1.2.05

Dicas portuguesas de sobrevivência

NAVEGUE

Navegue,
descubra tesouros,
mas não os tire do fundo do mar,
o lugar deles é lá.

Admire a lua,
sonhe com ela,
mas não queira trazê-la para a terra.

Curta o sol,
se deixe acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.

Sonhe com as estrelas,
apenas sonhe,
elas só podem brilhar no céu.

Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.

Não apare a chuva,
ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.

As lágrimas?
Não as seque, elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.

O sorriso!
Esse você deve segurar,
não o deixe ir embora, agarre-o!

Quem você ama?
Guarde dentro de um porta-jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milênio é outro, se a idade aumenta;
conserve a vontade de viver, pois não se chega a parte alguma sem ela.

Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.
Persiga um sonho, mas não o deixe viver sozinho.
Alimente sua alma com amor, cure suas feridas com carinho.

Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.

Procure, sempre procure o fim de uma história, seja ela qual for.
Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.

Acelere seus pensamentos,
mas não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.

Agonize de dor por um amigo,
só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.

Procure os seus caminhos, mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.

Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.

Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudade, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!

FERNANDO PESSOA

Poesia e Paisagem Recifenses

"Você percebe o tamanho do artista quando a cidade dele se confunde com sua obra. Isso acontece com Roma & Fellini, Tom Jobim & Rio, Dorival Caymmi & Bahia, Woody Allen & Nova York... Poesia se confunde com paisagem. Quando chego em Recife, mesmo sem walkman no ouvido começo escutar lá dentro da alma Chico Science o tempo todo. É impressionante a gritante presença de Chico por aqui. Até motorista de táxi fala dele e me mostra o poste onde desgraçadamente ele se desmaterializou para outra dimensão das pontes e overdrives dessa cidade hiper musical.O Porto Musical começou ontem com uma grande festa, é claro. E o nome dele foi citado muitas vezes. E na maior parte delas, por alemães, franceses, italianos...
Viva Chico Science, Viva o Mangue, Viva Pernambuco!" Marcelo Tas (marcelotas.blog.uol.com.br)


A CIDADE

O sol nasce e ilumina as pedras evoluídas
Que cresceram com a força de pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam vigiando as pessoas
Não importa se são ruins, nem importa se são boas

E a cidade se apresenta centro das ambições
Para mendigos ou ricos e outras armações
Coletivos, automóveis, motos e metrôs
Trabalhadores, patrões, policiais, camelôs

A cidade não pára, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce

A cidade se encontra prostituída
Por aqueles que a usaram em busca de saída
Ilusora de pessoas de outros lugares
A cidade e sua fama vai além dos mares

No meio da esperteza internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos

A cidade não pára, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce

Eu vou fazer uma embolada, um samba, um maracatu
Tudo bem envenenado, bom pra mim e bom pra tu
Pra a gente sair da lama e enfrentar os urubu
Num dia de sol Recife acordou
Com a mesma fedentina do dia anterior

31.1.05

SULZUL

SULLUZ

Espreitado por chifres pequenos e pontudos
Extrai-se do mistério de que a noite recobre
A paisagem manifesta por lusco-fuscos,
Lampejos dos processos deitados num silencioso molde.

Remetido por horizontes verti-transversais
Aos recônditos do zigue-zague do eu,
Aprofunda-se a sabedoria do ateneu
Ao desconhecer (não conter) as verdades universais

Açoitado pela imperceptível continuidade d e s c o n t i nua do processo,
Vislumbram-se o rasgo do fardo amargo,
Amado por seus gestos singulares do desejo,
E os enfiltramentos do belo pelos vincos do embargo.

E para conhecer-se se faz necessário conhecer
Pois nas entrelinhas do estimulo jaz o si.
Então que numa janela do tempo, permanecer
No tom da viagem da luz ao sul do mi
E deste àquela.

Lucrécio Rodrigues Torres

Inclina o perfil - Cecília Meireles

Inclina o perfil amado
nos veludos do silêncio
e apaga sobre esse quadro
as velas do pensamento

E fecha a porta da sala
e desce a escada profunda
e sai pela rua clara
onde não façam perguntas

E vai por praias desertas
desmanchando os teus caminhos,
cortando o fio às conversas
dos teus próprios labirintos.

E ao chão dize: Sou de areia.
E às ondas dize: Sou de água.
E em valas de ausência deita
a alma de outroras magoada.

