metáfora e outros recursos lingüísticos, que atribuem ao texto seu valor artístico. Na prosa, está em primeiro plano a função comunicativa, conforme o conceito de Roman Jakobson: o que vale é a informação, e podemos pensar aqui num manual de medicina, num código jurídico, num tratado de filosofia ou em livros de sociologia ou contabilidade. Já na poesia, onde o artesanato semântico é ele mesmo a informação a ser transmitida, temos a função poética, o sentido construído pela forma. Sem dúvida, essa distinção entre prosa e poesia admite exceções: obras como o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, as Galáxias, de Haroldo de Campos e o Catatau, de Paulo Leminski, são textos em prosa permeados de poeticidade, numa voluntária superação de dicotomias, sinalizando também a dissolução das fronteiras entre os gêneros. Por sua capacidade de fluidez, simbiose e mutação, a poesia relaciona-se com outras formas de escrita, perturbando-as, criando uma instabilidade textual, distante de qualquer idéia de imobilidade ou permanência. Sendo um pouco mais audaciosos, podemos pensar na poesia além da própria literatura, manifestada na canção, no balé, na pintura, no drama cênico, enfim, em todas as criações onde a linguagem está enamorada pela linguagem. Tudo é a arte da poética, de certa forma, quando o dançarino, a dança e o dançar são um único e inquietante movimento. Como afirma Antonio Risério, em seu Oriki Orixá, a poesia não se restringe ao código escrito, inclusive por ser anterior a ele: os primeiros poemas de que temos notícia pertenciam à tradição oral (como os mitos fundadores indígenas, africanos ou escandinavos) e eram transmitidos na forma de canto, com a colaboração da música, coreografia, vestuário, mito e símbolo: arte mágica, onde cada palavra não era apenas a representação de uma coisa e, sim, a própria coisa, na forma de som. Não se tratava de imitar, mas de criar realidades, numa síntese entre estética e teurgia. Disso resulta o caráter sagrado, de invocação, dos mantras indianos e dos orikis nagô-iorubás: ao pronunciarem o nome de seu deus, este era corporificado como vibração sonora (o que hoje chamaríamos de isomorfismo, o conteúdo igual à forma). O caráter mágico ou encantatório da poesia, sem dúvida, estava relacionado a formas de pensamento analógico e ritualístico, mas podemos ver suas irradiações em toda a evolução da escritura poética, que nunca renunciou à vocação taumatúrgica de construir universos “com sua própria fauna e flora”, no dizer do poeta chileno Vicente Huidobro, protagonista do criacionismo. Coube às vanguardas históricas, aliás, a recuperação da visualidade, do gesto e do movimento na poesia, aliando a pesquisa fônica a toda sorte de recursos expressivos.
Quando se censura a vanguarda por seu suposto hermetismo ou obscuridade, os anátemas são aplicados à sua “extravagância” formal, mas também a sua “ausência de conteúdo” ou “alienação” (para recuperarmos uma acusação de heresia habitual nos anos 60 e 70). Os poetas experimentais estariam distantes da “realidade” e do “mundo”, isolados em modernas torres de marfim. Caberia perguntar, aqui, quais são os conceitos de “realidade” e de “mundo” defendidos por esses críticos, e que estão na essência de textos literários de imediata compreensão, mas escasso valor artístico. Para os acadêmicos de formação sociológica, discípulos do modelo desenvolvido por Luckács, a realidade é um fato imediato e objetivo sujeito à investigação científica, enfatizando aspectos econômicos ou sociais, dentro de uma linha histórica evolutiva. Essa concepção, que dominou o cenário europeu nas primeiras décadas do século passado, está eivada de certo determinismo (diríamos até fatalismo) que considera todas as criações intelectuais ou estéticas como subprodutos da cadeia produtiva. A partir dessa visão, de indiscutível miopia, surgiram propostas como a do realismo socialista, que intentou ser o “espelho do real”, refletindo as injustiças do capitalismo e projetando, ao mesmo tempo, a futura redenção socialista (considerada inevitável, dentro de uma perspectiva retilínea e darwiniana da história).
Na literatura brasileira contemporânea, essa expansão do sentido pela construção inusitada ou excêntrica é visível em autores como Horácio Costa, Wilson Bueno e Josely Vianna Baptista, precedidos pelo Haroldo de Campos de Galáxias e dos estudos sobre o barroco. Em seu livro A Arte no Horizonte do Provável, o poeta paulista fez uma interessante distinção entre a abordagem diacrônica da literatura, baseada num fio evolutivo histórico, e a sincrônica, que busca relações de proximidade entre autores de diferentes períodos epocais. Esse é o método que utilizou em seu estudo “Uma Arquitextura do Barroco” (em A Operação do Texto), que aponta afinidades entre autores tão diversos como o cubano Lezama Lima, o grego Lícofron, o brasileiro Sousândrade e o chinês Li Shang Yin, distanciados na geografia e no tempo regular, mas muito próximos em seu ostinato rigore e capacidade imaginativa. Essa aproximação, que a princípio pode parecer arbitrária e impulsiva, é fundadora de uma concepção literária e filosófica que animou os autores mais inventivos da América Latina, a partir dos anos 70, dentro dessa vertente que se convencionou chamar de Neobarroco. Num poema como “O Napoleão de Ingres”, de Roberto Echavarren, por exemplo, temos uma collage de signos de diversos territórios e culturas, apontando a mestiçagem, a impureza, o paradoxal e o ambíguo como elementos constituintes de nossa realidade: “A cor da seda, sua textura / são quase metálicos: um zepelim no céu / azul-da-prússia, um dragão chinês / voando em seu troar de metais”. Essa mescla de elementos díspares remete à própria formação social e cultural latino-americana, que cozinhou no mesmo caldeirão signos e referenciais europeus, asiáticos, indígenas e africanos, numa antropofagia que perdura até os dias de hoje. Além da diversidade, a desigualdade da convivência entre tecnologia e subnutrição, crescimento industrial e miserabilidade, erotismo e religião, entre outras manifestações contraditórias do nosso continente, colaboram com o conceito do Neobarroco e sua visão de um mundo plural, irregular, multifacetado, sublime e trágico.
(texto incompleto publicado na Edição Nº62- Fevereiro de 2006 da revista Continente Multicultural)

