21.2.06

Largura na Amizade

A( )barca

"E só ficara comigo
o riso rubro das chamas, alumiando o preto
das estantes vazias.
Porque eu só preciso de pés livres,
de mãos dadas,
e de olhos bem abertos."
Bibliocausto - livro Magma
Joao Guimarães Rosa
“Viver para ser admirado pelos outros cria apenas fracasso e frustração"
Heróis de verdade - Roberto Shinyashiki

Parte a barca
Branca
Deixa larga
Embarca
Na largura
Arca
Larga

Não deixa a barca
Abarcar
A marca
E largar ao largo
Amarga
Alarga

Barca Furada
Rasga tecido
D’água
Arrasta
Aparta o broto novo

Surfa a barca
Um jeito povo
Barqueja
Arpeja
Ritmo
Encarna

Seja barca
Em barca
Forma nova
Embarca agora
A barca do eu
À barca do outro
Alarga a largura
Barca

Felipe Modenese
19-02-2006



Para que serve um amigo?

Milan Kundera, em seu livro “A identidade”, diz que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança contra a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.
Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou serão varridas numa chuva de verão.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos. Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta calor e a jaqueta. Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país. Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu. Um amigo não passa penas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o Reveillon. Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado. Um amigo não segura a barra apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem.
Se tiver num, amém.

Martha Medeiros

12.2.06

O gênio simples de mestre Rosa

Saudade

Saudade de tudo!...

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de aalmas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa de fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo...

Poema "Saudade" - livro "Magma" de 1936 -
mestre Guimarães Rosa

8.2.06

Visões

“Gostaria de dizer que penso nos humanos como fazendo parte de uma curva normal ou como a questão do limiar de dor. Se passarmos a existência a olhar de fora, ela fica pesada e insustentável, mas se passamos além disso, podemos atingir um tal grau de praticidade na existência que ela se torna leve e adaptativa. Acho que está perto das idéias do zen budismo. Nossa civilização ocidental separou mente e corpo e tornou a existência uma questão de luta e não de fluxo. O homem rico é aquele que está satisfeito com o que tem. Nossa sociedade consumista e competitiva vai solapando o gosto de simplesmente ser”
Glória Cintra - psicoterapeuta

4.2.06

Miró-Melo-Kafka-Koellreutter

“Fico agitado quando vejo, num céu imenso, a lua crescente ou o Sol. É por isso que em minhas telas existem diminutas formas em grandes espaços vazios.”
“A tela deve ser fecunda. Deve criar um universo onde, pouco importa, divisarmos neles flores, personagens, cavalos, contanto que revele ao mundo algo vivo.”

Joan Miró

“É a esse vivo que parece aspirar a pintura de Miró. Isto é, a algo elaborado nessa dolorosa atitude de luta contra o hábito e a algo que vá, por sua vez, romper no espectador, a dura crosta de sua sensibilidade acostumada, para atingí-la nessa região onde se refugia o melhor de si mesma: sua capacidade de saborear o inédito, o não aprendido.”
João Cabral de Melo Neto - amigo de Miro

A Partida
Dei ordem de irem buscar meu cavalo ao estábulo. O criado não me compreendeu. Fui eu mesmo ao estábulo, ensilhei o cavalo e montei. Ao longe ouvi o som de uma trombeta, perguntei o que significava aquilo. Ele de nada sabia, não ouvira nada. No portão deteve-me, para perguntar-me:
-Para onde cavalga o senhor?
-Não o sei - respondi -. Apenas quero ir-me daqui, somente ir-me daqui. Partir sempre, sair daqui, apenas assim posso alcançar minha meta.
-Conheces então, tua meta? - perguntou ele.
-Sim - respondi eu -. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta.
Franz Kafka
(recebido de Eduardo Garcia Gil- Dú)


“A arte é uma contribuição para o alargamento da consciência do novo ou do desconhecido e para a modificação do homem e da sociedade. É necessário que a arte se converta em fator funcional de estética e humanização do processo civilizador em todos os seus aspectos. A função do artista deve ser a de contribuir para a conscientização das grandes idéias que formam a nossa realidade atual.”
Koellreutter

3.2.06

Religiosidade - vergonha e culpa

Revista Bravo: Foi mesmo a religião que salvou sua vida?

Seo Jorge: Eu não tenho essa relação de pecado e paraíso, de sair daqui para pagar não sei onde. Acho que a coisa é toda resolvida por aqui, mesmo. Se vacilar aqui, é aqui que tu estás fodido. Se acertar aqui, é aqui que vem a bonança. Talvez, se o Brasil tivesse sido educado nessa concepção — eu nem digo “religião” —, a gente tivesse mais mico leão dourado espalhado por aí. Mas fomos criados na concepção católica, onde é proibido, é pecado, é feio, é bonito, é com alma, é sem alma... deu essa cagada toda que está aí. Sou candomblecista sim, sou filho-de-santo pesadão como todo preto brasileiro é. Meus santos estão todos na atividade e se mexer comigo são três tambores comendo na cara. E não é papo de magia negra, não. É dança, é canto, é expressão, é sorriso, é gargalhada, é cerveja, é rango, é lombo de porco, é lingüiça de porco, é feijão, é fartura, é tambor, é todo mundo de branco! Todo mundo bem decorado, bem colorido. É cheiro de mato, cheiro de erva, é biodiversidade. Neguinho está perdendo, não sabe o que é.