Sem propósito de sonho
nem de alvoradas seguintes,
esquece teus olhos tontos
e teu coração tão triste.

Talvez nem a sobre-humana
mão que tece o ar e a floresta
perturbe alguém que descansa
de tão duras controvérsias.

Talvez fiques tão tranquila,
ó vida, entre o mar e o vento,
como o que ninguém divisa
de uma lágrima num lenço.

Cecília Meireles (de Retrato Natural)

True lovers in each happening of their hearts - Cummings

true lovers in each happening of their hearts
live longer than all which and every who;
despite what fear denies, what hope asserts,
what falsest both disprove by proving true

(all doubts, all certainties, as villains strive
and heroes through the mere's mind poor pretend
- grim comics of duration: only love
immortally occurs beyond the mind)

such a forever is love's any now
and her each here is such an everywhere,
even more true would truest lovers grow
if out of midnight dropped more suns than are

(yes; and if time should ask into his was
all shall, treir eyes would never miss a yes)

E.E. Cummings (in Selected Poems 1923-1958)

Vapor

" O mundo é apenas uma peça de teatro;
é vão e vazio, simplesmente nada,
uma simulação da realidade.
Não lhe dediqueis vossa afeição.
Não rompais o laços que vos une com vosso Criador
e não sejais dos que erraram e se desviaram de Seus caminhos.
Em Verdade, digo,
o mundo é como o vapor no deserto,
que o sedento imagina ser água e
se empenha com todas as forças em alcançar,
até que ao fazê-lo verifica ser apenas uma ilusão."

Bahá´u´lláh

Amizade

AMIGOS

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril."

Oscar Wilde

28.1.05

No papel, Papel do Papel

No papel, Papel do Papel

Todos têm seu papel no mundo!
Alguns já o têm nas costas cravado
Como os pés e pulsos na cruz
Dentre os quais há os que não conseguem ler ou entender

Pois não encontram espelhos adequados
Ou tem sua flexibilidade atrofiada
Outros o perseguem num ritmo desenfreado
Sem saber que este mesmo é o papel lhes destinado

Giram como cão atrás do rabo
Suspeitam, mas nada os seduz:
Capuz que esconde, interroga, abala

O papel do papel
Apela nos gestos
Restringe movimentos
Condena prisioneiros
Estica monumentos
Impele pioneiros
Cala a fala
Embala a faca
E caleja a fala
Afia e lustra a bala
Desorienta aviões a prédios
Mata de asfixia
Ou de hiperventilação

E enquanto a Papa papa seu papel,
Saboreamos o nosso
Com o timbre de Subdesenvolvimento,
O rótulo de Terceiro Mundo,
Blended in 1500
E com a rubrica de todos
Domesticamo-nos em casa
Esperando que nosso real papel
Chegue numa garrafa toda riscada
Lançada por um sr. que tudo sabe
Menos o papel do papel que nos cabe

BIU
28/01/2005

Soneto da Fidelidade

SONETO DA FIDELIDADE

Vinícius de Morais

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

The Lord of the Rings

O Senhor dos Anéis

Uma imensa metáfora épica de nós...
Da vida, desta passagem triunfante,
A Odisséia pela Terra-Média,
A Batalha eterna de cada um
Onde os pequenos e os jovens mostram sua força
E tornam-se adultos
Os mais velhos mostram sua sabedoria
E tornam-se eternos
A percepção da consciência da luta por algo maior
Digno de devoção
A eterna dicotomia do maniqueísmo,
Do ser e vir a ser
Da busca e de nosso apego a símbolos do poder
Da lealdade, fraternidade
Amor eterno.
O criativo, pretensioso e desmedido triunfo dos homens na Terra-Média,
Como se fosse o da paz, uma grande mensagem
A eterna tricotomia
E a descoberta única de que o seu é o melhor lugar
E a felicidade repousa nos prazeres “pequenos”, “simples”
Fugazes
Símbolos do amor eterno
E da passagem do eterno ao momentâneo
Da cobiça desmedida e do descontrole
Frodo e o fardo do destino salvador supostamente escolhido
Tomado como sacrifício
O nascimento de heróis, sempre distantes
O platonismo do hedonismo
E o anel como metáfora da vida,
A vida a que todos queremos nos atar, aficionados, desmedidamente
E o medo eterno das cinzas e o fogo eterno...