31.3.06

Exercício

Passei(-)o Passado

“O tempo é uma dádiva da eternidade” – Paul Valèry

Cachos bojudos de uma pequena árvore denotam quase tudo. Passeio. Passei-o sem vê-lo. Sem notar seu microcosmo:
Cachos em flores e frutos. Esparramados na curvatura da copa.
Flores túrgidas de pólen e polinizadas e frutos assementados. Além de uma variedade rica de estados intermediários. Etapas num continuo processo de metamorfose.
Vida.
Rasgados, abertos, hirsutos languidamente. Costurados, lacrados, pasmosos de natureza.

Meus pés catatônicos pararam e fitaram por necessidade.
Mil e um polinizadores revelam sob a sombra da correria cotidiana: mangavas, moscas varejeiras, percevejos, formigas, borboletas. E as flores e frutos. Agentes transformadores da situação, instintivamente. Dinamizam ações imediatas no organismo árvore. Pululam. Insetos espreitados seguem seu rumo caçoando da tentativa de tornar palavras o sistema vigente. Gozam com seu zumbido da pretensão humana. Zzzziiiiiii...
Nutrem-se de um visco oleoso e sintetizado na máquina árvore. Filtro divinizado no tempo. Glorificado pelas intempéries.

Como deixar de notar o silêncio infinitamente ativo de uma pequena árvore, florida de boas-vindas ao Outono. Cuspindo semente e pólen, um pó lento, uma nuvem que deixa a visão turva de emoção, uma medusa aos pensamentos. Pó lento revelado por poucos feixes de luz que dão contorno a nuvens no céu matutino.
Os pés descalços, num caldo de folhas caídas - não mortas - mergulhados numa travessa de grama verde pontiaguda, ainda suadas da respiração noturna. Como espadas de verdura, sangram o silêncio de uma noite transcorrida.
Insetos frenéticos e calmos buscam... percorrem um estame apenas ou a copa inteira. Pés molhados de um melaço do tempo.