Culpa e vergonha (Moralidade 1)
Em 2005, as CPIs escancararam atos de corrupção, apropriações indébitas, malversações variadas. A campanha eleitoral deste ano promete uma reprise e uma ampliação do mesmo espetáculo.
Mesmo assim, a impressão de muitos é que tudo isso seja apenas a ponta de um iceberg. É como se estivéssemos convencidos de que uma desonestidade endêmica compromete cada órgão vital do país, se não cada consciência.
Pagamos a dívida com o FMI, conseguimos um superávit primário e, quem sabe, com a inflação controlada e a baixa dos juros, a dívida interna diminua. Mas não há como festejar: o país nos parece sofrer de um déficit mais fundamental, que nenhuma política econômica sarará, um déficit moral.
Durante o século 20, aliás, muitos sociólogos e ensaístas brasileiros se debruçaram sobre esse déficit moral, perguntando-se como ele teria chegado a ser um "costume" nacional. Um costume, segundo a definição proposta por Tocqueville, é um hábito do corpo e do espírito, um hábito compartilhado por uma coletividade; ele dá forma a escolhas e atos de maneira, por assim dizer, espontânea, irrefletida.
É nesse contexto que dedico uma pequena série de colunas (seguidas, mas com possíveis exceções) ao funcionamento de alguns reguladores da moralidade em nossa sociedade.
Num livro famoso, "O Crisântemo e a Espada", de 1946, uma grande antropóloga americana, Ruth Benedict, tentou entender a sociedade japonesa.
Ela chegou a uma conclusão que se tornou clássica: há sociedades em que o comportamento moral é regulado pela vergonha (por exemplo, o Japão) e outras em que ele é regulado pela culpa (por exemplo, as sociedades ocidentais modernas). Em cada tipo de sociedade, ambos os afetos estariam presentes como motivações e deterrentes, mas um deles seria dominante.
Nas sociedades em que predomina a vergonha, o sujeito escolhe agir, se abster ou impor limites à sua ação para não perder a face e para preservar ou resgatar sua honra e sua dignidade. Nas outras, o sujeito age para evitar a culpa ou para expiá-la.
A ação moral concreta é parecida nos dois tipos de culturas. Por exemplo, em ambos, um sujeito moral não rouba, mas, no primeiro caso, ele não rouba para evitar a desonra que espera o ladrão; no segundo, ele não rouba para não se sentir culpado.
A vergonha parece ser um regulador perfeito para as sociedades tradicionais, em que, acima da lei, vigem os códigos de honra, a fidelidade ao legado dos ancestrais, o sentimento de uma missão simbólica da estirpe e da casta -ideais que permitem medir nosso valor e nossa dignidade.
A culpa seria o regulador das sociedades individualistas modernas, cuja origem está na idéia cristã de que o indivíduo deve pouco ou nada a seu passado e aos grupos aos quais ele pertence, mas é contável diante de um Deus que sabe tudo e, em última instância, julgará e punirá ou recompensará.
O Brasil de hoje é, grosso modo (voltarei a essa aproximação), uma sociedade ocidental moderna e fundamentalmente cristã. Na oposição proposta por Benedict, o sentimento que regula nossa ação moral deveria ser sobretudo a culpa.
No entanto, a sabedoria da língua sugere algo diferente: a malandragem "não tem vergonha na cara", "sem-vergonha" é uma fórmula tão corriqueira que se tornou um adjetivo hifenizado, assim como "pouca-vergonha" se tornou um substantivo e o mesmo vale para "cara-de-pau".
Em matéria de moral, nossa língua espera mais da vergonha que da culpa. E, ao estigmatizar a imoralidade, ela deplora mais a falta de vergonha do que a falta de culpa.
Apesar da idéia de Benedict, nossa língua tem razão, sobretudo porque a culpa, de fato, é um péssimo regulador moral.
À primeira vista, que a gente acredite ou não nas penas do inferno, pareceria lógico que evitássemos as ações que (como sabemos sempre de antemão) não nos deixariam dormir tranqüilos. Mas qualquer terapeuta sabe que não é assim: a culpa funciona como uma espécie de pagamento antecipado. Autorizo-me a fazer algo que me parece errado justamente porque sei que me sentirei culpado, e meu sofrimento futuro compra, desde já, o perdão para meu ato.
A Igreja Católica, quando instituiu o arrependimento e a penitência como condições da confissão, inventou um dispositivo extraordinariamente permissivo. Posso pecar quanto eu quiser, pois já me arrependo, sinto-me culpado, sofro e meu sofrimento me remirá.
É a mesma dinâmica que funciona quando pedimos desculpas: numa palavra só, admitimos que nosso ato é errado, prometemos que nos sentiremos culpados, e essa promessa nos garante o perdão. Com isso, podemos furar a fila e passar a perna, à condição de murmurar "desculpe".
A vergonha é um regulador moral muito mais eficaz que a culpa porque meu sofrimento por perder a face não repara minha honra. Enquanto a própria culpa absolve o sujeito culpado, a vergonha mancha, e sentir vergonha não restitui a dignidade de ninguém. A única cura da vergonha está nos atos futuros do sujeito.
Mas como funciona (ou não funciona), então, a vergonha numa sociedade moderna, como a nossa?
Continua.


CONTARDO CALLIGARIS (Folha de São Paulo, quinta-feira, 02 de fevereiro de 2006)