BIU
15/01/2004

A vida segundo Charles Chaplin

"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina.
Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente.
Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo.
Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar.
Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria.
Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade.
Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando....
E termina tudo com um ótimo orgasmo!!!
Não seria perfeito?"

Charles Chaplin

Ato destituído

O ato destituído é a palma da mão estendida
sobre rosas mortas e sobre túmulos pouco importantes.

Mas tem-se sempre dentro das flores a primazia
do retorno, do efemero e do belo...
Sempre é tempo de reconstruir seu jardim
Simetría com o sol e as arvores,
com a vida e os tais atos que nada nos ajudam a viver
mais
Sempre é tempo de usufruir da beleza inequívoca
da tentativa, do erro e do zêlo...
Há algo que empurra nosso corpo abaixo, que destitui
abaixo
e nunca teremos tempo de chorar no antitempo das
escolhas.
Porque os homens ocos são os mesmos e escolheremos
como construí-los do tempo
Big-Crush da nossa espiritualidade.


Corra e olhe o céu

Corra e olhe o céu

Composição: Cartola e Dalmo Castelo

Vida te sinto mais bela
Te fico na espera
Me sinto tão só, mal
O tempo que passa
Em dor maior, bem maior
Vida no que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olha o céu
Que o sol vem trazendo bom dia
Ah, corra e olha o céu
Que o sol vem trazendo bom dia

II (de "Três Tercinas")

Nunca não ser ninguém nem nada
porém deixar-se estar no tempo
como se a vida fosse água,

com quem bóia à flor da água
sem rumo, sem remo, sem nada
além de sono, tédio e tempo

senhor de todo o espaço e o tempo,
munido só de pão e água
e, sem precisar de mais nada,

beber sua agua enquanto é tempo.
E, depois, nada.


Paulo Henriques Britto - Macau

27.1.05

Carnaval: nossa "manifestação cultural"?

Amor à arte torna vida mais saudável, diz estudo
VALQUÍRIA REYda BBC Brasil, em Roma

A receita dos italianos para ter uma vida mais saudável, um intelecto muito mais ativo e combater a depressão é simples, segundo uma pesquisa divulgada no país: basta amar a arte e gostar de conviver com ela.
De acordo com o estudo, realizado pelo Instituto de Psicologia Analítica de Roma, visitar museus com freqüência pode ajudar a recuperar a serenidade necessária para enfrentar os problemas do dia-a-dia.
"Os efeitos benéficos são imediatos", diz o psicólogo e antropólogo Massimo Cicogna, coordenador do trabalho. "O contato constante com a arte aumenta a capacidade de atenção, o desempenho sexual e a segurança em si mesmo. Também melhora o estilo de vida de qualquer pessoa".
Feita com homens e mulheres com idades entre 20 e 35 anos, a pesquisa diz que os amantes da arte são quase três vezes mais ativos que os demais. Acabam se empenhando mais em questões sociais e são mais satisfeitos com o trabalho. São superiores intelectualmente e não têm problemas com a auto-estima.
Amor
Segundo Cicogna, a arte também faz bem ao amor.
"Os casais que convivem com a paixão pelo belo têm uma cumplicidade erótica muito mais elevada que os outros" (66% contra 37%) afirma Cicogna.
"Os benefícios sobre a personalidade em geral também são enormes. A visão do belo ajuda. Dá a força necessária para afrontar com otimismo os desafios da existência e relaxa a mente".
Quem é apaixonado por arte, de acordo com a pesquisa, supera mais facilmente uma situação de depressão (78% dos casos), enquanto aqueles que não têm este interesse ficam mais frágeis e apresentam mais resistência à recuperação.
A professora aposentada Stefania Rocchi, freqüentadora assídua dos museus italianos, concorda com os resultados. "Acredito que uma pessoa acostumada a admirar obras de arte tem uma percepção mais sensível e aberta de tudo que a cerca", afirma a professora.
Rocchi também mantém o hábito de visitar semanalmente um dos monumentos mais famosos de Roma, a Fontana de Trevi, imortalizada numa cena de "La Dolce Vita", de Federico Felini.
"A arte, seja ela qual for, faz com que as pessoas descubram seus próprios corações, quem elas são na realidade".
Síndrome de Rubens
O grupo de especialistas liderado por Cicogna é o mesmo que, há pouco tempo, começou a falar na "Síndrome de Rubens", descrita como uma série de impulsos sexuais que atinge os visitantes dos museus durante o momento que estão contemplando determinadas obras de arte.
Segundo eles, 20% dos freqüentadores de museus já tiveram algum tipo de "aventura romântica", enquanto admiravam estátuas e esculturas consideradas eróticas.
"É um estado de ânimo que se cria durante a visita a um museu, uma sensação de êxtase que somente uma obra de arte sabe difundir", explica Cicogna. "Para algumas pessoas, pode acabar sendo decisivamente excitante".
Com este trabalho, nasceu uma classificação especial dos museus italianos em que as pessoas correm mais riscos de serem acometidas pela "Síndrome de Rubens".
O mais "perigoso", de acordo com os especialistas, é o Palácio Doria Pamphilli, em Gênova, onde se encontra o "Sátiro", do artista flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640), que deu o nome à síndrome.
No clima
Na Galeria Borguese, considerado o museu mais romântico de Roma, a diretora Anna Coliva confirma que boa parte dos visitantes é envolvida no clima e na atmosfera do lugar. E aí, os beijos e os abraços são inevitáveis.
"Antes mesmo de essa reação ser batizada, as pessoas sempre reagiram desta maneira", diz a diretora. "Não sei se é uma síndrome, ou um simples estado de ânimo normal de comunicação, quando se entra em contato com coisas belas".
A turista austríaca Eva Soya e o seu namorado não conseguiram resistir à beleza e ao erotismo de uma das esculturas de Bernini. Em meio a outros turistas, os dois começam a se beijar apaixonadamente.
"Este lugar é muito romântico", afirmou Eva. "O ambiente é muito belo, com todas estas esculturas, a luz, as cores".
Segundo Massimo Cicogna, alguns brasileiros foram incluídos na sua pesquisa e acabaram confirmando os dados. No entanto, esta participação não deve ser considerada como um estudo detalhado sobre o Brasil.
De acordo com ele, o país deve apresentar resultados semelhantes, com base em outra manifestação cultural, mas com a mesma força que tem os museus para a vida dos italianos.