Entro na árvore como quem procura causar a menor perturbação possível numa laguna glacial enfiada entre picos dos Andes ou o menor desmoronamento possível em dobraduras de areia nas dunas dos Lençóis maranhenses.
Sob a copa, como de dentro de uma oca, notam-se os movimentos infinitos, a intimidade da dinâmica de uma copa de árvore, de uma aldeia em extinção. Por frisos de galhos e flores, movimentos rápidos e lentos, frêmitos. Com seus rituais, sua pouca roupa, suas tintas, cocares e adereços, a tribo sui generis agarra sua tradição.

Não se pode resistir à tentação de abraçá-la, enfeitiçar-se de tanta nervura, de tamanha alvura, de algo tão vivo sem lambuzar-se todo e grudar em si um pó lento, uma descrição íntima autentica e espontânea: a minha polinização de emoções, reverberadas em palavras da indiferença do mundo todo.
Sim, estou incrustado de pólen. E esparramo-os aqui, por necessidade. Como o pintor raspa o dedo de tintas na lateral da palheta, ou o padeiro que esfrega as mãos na quina da bancada, ou alquimista que espreme suas mãos de pólvora em panos de algodão, ou o padre que toca os cantos da boca lambuzada de farelos e uva, ou ainda o físico que glorifica suas equações e símbolos enigmáticos na largura do quadro. Esparramo rápido. Para poder agarrar de volta meus instrumentos de lógica cartesiana (mesmo que seja a da física quântica), precisão matemática, erudição invejável e escrotice inalcançável... Um inseto absorto em incompreensão expelida em termos, palavras, poesia...
Talvez, as palavras sejam mesmo isso: incompreensão. Fuga de uma emoção eterna. Não suportamos o eterno. E por isso, foi-nos dado o tempo! Necessidade.
Ajoelho diante do caule, franzino e robusto, abraço a árvore... Rezo.

Felipe Modenese 25-03-2006

21.3.06

Farpas do território solidão

Raspas de Rilke

Solidão
Suportada,
Vida,
Desriscada da filogênese
Traço curto
No cristal da criação
Raspas do halo
Turbilhão
Do encontro dos veios
À margem da escuridão
Limite espiral,
Desconcerto de inquietude
Contínua e silenciosa
Solidão

BIU
16-03-2006
Meu território (1998)

Como um inseto
livre sujo
eu rastejo
procurando na superficíe redenção
sob pressão eu misturo
as palavras honestas
elas não mostram o que eu sinto
só demarcam meu terrritório
sujo livre
das suas sujeiras que não são minhas
mas que carrego nos meus pés
que demarcam meu território
longe de você só há uma saída
que não procuro só achando
nos meus sonhos feitos de sujeira
e liberdade
eu me revelo doce
quando você instiga a violência
que existe
sob meus pés
sujos e fracos
e que não pedem descanso
para serem limpos
sonho com você quando sonho comigo
e estou sozinho
novamente
procurando
por você
nesse espaço
já marcado por
mentiras
suor
e lágrimas
que não são
suficientes
para limpar
meus pés
Du Gil

18.3.06

Diálogo (nada despretensioso) de uma vida

- Se você colaborar - ele disse - poderá pedir tudo o que quiser ao Senhor das Inclemências
...
- Imortalidade? Uma eternidade toda com essa serpente fodendo o meu coração? Uma eternidade cheia de medo, de falta de ar, de arritmia cardíaca? Nada feito.
- Você diz porque não conhece a outra alternativa.
- Que outra alternativa?
- O fim comum dos humanos. A morte. Você entende a morte? Já se imaginou morto alguma vez?
-Já que tocamos no assunto, acho que vou me suicidar assim que sair daqui.
- Não, você não vai. Você vai continuar agarrado a essa vida que você detesta, porque no seu coração, nesse mesmo coração pequeno, companheiro de gruta de uma cobra, você sente que essa vida é a única que existe. Depois vem o nada. Entropia de céluças, rendez-vous de vermes, nada de consciência, nada de memória, nada de nada, finito. Kaput. The end - ele compassava as palavras com pequenos socos no braço da cadeira. - Não lhe parece que uma eternidade cheia de medo, por pior que venha a ser, é preferível a uma eternidae cheia de nada?
- Estou pensando se vale a pena pedir minha parte em dinheiro.
- Como preferir.
pág. 54 "Síndrome de Quimera" Max Mallman