Ensaio Metafísico: O narcisísticoTempo

Ensaio Metafísico: O Narcisismo do Tempo

Uma súplica do TEMPO
Faz destoar neste momento
O grão que o pense
E remova o ausente

Tem, para tanto, a si mesmo
E a articulação de todos os entes
Hábil colapsa os a esmo
Fazendo despontar as setantes
Dentre estas a VIDA ( e a POESIA)

Dá-lhes afago continuamente
Dissolvendo sua magoa em água
E do oscilante capuz faz luz
Molda a HARNONIA da esfera
Que dança a sinfonia eterna
Da criadura
E dá sentido a sua à sua amargura


Revolve e sanfona a sorte:
Assopra os leques
E uma poeira discrepante
Que pólenvacila
E se plurifica em novos leques
Enche a sanfona do sopro
Que tece a tez da VONTADE

Num palco arisco,
O INSTINTO expele a teia cônica
Que repele progressivamente,
Cerca o ser contra risco.
Uma clareira para a vida atônita
Onde vaga e resguarda.
A seta lhe espeta o ímpeto
E imprime a continuidade
A ponto de deformar da carne o cerne

A perda tanto vocifera
Que o desespero
Vira esmero
Pelo circundante espelho.
A DOR acelera a espera
E a efusão do assustento
Tinge, para o sempre, a arena de SENTIMENTO

O visco que recobre o velame do surto
Faz a pontada resvalar
Ou direciona-a ao devido ponto,
E o escultor vento, escoar.
Faz espiralar toda a minúcia
Pelo vórtice da turbulência.
Dando contra a inexorável seta um bafo de astúcia,
Veste de ALMA a existência

Triunfa, então, o tempo
Ao, incessante, rasgar tal véu
Ferve daí uma corrente para remendo
Cujos halos cabe ao PENSAMENTO costurar
Confabula
Rasteja por todas as páginas
Mergulha
Vasculha
Rodopia até se prostrar
Diante do Narciso TEMPO.