2.3.06

O literário nada do real

Papéis em branco (1997)

Fechem as cortinas
celebrem o fim
não temam
não há mais nada a fazer
nada a dizer
não há mais jornais
não há mais bíblias
não há mais mais
apenas o nada
alimentando-se do vazio
hoje é o dia que sempre foi
sem nunca existir
vamos sentar e apreciar a vista
pois nossos olhos não mais vêem
apenas sentem
nosso corpo em estranha modéstia
curva-se diante da própria sombra
tornando-a real
agora a lei é única
agora a lei não é
as palavras não são mais necessárias
agora sabemos o caminho de casa

Eduardo Gil


o lamento (1989)

O lamento da literarura com seus gorjeios e trinados, percorrendo a escala das emoções. É um vento aventureiro desfazendo tranças e arreliando rendas delicadas. A delicadeza de certas mãos que em sonhos tocam a imaginária cintura do sonhador iludido e no final compõem pontes de absurdo sentido entre imagens soltas e acabadas. Tontas cavalgadas por prdarias absolutamente inconcebíveis - e o real se retira humilhado perante o referido inatingível esplendor. Secam gerânios, begônias e nardos. A ordem é revisada. O caos dos corpos a sós. Certas formas se acentuam, procuram-se para grifar-se e, ao coincidir consigo mesmas, sucumbem ao júbilo de se sentir indescritíveis. Prodígios da metamorfose imperceptível!

em Poros ("Language is a virus from outer space"- Burroughs)
de Rubens Rodrigues Torres Filho

21.2.06

Largura na Amizade

A( )barca

"E só ficara comigo
o riso rubro das chamas, alumiando o preto
das estantes vazias.
Porque eu só preciso de pés livres,
de mãos dadas,
e de olhos bem abertos."
Bibliocausto - livro Magma
Joao Guimarães Rosa
“Viver para ser admirado pelos outros cria apenas fracasso e frustração"
Heróis de verdade - Roberto Shinyashiki

Parte a barca
Branca
Deixa larga
Embarca
Na largura
Arca
Larga

Não deixa a barca
Abarcar
A marca
E largar ao largo
Amarga
Alarga

Barca Furada
Rasga tecido
D’água
Arrasta
Aparta o broto novo

Surfa a barca
Um jeito povo
Barqueja
Arpeja
Ritmo
Encarna

Seja barca
Em barca
Forma nova
Embarca agora
A barca do eu
À barca do outro
Alarga a largura
Barca

Felipe Modenese
19-02-2006



Para que serve um amigo?

Milan Kundera, em seu livro “A identidade”, diz que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança contra a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.
Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou serão varridas numa chuva de verão.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos. Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta calor e a jaqueta. Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país. Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu. Um amigo não passa penas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o Reveillon. Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado. Um amigo não segura a barra apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem.
Se tiver num, amém.

Martha Medeiros

12.2.06

O gênio simples de mestre Rosa

Saudade

Saudade de tudo!...

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de aalmas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa de fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo...

Poema "Saudade" - livro "Magma" de 1936 -
mestre Guimarães Rosa

8.2.06

Visões

“Gostaria de dizer que penso nos humanos como fazendo parte de uma curva normal ou como a questão do limiar de dor. Se passarmos a existência a olhar de fora, ela fica pesada e insustentável, mas se passamos além disso, podemos atingir um tal grau de praticidade na existência que ela se torna leve e adaptativa. Acho que está perto das idéias do zen budismo. Nossa civilização ocidental separou mente e corpo e tornou a existência uma questão de luta e não de fluxo. O homem rico é aquele que está satisfeito com o que tem. Nossa sociedade consumista e competitiva vai solapando o gosto de simplesmente ser”
Glória Cintra - psicoterapeuta