E então que PENSAMENTO enovela SENTIMENTO
Para que não sucumba diante da beleza da força da VONTADE
Movida pela seta do TEMPO
Que faz poses para este ESPELHO

BIU
3/05/2003

A/E fe(s)tivamente

TONS


“Existe uma palavra que significa exatamente aquilo que o escritor quer dizer. A sua luta é achá-la” Moacyr Scliar
“Dando tonalidade afetiva é que se gera memória efetiva” Ivan Izquierdo


A história dos guichês
Um camundongo
Reconheça-se um camundongo explorador
Explarador da dor da memória
Machucado pela inquietude da incompreensão
Que revisita a inestimável dor
Incontrolavelmente
Não suportando uma rejeição injustificada
Incapaz de admitir um choque irreal
Expõe-se a outro mais intenso
Causa de uma dor sem igual
Na profusão da qual o degrau da plataforma torna-se um abismo
Da Síndrome Pós-Traumática

BIU
25/05/2004

13.1.05

Partículas encontradas

Djairo de Figueiredo comparou sua carreira à trajetória de uma partícula com as seguintes palavras:
“A carreira de uma pessoa é de fato como a trajetória de uma partícula. Há uma força que a movimenta, uma espécie de gravitação universal, que nos conduz diretamente do começo ao fim da vida. Se nada fizermos, a trajetória será suave, sem sobressaltos, mas também muito desinteressante. Mas isso raramente se passa. Freqüentemente ocorrem forças que modificam a trajetória. Se não forem muito fortes, há apenas uma descontinuidade na derivada, ou seja, uma mudança de direção. O que é que são essas forças que modificam nossa vida e nos dão novos rumos? São nada mais nada menos que nossos encontros com as pessoas.”

Amor e sexo na política nacional - Arnaldo Jabor

Amor e sexo não são prosa e poesia apenas. Amor e sexo estão entranhados em nossa vida política. Antes, já tivemos a “sex-pol”, bandeira da política sexual dos anos 60. Hoje, temos no máximo a “pol-sex”, pois, como as ideologias dançaram, talvez só a sexualidade explique os rumos do mundo e, claro, do nosso grande Motel Brasil, das ilusões perdidas. As taras estão rolando no país e muitos de nossos erros nascem de falhas na felicidade sexual. Já tivemos a grande broxada geral do país, durante os 30 anos de inflação, que nos faziam impotentes diante do mundo. Conseguimos consertar a inflação mas, em seu lugar, chegou a angústia de um “coito interrompido” pelos anos de austeridade fiscal e monetária. O FMI atua como um juiz castrador que segura, interrompe o prazer do gozo do desenvolvimento. Somos uma expectativa que não se consuma, temos de segurar o crescimento com altos juros, nos conformar com as reformas que não chegam nunca, porque os estupradores do dinheiro público não permitem, no Congresso. Ali mora a sexualidade perversa que oscila entre grandes sacanagens e as medidas provisórias que bloqueiam o gozo do progresso. Depois da repressão do prazer na ditadura, tivemos a lua-de-mel fracassada da liberdade, pois um micróbio entrou no honrado rabinho do Tancredo e, por isso, tivemos o casamento ilegítimo da pátria-viúva com Sarney, o cunhadão-vice. Depois de cinco anos de decepção conjugal, a pátria se amparou num “Ricardão” salvador que nos libertaria do atraso, o nosso Collor, eleito numa consagração sexual também. Dele se falava com olhos “em alvo” e pestanas “gay” batendo excitadamente: Collor, eleito como um messias jovem, belo, macho, lutador de caratê e comedor de atrizes. Collor foi eleito por uma ideologia “aveadada” e salvacionista . E Collor logo nos corneou com o provincianismo corrupto, depois de alardear que seria moderno e impessoal, e fomos largados, depois do impeachment, nos braços românticos do Jeca-Tatu Itamar, um babaca sexual com a Lilian Ramos na TV e na avenida, que por sua vez nos trouxe seu bem-amado FH, que desprezou-o depois, deixando-o numa dor-de-corno cheia de lágrimas e vinganças. FH na comunicação com o povo foi de uma frigidez sexual absoluta, como um marido sem carinho. Deixou o povo carente de amor, faminto de carisma — então, só a quente promessa popular de Lula nos dava tesão. Lula foi esperado como um amante que nos satisfaria com foices e martelos, as professoras e intelectuais da USP sentiam se aproximar finalmente a trepada definitiva tão esperada. Lula chegou como o macho ungido, entre bandeiras vermelhas e abraços populistas, agarrado e beijado por multidões, como um Cristo sexy e revolucionário que daria ao país o grande orgasmo dos intelectuais cansados de “realpolitik”. Mas Lula não nos comeu como queríamos. Continua nas “preliminares”, beijinho e festinhas, para desespero de Maria da Conceição Tavares e tantas “marias” sociológicas que ansiavam por ver com quantos paus se faz uma canoa. A morte também (dizem alguns) sexualizada de Celso Daniel nos jogou nos braços de Palocci, eficiente, mas frio e calmo como um Lexotan, ao invés do Viagra que esperávamos na economia. E a população caiu de novo na fome de amor, esperando o crescimento, como um pau que não sobe nunca. Namorados e namoradas de Lula caíram em depressão rancorosa, amando Lula “pelo avesso”, falando mal dele, um amante que preferiu outros. E só nos restou o “troca-troca” a que assistimos no Congresso e no Executivo, numa pederastia de fundo de quintal, no calor obsceno dos conchavos, tudo obedecendo ao lema sacana de “é dando que se recebe”. O Executivo promete carícias e não cumpre, mantendo prostitutas oferecidas como o PMDB numa insatisfação permanente, como putinhas reclamando de seus cafetões, na base de “eu dei tudo e dele só recebi bofetadas!”. Como vingança, o Congresso se entope de Medidas Provisórias, numa castração dolorosa, sofrendo de angústia de morte, pois o “nem transa nem sai de cima” é a marca registrada da paralisia nacional, a velha suruba onde só as elites gozam, enquanto o povo não come ninguém. FH, por sua vez, se vinga das sabotagens do ex-namorado Lula e diz que o “rei está nu” e o Lula geme magoado, dizendo que FH “não quer que a pátria seja feliz com outro marido”. E este bloqueio paralisante da política e do progresso só nos exibe a masturbação ideológica, dentro e fora do PT, com todos se acusando de direita ou de esquerda, de neoliberais ou carbonários, como bichas brigando na avenida. Todas as gritas são xingamentos de “virgens” ou “piranhas” e o PT, que era uma freira recatada, caiu numa devassidão de alianças com bocas e línguas febris e titilantes, descontando os anos de pureza. À população só resta o vício sexual do voyeurismo, único consolo dos impotentes: ficar vendo as sacanagens alheias, em cores e som, com o advento dos gravadores e escutas telefônicas. Gozamos um pouco com políticos algemados, mas logo liberados para nossa decepção, com a perda de breves ereções patrióticas. No plano conjugal, continuamos cornos de políticos que nos enganam, que são eleitos para prefeitura e querem mais, com a voracidade sexual-populista que acometeu o Cesar Maia, sem contar com a infidelidade partidária desbragada, o adultério entre partidos e a bissexualidade ideológica do PT e do PSDB, participando de menages à trois com o PP, PL e PTB. E por aí vamos. São perversões sexuais variadas, como “orgia de gastos”, “ fellatio e cunilinguismo” na tetas do Estado, estupros no Banco do Brasil, em suma, uma gama de taras sexuais que impede que tenhamos o orgasmo sadio do progresso. E em breve fundaremos o MSC — Movimento dos Sem Calças — nós que não paramos de levar ferro.
Arnaldo Jabor

23º

Vigésimo Terceiro


Neste dia celebro!
Celebremos!
Celebremos a alvorada da descoberta!
A descoberta de si mesmo
E de todas as pessoas conectadas ao si
Atadas ao si
Numa rede emócio-histórico-cultural
A primavera do ser plural

Consonantal comemoração
Embevecida numa atmosfera de vivacidade
Cercada por atitudes, propostas, encontros
Celebremos o bem-estar
(Infelizmente contraposto a inefável agonia de outrem)
Que capta o viés lúdico- artístico de todos os estímulos
E emociona
Retroativamente
Num circulo virtuoso

Estarreço-me perante os nuances do Real
E vicio-me ao deslumbramento dos processos
Em todas as escalas
De complexidade

Estarreço-me perante o amor que me mantêm no mundo
Com que colibris engalfinham-se no arame farpado
Irremediavelmente tocados pela sabedoria do viver

Tanto o meu amor como o de outrem
Que harmonizam a unicidade do momento
E compõem meu ser emócio-histórico-culturalmente
Filo e anto geneticamente

Biu
28/09/2004